terça-feira, 24 de setembro de 2013

Como nascem os poemas? E os elefantes?

Rossana Bossù

"Far from home, elephant gun
Let's take them down one by one
We'll lay it down, it's not been found, 
it's not around"


Os poemas nascem dos olhos
dos ouvidos, do paladar, dos sentidos,
da pele que roça no tato da língua viva
e voa entre malabarismos de um beija-flor de papel.
Os poemas nascem de Quintana e de toda maçã da cesta,
nascem do cheiro de café que invade a cozinha da casa
nas coisas minúsculas, nas fotografias, nos baús da família.

Os poemas nascem dos olhos 
e do desejo de amar para sempre
aquela mesma intensa pessoa
que me olhou hoje um sereno.

Sim, direi que os poemas nascem do desespero,
das noites de morte e ventania no coração,
de todo absurdo e do medo, da dor da existência,
da vastidão e do incenso,
do pavio, do aceso,
do fogo, da alma,
de todos os elementos.

E tem o poema que nasce de um conta-gotas
ou na escuta de uma bela canção
que fala sobre a morte dos elefantes
e de um tipo de armamento que derruba grandes espécies.

O meu nasceu da natureza de Alice
que me deu de presente essa escuta
- uma gota - esse todo amor de filha.
E um poema assim, nascido de uma canção,
quer se pôr como os elefantes,
com a dignidade das grandes espécies.

Porque os poemas aprendem e nascem de todo fim
e todo fim por ser começo
tem sombras, luzes,
o grave e o silêncio,
a espera. Uma indistinta espera de ser. 




Patricia Porto

domingo, 22 de setembro de 2013

Para os tempos que curam.

Alain-Laboile. Arte em família.


Pétala a pétala
desnuda-se o amor.
Bem me quer...
Mal...
Não. Nada de mal.
Eu só desejo o bem-me-quer...
o Quem-me-quer.

Pardon, pétalas do mal.



Patrícia Porto

sábado, 21 de setembro de 2013

Do tempo à flor.


................................(a gente sempre acha...)

Dê tempo à flor.
É lá onde se perde
- entre fugas e pés
no corpo
do rio, no-além-grão,
que vai com-pondo-mar-gens...

Lá onde a vida curva,
movi-menta-a-mente
e cura-o-ventre
habita a morte: a lúcida?

A lucidez da louca
é que escapa ao vento
e a enche com agonias tolas
e castra a farsa doida.

Dê tempo à flor.

É lá onde suas águas sujam,
líquida do corpo em espaço
que deixa mãos e pés à mostra,
aguando, sujando os dedos,
desfolhada a alma...

Perdoando os crimes
que não cometeu...

Só planejou.
.............................................
Patricia Porto

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Móbiles

Matylda Konecka

Todo movimento
sem movimento
Não-movimento
Inércia?
*
Toda música
sem som
Nenhuma nota
Silencia?
*
Todo corpo
nu de
Muitos mistérios?
Enigma?
*
Toda alma
em-si
Eterna
nua
no Es pa ço
Pesa?
*
no tempo
 há tempo
ou móbiles?

Patrícia Porto

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Ana na Janela.

gioia di scrivere © Rossana Bossù
Florvioleta
Rosa cor
Rosa som
Rosa simplex
Vida dor
Dó e nó
Vida não
Se assemelha
A sementeira
Daninha

Terra sim
Florvideira
Rosa com
Via-láctea
Rosa sem
Arma-duras
Ama sim

Nanaflor
violetas
Rompe
enfim
Violenta
Represa
De palavras

Livre sim
Anaflor
Vio-letras
Nas janelas
Que te vi
escrevendo
Lilases


Patrícia Porto

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A Mãe do Pedro.

"Principe e lupo"_ Rosana Bossù

Pediram na escola que eu desenhasse a minha mãe.
Então eu desenhei uma nuvem.
Disseram: Não, não é assim, sua mãe não é nuvem. Desenhe de novo.
Então eu desenhei uma pedra.
Mas disseram que minha mãe não era pedra.
Então eu desenhei uma espaçonave!
Mas disseram que ela também não era espaçonave.
Então eu desenhei um navio, um castelo, um arquipélago, uma tartaruga,
um lobo, um cavalo marinho, um templo e um passarinho.
Perguntaram: então você não sabe desenhar sua mãe?
Sim, sei, como um universo. Do jeito que ela me contou.

Patrícia Porto

domingo, 15 de setembro de 2013

Vestido branco.

Rossana Bossù

Bem lá no interior,
na fronteira entre um quintal e uma varanda
plantei minha simples vida de quermesses.
E só vestia branco

E foi vestindo branco
que ventos o carregaram com minha coleção de preces.
Andei horrores a procura de notícias:
que viessem de tempestade ou navio,
por mar, chuva, procissão, devaneios.

Mas não me chegavam sequer engarrafados os bilhetes de morno amor,
nem telegramas, nem desespero,
nem a trama que bem fiz com meus retalhos.

Meu vestido branco voava sem pregar dores
dançando suspenso na minh'alma em varal.
Comecei sem saber a ter desejos de andorinha.
E como quis voar sobre minhas folhas de antigos
com minhas próprias asas de vela e brechó!

Tanto mal olhado molhando o amor deitado fora
que meu vestido branco vencido pelo vento
contorceu-se de si entre as lágrimas dos corpos
das mulheres que esperam
nos alpendres dessas secas
das angústias dos anos desaparecidos.

Quem sabe o amor retorne agora mais avisado
com uma florzinha de campo e entrega.

Recolho-me mais uma vez meio “lacrimoça”
à cadeira de balanços a sonhar.

No fundo há só o raso do interior
e azul é todo oceano vestido de domingo
e ele mora num quarto branco de silêncios.

Patrícia Porto

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

manca das ideias


Imagem: Sophie Blackall

Sou poeta por Ofício e ossos. Não é nenhum sacrifício, embora seja um sacro ofício.
Não entendo a vida sem poesia, esse lugar que me emerge do adulto chato, que nem gosto tanto assim.
A literatura me salvou de muitos atropelos; e de outros não. Por isso preciso conviver com minhas quedas e sou meio ou muito manca das ideias. É que eu disfarço bem pra não levar pedrada de gente que anda correndo com pedra na mão – só para atirar no manco mais próximo.
Todas as outras coisas que faço são também poesia: filhos, amigos, a educação... 
Tem dias que levanto da cama totalmente manca das ideias, precisando de oxigênio poético. Como hoje. 
Patricia Porto

Eu fugi com o Circo.

Lieke van der Voorst


Desde criança eu esperava o Circo passar.

Feito Carolina.

Emborcada na janela.

Demorou. Demorou. Demorou.

Vovó dizia: "pensa que é Pinóquio .. Tem que ir pra escola ser gente!"

E eu fui... E fiquei tempo demais tentando ser gente.

A Carolina nem viu.

Um dia o Circo chegou...Boneca de madeira. Boneca de pano. Boneca maluca dançando...

Eu fugi, vovó. Virei criança de verdade.

E nunca mais vou adultecer.

Gente, gente nem sei.


Patrícia Porto

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Noturnos.

Rafal Olbinski

Chuva cai fina,
leva o dia, 
a noite de leve abraça o nudo corpo.
O que é um corpo sem pensamento?
Uma arte inventada pela mente?
Um permeado de sentidos
sem projeções de centro,
sem fazer do periférico dentro a distância ínfima?

Sem nenhuma morte circunstancial nem acidental,
só as veias da raiz que se aprofundam.
Apenas o nu do corpo e o devir.
Ah, sem mais dever de casa!
Um corpo que dança, que danças, dançamos...
Um corpo que fala!

E se medos invadirem os sinistros
e o guarda-fantasmas de baús sombrios
se abrir, lá vamos dançar com eles nova melodia!

Chuva fina vai afiando o som, afetando a terra,
desfiando a teia pra compor outro dia, outra esfera.

São tantos ritmos,
luzes de acesos nas noites soturnas.
Que se brinde a chuva!
Que se dance em tribos!
Que se fale o verbo em voz de mistério,
pois a fé não troca a dança da vida por qualquer moeda.
E a espera é sempre imperfeitamente humana.

Toda inquietação, toda pulsação,
toda dimensão 
dedilhando o tempo,
transformando as dores, adubos de vivos,
corpos e acalantos,    

e colo, 
colo pra dormir.

Dorme, meu bem,
que a noite já vem...

Patrícia Porto