sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura. Patrícia Porto


Patricia Porto

Este aqui é um dos textos que fez parte do grande painel memorialístico que foi a minha tese e a minha pesquisa de doutorado. Uma das belezas do caminho foi poder "literalizar" grande parte do texto acadêmico e ficar no entre, numa corda bamba de conforto, que ao final conseguiu me ofertar equilíbrio sem que eu precisasse escolher ou apartar o que sempre - em mim - se deu concomitantemente. Sempre serei grata à Academia (UFF) por ter acolhido e premiado este desafio e também esta ousadia. Depois que publiquei o livro, uma historinha - entre tantas - me deixou muito feliz: um dia recebi um telefonema de umas das minhas tias dizendo que tinha adorado ler "o meu romance". 

Do livro: 

"The art of losing isn't hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster. 
 (“One Art”, Elizabeth Bishop)

          As pessoas perdem diariamente: neurônios, células, cabelos, unhas, papéis, bilhetes, máscaras, memórias... Perdas banalizadas no amontoar das agendas que remontam tão pouco o contar dos danos absolvidos. Um dia perdemos as chaves de casa e nos pegamos com aquela sensação estranha de ter inaugurado, sem querer ou esperar, uma avalanche ininterrupta de perdas cotidianas: lá se vão os documentos, a hora do almoço e a hora de dormir, a hora de brincar com os filhos, de ligar pra amiga que está de cama com febre, de escrever um bilhetinho de amor pra pendurar na geladeira. Com a geladeira vazia por fora e por dentro, perdemos a alquimia de preparar nosso alimento, perdendo também a mesa e a conversa na varanda, na sala, no quarto. Conversaremos com banheiros, apertados de preferência, solitárias testemunhas das nossas ansiedades claustrofóbicas. E a passos rápidos perderemos um dia a e-terna-idade do chá que nunca marcaremos. Porque teremos passado anos a fio, ferro, fogo e açoite, perdendo um tempo danado investindo toda quantia recebida no final do mês nos pagamentos do começo do mês: para os bancos, para os impostos, para as contas a penar. E quantas a-pesar! E paranóicos trataremos de fazer cópias das chaves, das fotos, dos documentos, dos corpos com os quais deitamos. E nos preocuparemos em ganhar mais dinheiro para não nos preocuparmos em perder tanto dinheiro. E esqueceremos tudo que for de constrangimento com o tempo futuro para repetirmos tudo de novo e não pensando em nada, nada criarmos a respeito... Pequenas perdas visíveis se atrelam a um tempo imediato: “aquele” que não se quer perder, mas já perdido está: estamos sem tempo! E é claro que nos denunciaremos de quando em quando, lembrando uma, duas perdas, ou melhor, esquecimentos... nossos. Uma humanidade inteira de esquecimentos. Uma História inteira.
             E é certo que perderemos ao longo da vida bens de um mundo concreto e excessivamente real, perdendo objetos, coisas que se gastam pelo uso e até pelo bom ou mau abuso: brinquedos, cartões, cartas (se os enviarmos e recebermos algum dia, é claro), perderemos bugigangas, bibelôs, meias, livros, luvas, guarda-chuvas... Guarda-chuvas... Em algum lugar, no mundo do excessivamente imaginado, deverá existir um reino de afeto para os guarda-chuvas perdidos, esquecidos nos bancos das praças, nos lugares a ermo, nas calçadas, nos chafariz tomando banho, nos sinais equilibrando malabares.
          Um dia acordaremos velhos e teremos perdido o primeiro amor... E como será difícil perder! Dor no peito, sofreguidão que parece eternizar as horas, os minutos longe do ser adorado. E logo aprenderemos que doer não é somente parte do crescimento. Doer é o próprio crescimento e aprenderemos – às vezes no susto - que dói mais perder pessoas que coisas e que pessoas não são coisas. Não servem para qualquer tipo de uso ou abuso. Uma aprendizagem que para alguns começará muito cedo, até mesmo antes do nascer da vida ou do dia. Mas que para outros começará tão assustadoramente tarde que mal haverá tempo desprendido para a descoberta de uma compreensão mais profunda de mundo.
            Dizem os mais antigos que algumas pessoas nasceriam com maior propensão a perdas que outras. Seria uma questão de destino, estrela, sorte ou devaneio de quem diz: nasceu “voltado” pra lua. O certo mesmo é que ninguém, nenhuma pessoa humana passará pela própria vida sem nunca perder algo ou alguém – seja por destino, livre arbítrio, resignação ou desejo. A gravidade, bem, a gravidade só saberá quem viver e quem viver viverá. Existem conjunturas as mais diversas e até algumas esquizofrênicas. Às vezes se chega ao auge, ao topo da montanha, da colina ou de uma escada, quando, de repente, sem que se noticie, lá no esconderijo do sótão se encontra em estado escondido uma perda imensa que se aloja na mente e no coração sem qualquer justificativa, ocupando espaço demais. É um imprevisto de existir. Vive-se então o conflito de uma felicidade vazia. Como quando entramos nos casarões antigos, bem mobiliados, limpos e nos cantos nos deparamos com ratoeiras à espreita querendo ferir a frágil existência do rato, o rato de Clarice.
            E não será também o rato que se espera prender e amordaçar com medo e vingança parte de uma perda ulterior? Tanto ódio sangrará o rato? Matará o rato? O cadáver do rato quebrará nossos espelhos? Ou serão nossos os dedos presos e decepados pelas ratoeiras? Mas dizem também os antigos que quando se vão os anéis, os dedos, esses ficam. Os dedos que vamos perdendo das mãos. Para que mãos se elas não nos servem para o artesanato de afagos, preces e acenos?
            Assim como é dito no belo poema de Elisabeth Bishop há uma arte de perder: perderemos cidades, rios, continentes inteiros. Perderemos o sotaque e a gente que morava com a gente, a gente que reconhecia a gente na rua, a gente que abraçava a gente por nada, de graça: nas brincadeiras de roda, nos encontros entre amigos. Perderemos e não daremos conta do risco e do riso. Se uma alegria é uma ação única e irrecuperável, a memória, mesmo a dessa esfumaçada alegria, é nada mais que o vestígio, a pétala seca do que um dia foi vivido.
           Não precisamos de tantos acúmulos. Imprecisamos. E as perdas fazem parte do que somos. Há perdas precisas e até preciosas – como lágrimas, sorrisos, a separação decorrente da liberdade de quem se ama, o crescimento absurdo dos filhos, os frutos que amadurecem e as nossas raízes, que quase sempre tortas, depois de viverem todas as suas estações se vão para o dentro delas. São perdas, partos, despedidas que trazem à tona o nosso departamento interno de “perdidos e achados”.
            Perdemos chaves, óculos, carteira, o trem fantasmagórico das coisas, um porão de lembranças e urgências para as traças. E se o mundo for mesmo acabar pelo aviltamento dos corações como professou Baudelaire, talvez possamos ainda nos empenhar um pouco mais no zelo de nossas mãos para além da arquitetura das guerras e das ratoeiras. Dedilhar os dedos de outras mãos, quem sabe. Atravessando a rua para sair do choque, do sentimento fúnebre dos bairros, das cidades e países que habitam nossos dias anêmicos, para talvez cessar esse tempo da fúria e do silêncio, nos abrigando em qualquer afeto, qualquer esperança - não de futuro (que não existe) - mas de presente.   

Patricia Porto

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Cartas ao mar.

Anka Zhuravleva

Cartas jogadas ao mar?
Não teremos mais.
De tolas certezas se preenchem a vida dos que andam ao certo.
Agora sim,
o sal do perecível dos beijos,
do perecível do amor,
do mundo o filho descartado,
porque sei do dia o mal estar do domingo à noite,
a solidão da geladeira. A ração congelada.
Sei da estátua de um seio amputado,
da bomba anatômica apontada para o nosso umbigo. A perfeição.

Cartas jogadas ao mar?
De insônias passam seus dias, os lobos solitários.
Sei do ínfimo das margens,
(e por que tantas margens se a alma está só?)
(por que tantos parênteses?)
Sei da fragilidade do mundo,
porque fui do raciocínio lógico um afogado firme!
Sei do verso o vespeiro, o excluído, cortado sem dó.
A palavra que me apertou o gatilho. E partiu. Abandono.

Cartas jogadas ao mar?
Com poucas palavras deixei minha cidade.
Disse pra velha que voltava logo. Não voltei.
Sei por tantos do mapa que não segui,
das veias tortas do mundo, porque sou dele
o tempo bastardo e a falta de semelhança com a reta...
Sei do escudo de uso pra morte súbita,
A mão de mulher que acenou até o fim. Esperando.
Eu sei do bicho esquecido no mato. Mãezinha...
que Deus o tenha.

Patrícia Porto

sábado, 24 de agosto de 2013

passagens e caminhos.

© Jan Saudek


E se perder for de grande liberdade
que seja o abrigo o colo o remanso do teu abraço amigo,
que o sono chegue encostado ao teu braço, envelhecendo mansinho...
Soou o sino da igreja, podemos seguir.
Por onde crescemos, agora apoiados, sustentados em ombros firmes vamos:
ao Mar, ao mar secretamente diremos nossos dilúvios de pensamentos...
ao Mar jogaremos nossos barcos encantados, nossas relíquias...
E seguiremos ambos enluarados,
abençoados de Amor, pousado o pássaro sobre o varal.
Correremos entre lençóis molhados, crianças de novo,
velhos de novo,
muito velhos de tão jovens,
irmãos da serena madrugada ou da fria turbulência,
atravessados de vida
até que o caminho nos separe...


Patrícia Porto

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Em doses de absurdo.

Denis Buchel


Cansei de ser invisível
onde paredes do teu corpo me comem os olhos,
não me fazem perguntas ou mal duvidam de mim.
Cheguei  cedo ao mistério e sinto muito ser esse farol...
Mas preciso das vitrines de olhos que me vejam da luz
às trevas... e essa minha sombra fria de existir, dela posso até rir.
Quero o toque do Sol curtido, quero da plateia o espetáculo.
Cansei do ser o invisível: sem nome, espécie ou trocadilho...
Sobre o teto, grito: Como são belos os poetas!
Como são belos esses dançarinos que não me deixam morrer de fome,
à margem louca de mim mesma!
Por favor, apaguem a luz dessa escuridão.
Eu não estarei sozinha do outro lado desse espelho,
pois não vou me assustar mais com a minha presença.
Eu ganhei o tal pote do outro, o pote do outro, de ouro, de ouro...
Minha cabeça flutua e estou na praça girando o mundo com meu novo código.
Decifro-me sem ódio, decifro-me sem engasgo, sem as penas, sobras rasas de teu afeto.
Quero todo Amor explícito do amor que sinto exposto!
Toda palavra oculta, todo verso rasgando o tempo morno!
Quero tudo e ainda acho pouco se for de gasto estúpido.
Só aceito tudo! Mais Nada!


Patrícia Porto
 

   

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

paradoxais

Rafael Angulo

Nenhum pêndulo seria capaz
de me levar de um lado ao outro
sem os teus olhos a me seguir.
O Translado disso: mudar de mapa;
O medo, a revolução;
A terra, rota;
O curso, rumo;
O porto, pacífico;
A casa, estado...
I am the poet of the Body and I am the poet of the Soul...
Trans ferir do peito a cruz
para atravessar o mar a nado.
A tristeza colocar num susto violeta cor.
E mudar, mudar a grama paradoxal
a nascer sem permissão,
a morrer sob teus pés,
crescendo salgada, invadindo o campo minado
que inventei sozinho, em vigília,
entre objetos de sopro e tranca,
suspeitando apenas de mim entre todos nós.
I am the poet of the Soul and I am the poet of the Body...

Patricia Porto

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O cronista em cena: eis a questão.

               
Jordi Díaz Toirán
               
               Essa mania de dividir, classificar, rotular as pessoas, as coisas todas... É um novo toc coletivo. Um vício de linguagem, da linguagem que oprime e segrega. Disse o filósofo: “temo que não nos desvencilharemos de Deus, porque ainda acreditamos na gramática”. Temo que jamais nos desvencilharemos de uma gramática que mata de fome um sujeito sobre quem se fala alguma coisa e que vai guardando seus ossos de relíquia no exagero do esquecimento. Temo que, por desgraça e rigidez, essa armadura inviabilize o êxodo desse  tipo de domínio, de um discurso que entende que você e eu somos sujeitos e que, inevitavelmente, morreremos sujeitos no imobilismo dessa distinção do ser, julgados e separados sem ambivalência.
                Vou dar um exemplo. Você entra no elevador e lá está escrito “A senhora Maria da Silva Pereira não é mais funcionária do prédio.”  Duas questões graves. A primeira questão é a falta de privacidade que nos torna todos vitrines de vidro extremamente desinteressantes. Uma mania  de limitar o ser quando dito por outro.   A segunda questão fica por conta do uso e do abuso de dizer que Maria está expressamente demitida numa vitrine de vidro.  Maria, Maria da Silva Pereira está demitida. Maria não é mais funcionária do prédio. Maria não pertence mais ao quadro de funcionários. Maria está no olho da rua. E ponto. Quem é o sujeito? Ora, o sujeito é a truculência, a brutalidade do cuspe. A boca que classificou o sujeito dessa frase cospe em nossas caras com escárnio. E ainda coloca Maria na condição nominal da fila do auxílio desemprego.  Maria não é mais. É menos. E é mais uma. 
               Hoje pela manhã eis que um cronista, que anda sempre desavisado, se deparou com um papel de carta no prédio em que mora, um papel que anunciava que Maria não estava mais lá.  No elevador “social”... Será o outro anti-social? Mas lá no elevador social tem uma espécie de mural de avisos de vidro onde um homem baixo e de bigodes que se assina “sindico” coloca mensagens, informações e bizarrices.  Na coisa envidraçada até mesmo um aviso de dedetização espanta com seus ratos baratas e cupins, todos escritos com caneta vermelha: "faça agora!" Quem inventou esse pombal chamado prédio, edifício, condomínio, de certo não poderia imaginar a solidão que essa gaiola causaria à humanidade. Uma grande jaula humana boiando na cidade vertical. O cronista sente-se mesmo como se morasse numa espécie de ensaio sobre novas cegueiras: a senhora do quarto andar, a menina dark do quinto, a outra menina, a vizinha, o médico do sexto e a mulher do médico... 
          Mas ali, em pé, diante do evento escrito no elevador, o cronista não sabia, ao certo, se ria ou chorava. O aviso apenas dizia que Maria "não era mais". E  por, quem sabe, ocasional e mera bobagem, trazia no mesmo papel de aviso a imagem singela de um beija-flor azul. A contemporânea invisibilidade de Maria fez o cronista amar loucamente o beija-flor azul: tão preso, livre, solto, subindo e descendo de elevador, numa espécie não tão rara nem tão extinta de angústia, enfeitando a despedida de Maria, numa transgressão estranhamente ilógica. O cronista, num gesto totalmente súbito, rasgou o papel e roubou o beija-flor para si. Quem era a Maria? Fez então seu jogo de quebra-cabeça. Maria era a pessoa de sorriso largo, essa coisa rara e em extinção. Maria tem Ana de filha e dois netos que moram com ela. Criou e cuidou de três irmãos no interior de Minas, e fez tudo isso sozinha, porque "mãe e pai morreram cedo e não deixaram tostão". Maria que namora o Geraldo e que vai pra seresta cantar "música de qualidade". Maria, aquela que não leva desaforo pra casa, que não tem papas na língua. O cronista pôde assim sorrir de lembrança ingênua.
              Sobre Maria, o síndico disse ao cronista: "ela não é mais funcionária do prédio" nem no nome nem no pronome. E disse mais: "ela não sabe o lugar dela."  O lugar dela. O lugar do sujeito dela.  E o cronista coçou o queixo, como se fosse muito inteligente, e perguntou ao vazio: e se o sujeito sempre tão determinado quiser um dia cobrar as favas contadas de seu ressentimento? Em tempos de guerra todo sujeito é inimigo de todo sujeito?  Em tempos de guerra, nosso sujeito desconfiado voltará correndo para trancar portas, guardar seus pertences nos cofres e armários? E a vida prosseguirá como sempre? Miserável, bruta e curta? Miserável, bruta e longa? Sim, talvez, como bruto, miserável e rude é o verbo que separa o sujeito em duas espécies de homens: os que são e os que não são.  Sim, Leviatã sempre poderá vir nos assombrar com seus sujeitos sujeitados. E se crescer assim, de repente, comendo, mastigando nossas carnes, se refestelando com as gorduras do nosso ódio, da indiferença, a mesma que nos faz prosseguir mesquinhos ou tolerantes, tolerando os outros em soberba e superioridade, comeremos Leviatã no espetinho.  Humanos e desumanos. Vizinhos sem nome, morando no mesmo prédio-Terra onde Maria hoje é o sujeito que não é. Mas se as margens seguem violentas aprisionando o beija-flor no papel...

Patrícia Porto

domingo, 11 de agosto de 2013

Pulsos e Bacias.

Sally Mann

Precisava hoje de mãos
para amansar a loucura
e amassar o pão
do mesmo fel do joio

de Mãos para romper
em dia as noites que fiz
com doses de beber ventos

para aquietar o inferno
de memórias quentes
de um volumoso mergulho nos rios
mudados de curso

Mãos lavadas
para tocar o corpo inerte
quase entregue ao prazer
antes de sua morte triste

para louvar todos os deuses femininos
que inventei

para exumar
desencarnar
o ódio
e o riso
E todos os ofícios
da violência
E todos os ossos do limbo
mastigados sobre a mesa

Mãos
para estancar
de dentro o mar
de sangue
a porra toda
a vida doce
a sanha o teto
as carnes

Entre dentes
o fervor vaginal
estupor, o tumor
de intentos e os insetos
os cães famigerando
esfomeando,
farejando: a menina
as laranjas cortadas em quatro,
as flores e os bagaços,
os anjos pendurados
para não sentir dor
para não sofrer dor

nossa senhora,
mãe de todas as rezas matinais
"me livre desse mal"
Do teu manto
desesperanço:
a santa é surda

Mãos de dentro
dentro
onde tudo dói
dói o mais

Crucifica
existir fora

Insistir, pai
dói demais
te parir, pai,
puta merda,
mulher de mim
todos os dias
sem nenhum pau
advento ou luz
só com meus pulsos
tua rinha
teus galos
e as galinhas
que tia Marta mata
tranquila
nas bacias

Doeu tanto existir, pai

Patricia Porto

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Poesia - essa coisa de criança.

Roman Vishniac

(Para Manoel e as Coisas)

E você abre a janela e espanta o que foi espanado
da casca.
E aí é possível ter visões de nuvens e cores,
montes que corromperam um tempo
indivisível.
E aí você que se diz poeta - abre o mundo feito uma fruta de gomos
e espera que o ar traga a poeira dos sonhos mais lúdicos e loucos
feito Poesia – essa coisa de criança,
o suco escorrendo da boca.
E você escreve sonhos na areia
ou versos que um dia você docemente teve
e esqueceu de acordar.
Por dúvida ou medo.
Foi-se na espuma
Engarrafando o desejo.


Patrícia Porto

Alexi Torres