quinta-feira, 15 de agosto de 2013

paradoxais

Rafael Angulo

Nenhum pêndulo seria capaz
de me levar de um lado ao outro
sem os teus olhos a me seguir.
O Translado disso: mudar de mapa;
O medo, a revolução;
A terra, rota;
O curso, rumo;
O porto, pacífico;
A casa, estado...
I am the poet of the Body and I am the poet of the Soul...
Trans ferir do peito a cruz
para atravessar o mar a nado.
A tristeza colocar num susto violeta cor.
E mudar, mudar a grama paradoxal
a nascer sem permissão,
a morrer sob teus pés,
crescendo salgada, invadindo o campo minado
que inventei sozinho, em vigília,
entre objetos de sopro e tranca,
suspeitando apenas de mim entre todos nós.
I am the poet of the Soul and I am the poet of the Body...

Patricia Porto

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O cronista em cena: eis a questão.

               
Jordi Díaz Toirán
               
               Essa mania de dividir, classificar, rotular as pessoas, as coisas todas... É um novo toc coletivo. Um vício de linguagem, da linguagem que oprime e segrega. Disse o filósofo: “temo que não nos desvencilharemos de Deus, porque ainda acreditamos na gramática”. Temo que jamais nos desvencilharemos de uma gramática que mata de fome um sujeito sobre quem se fala alguma coisa e que vai guardando seus ossos de relíquia no exagero do esquecimento. Temo que, por desgraça e rigidez, essa armadura inviabilize o êxodo desse  tipo de domínio, de um discurso que entende que você e eu somos sujeitos e que, inevitavelmente, morreremos sujeitos no imobilismo dessa distinção do ser, julgados e separados sem ambivalência.
                Vou dar um exemplo. Você entra no elevador e lá está escrito “A senhora Maria da Silva Pereira não é mais funcionária do prédio.”  Duas questões graves. A primeira questão é a falta de privacidade que nos torna todos vitrines de vidro extremamente desinteressantes. Uma mania  de limitar o ser quando dito por outro.   A segunda questão fica por conta do uso e do abuso de dizer que Maria está expressamente demitida numa vitrine de vidro.  Maria, Maria da Silva Pereira está demitida. Maria não é mais funcionária do prédio. Maria não pertence mais ao quadro de funcionários. Maria está no olho da rua. E ponto. Quem é o sujeito? Ora, o sujeito é a truculência, a brutalidade do cuspe. A boca que classificou o sujeito dessa frase cospe em nossas caras com escárnio. E ainda coloca Maria na condição nominal da fila do auxílio desemprego.  Maria não é mais. É menos. E é mais uma. 
               Hoje pela manhã eis que um cronista, que anda sempre desavisado, se deparou com um papel de carta no prédio em que mora, um papel que anunciava que Maria não estava mais lá.  No elevador “social”... Será o outro anti-social? Mas lá no elevador social tem uma espécie de mural de avisos de vidro onde um homem baixo e de bigodes que se assina “sindico” coloca mensagens, informações e bizarrices.  Na coisa envidraçada até mesmo um aviso de dedetização espanta com seus ratos baratas e cupins, todos escritos com caneta vermelha: "faça agora!" Quem inventou esse pombal chamado prédio, edifício, condomínio, de certo não poderia imaginar a solidão que essa gaiola causaria à humanidade. Uma grande jaula humana boiando na cidade vertical. O cronista sente-se mesmo como se morasse numa espécie de ensaio sobre novas cegueiras: a senhora do quarto andar, a menina dark do quinto, a outra menina, a vizinha, o médico do sexto e a mulher do médico... 
          Mas ali, em pé, diante do evento escrito no elevador, o cronista não sabia, ao certo, se ria ou chorava. O aviso apenas dizia que Maria "não era mais". E  por, quem sabe, ocasional e mera bobagem, trazia no mesmo papel de aviso a imagem singela de um beija-flor azul. A contemporânea invisibilidade de Maria fez o cronista amar loucamente o beija-flor azul: tão preso, livre, solto, subindo e descendo de elevador, numa espécie não tão rara nem tão extinta de angústia, enfeitando a despedida de Maria, numa transgressão estranhamente ilógica. O cronista, num gesto totalmente súbito, rasgou o papel e roubou o beija-flor para si. Quem era a Maria? Fez então seu jogo de quebra-cabeça. Maria era a pessoa de sorriso largo, essa coisa rara e em extinção. Maria tem Ana de filha e dois netos que moram com ela. Criou e cuidou de três irmãos no interior de Minas, e fez tudo isso sozinha, porque "mãe e pai morreram cedo e não deixaram tostão". Maria que namora o Geraldo e que vai pra seresta cantar "música de qualidade". Maria, aquela que não leva desaforo pra casa, que não tem papas na língua. O cronista pôde assim sorrir de lembrança ingênua.
              Sobre Maria, o síndico disse ao cronista: "ela não é mais funcionária do prédio" nem no nome nem no pronome. E disse mais: "ela não sabe o lugar dela."  O lugar dela. O lugar do sujeito dela.  E o cronista coçou o queixo, como se fosse muito inteligente, e perguntou ao vazio: e se o sujeito sempre tão determinado quiser um dia cobrar as favas contadas de seu ressentimento? Em tempos de guerra todo sujeito é inimigo de todo sujeito?  Em tempos de guerra, nosso sujeito desconfiado voltará correndo para trancar portas, guardar seus pertences nos cofres e armários? E a vida prosseguirá como sempre? Miserável, bruta e curta? Miserável, bruta e longa? Sim, talvez, como bruto, miserável e rude é o verbo que separa o sujeito em duas espécies de homens: os que são e os que não são.  Sim, Leviatã sempre poderá vir nos assombrar com seus sujeitos sujeitados. E se crescer assim, de repente, comendo, mastigando nossas carnes, se refestelando com as gorduras do nosso ódio, da indiferença, a mesma que nos faz prosseguir mesquinhos ou tolerantes, tolerando os outros em soberba e superioridade, comeremos Leviatã no espetinho.  Humanos e desumanos. Vizinhos sem nome, morando no mesmo prédio-Terra onde Maria hoje é o sujeito que não é. Mas se as margens seguem violentas aprisionando o beija-flor no papel...

Patrícia Porto

domingo, 11 de agosto de 2013

Pulsos e Bacias.

Sally Mann

Precisava hoje de mãos
para amansar a loucura
e amassar o pão
do mesmo fel do joio

de Mãos para romper
em dia as noites que fiz
com doses de beber ventos

para aquietar o inferno
de memórias quentes
de um volumoso mergulho nos rios
mudados de curso

Mãos lavadas
para tocar o corpo inerte
quase entregue ao prazer
antes de sua morte triste

para louvar todos os deuses femininos
que inventei

para exumar
desencarnar
o ódio
e o riso
E todos os ofícios
da violência
E todos os ossos do limbo
mastigados sobre a mesa

Mãos
para estancar
de dentro o mar
de sangue
a porra toda
a vida doce
a sanha o teto
as carnes

Entre dentes
o fervor vaginal
estupor, o tumor
de intentos e os insetos
os cães famigerando
esfomeando,
farejando: a menina
as laranjas cortadas em quatro,
as flores e os bagaços,
os anjos pendurados
para não sentir dor
para não sofrer dor

nossa senhora,
mãe de todas as rezas matinais
"me livre desse mal"
Do teu manto
desesperanço:
a santa é surda

Mãos de dentro
dentro
onde tudo dói
dói o mais

Crucifica
existir fora

Insistir, pai
dói demais
te parir, pai,
puta merda,
mulher de mim
todos os dias
sem nenhum pau
advento ou luz
só com meus pulsos
tua rinha
teus galos
e as galinhas
que tia Marta mata
tranquila
nas bacias

Doeu tanto existir, pai

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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