quarta-feira, 3 de julho de 2013

De eclipses a improvisos.

Joan Miró, Ballerina 


Tem sempre palavras que não descansam.
Palavras de minha astuta forma de não dizer.
Travadas na fonte, mortas de sede de si mesmas,
adoecendo de minha mordaça.
Não sei dizê-las, porém, me anestesia o mutismo.
Grande calamidade viver para fora delas, silenciada.
Não sei viver. Disseram que há muita destruição no meu caminho.
Minha terra esgotou-se, os sobreviventes de minha terra estão cansados,
todos são vagos.
Ando morta-viva de palavras que não posso dizer, pois também me esgotei.
Estou tão consumida. Tão consumada.
Andei nesse tempo escuro aborrecida da existência sem escolher.
Também não sei morrer. Se olho o espelho me desgasto...
E não há improvisos nesse silêncio.

Patricia Porto 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A roda.

Alice Brill


O menino fora da roda.
Um vazio, um sinistro, uma moda canhota de ser...
Onde eu errei o sonho? Devo voltar para trás?
Se pudesse voltaria em câmara lenta só para te olhar de novo.
O mesmo cabelo em desalento, meu desalinho.
O sorriso dos teus olhos levando minha alma.
Nada mais que teus abraços, nada mais que viver de novo teus sentidos.
O menino fora do esquadro, fora do quadro te olhando de dentro.
Uma dose espetacular de coragem pra dizer que é amor.
Não parta, não insulte o meu amor.  Não me partas mais.
O espelho quebrado, os destroços do navio, a escotilha arrebentada de naufrágios.
Nenhuma gota de sangue no caminho.
Tudo limpo agora e já não me surpreende ficar só.
O menino fora do ritmo,
atravessando a música, correndo pela rua,
toda rua nua, toda rua é dele.
O menino e o sol. Tudo rima.    

Tudo roda.

Patrícia Porto

Nove luas de Luiza.

Luiza, minha filha.

A lua sorriu acolhimentos,
alimento de mãe que aninha o coração.
A lua e a mãe...
O som-silêncio de chuva,
toda conjugada a doar,
e esperar, e crer...
Nove luas tão cheias,
Menina-mãe dos meus olhos,
luz-farol pro vento frio da vida,
luz que acende a casa e o porto
de todos os elementos em grãos.
Nove luas de Luiza,
novecentos motivos e maneiras
pra viver de novo a embarrigada do tempo,
pra cantar o azul das águas de beber
e dividir a direção em muitas.
O Amor sorriu, calmo, beirando respostas
de mansinho, paciência...
colando estrelas num desenho de criança,
eu vi de perto nuvens, cavalinhos, arco-íris,
uma floresta de árvores de maçãs
e um sol de raios guardando todo um sonho
que eu vivo acordada, enluarada,
amada, amando em duas.

Patricia Porto

domingo, 30 de junho de 2013

A escrita e a inveja. (Homenagem a Sérgio Porto e tia Zulmira)


"(...) artísta sensível, cidadão carioca", LAN por Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) e Sérgio Porto por LAN.


A escrita e a inveja.


(Homenagem a Sérgio Porto e tia Zulmira)


Ele ligou tarde da noite.
_ Alô... Olha, meu camarada, essas coisas que você anda escrevendo no jornal ultimamente, sabe... Sou teu amigo e por isso vou te prevenir. Tô até falando baixo que tenho medo. Mas não pega bem, companheiro... O meio que a gente vive é pequeno, um ovo, cabe três e olhe lá! E todo mundo se conhece intimamente. Você, nessa vaidade, fica aí escrevendo essas provocações... Fico até sem jeito de falar... Mas tem gente importante que já comentou comigo que não gostou nada nada!
_ Pera aí, João! Até tu Brutus! Sou jornalista e tenho meu direito de expressão nesta bodega, entendeu?!
_ Mas é que você, meu querido, anda mexendo com gente grande, peixe grande, saca? Isso aí não vai dar certo, meu amigo. Depois lá na frente você se prejudica. E ainda sobra pra nós dois...
_ Olha aqui, meu caro João. Cada um na sua e a vida continua. Você cuida do seu jardim, rega as suas plantinhas que eu cuido das minhas! Vai dormir, João!

A mulher acorda.
_ Que conversa é essa, Zuzu?
_ O João Maurício! Ligou pra falar do meu artigo no jornal. Esse cretino, filho da mãe! Esqueceu tudo o que eu fiz por ele... E agora só porque se acha numa posiçãozinha melhor quer cantar de galo no terreiro alheio.
_ Mas Zuzu, meu bem, talvez ele tenha um pouquinho de razão... Você é radical às vezes, sabia? Nas suas opiniões - muito agressivo. Leva tudo muito a sério. Não aceita que o mundo seja do jeito que é. Tem mania de querer salvar o mundo escrevendo... Isso está fora de moda, esse negócio de idealismo. Já caiu em desuso, Zuzu.
_  Pera aí, Cristina! Até tu Brutus! Covardia não faz meu feitio! Não sou pessoa de ficar fazendo miséria com as palavras! Comigo é assim e pá-ponto: sem papas na língua! Tem que dizer eu digo! Tem que escrever, eu escrevo! Não gostou? Discorde e exponha as armas de seus argumentos que não tenho medo de duelo verbal!

A mulher conversa com a sogra:
_ Dona Dora, seu filho, o Zuzu, não está nada bem. Pirou, coitado... Ele agora deu de denunciar, de enfrentar até gente graúda através de denúncia, escrevendo pra jornal, revista!
_ Mas não é tudo “meta-fora”, minha filha? Pelo menos foi isso que ele disse aqui em casa pra mim mais o Antenor. Que esse negócio de “meta-fora” não pega pra ninguém, é uma linguagem da figura, do figura.  Figurão! Deve ser isso, minha filha. Tem que se preocupar não. O menino sempre foi bom de juízo.
_ Não vai adiantar eu explicar agora, dona Dora. Mas é que mesmo no sentido figurado, isso que ele escreve não é coisa boa pra quem é entendido no assunto, percebe?
_ Ah , minha filha, agora você complicou comigo. Do figurado eu não sei. Mas esse menino sabe das coisas sim, ele sempre foi bom de inventar história! Esse menino é um danadinho! Já contei pra você aquela vez que ele...

A mulher conversa com o analista:
_ Não aguento mais o meu marido, aquele traste do Zuzu. Agora ele acha que vai salvar o mundo escrevendo. Além de ganhar mal com o que faz, os poucos que leem aquele raio de coluna querem é tirar a pele dele para fritar pra aperitivo. Ele é mesmo um sem noção como diz a minha irmã! Eu deveria ter ouvido a minha mãe quando ela tanto me avisou. Mas isso também é culpa dela, ela fica dizendo por aí que eu tenho o dedo podre pra escolher homem. E agora também, além dessa mania de ser herói fora de época, coisa mais infantil e besta, também nem comparece como antes, só pensando nessa escrita... E também...
_ Acabou o seu tempo, continuamos na próxima semana.

A mulher conversa com a manicure:
_ Não aguento mais o meu marido, o Zuzu...

A mulher conversa com a empregada:
_ Não aguento mais o seu patrão!

A mulher conversa com a mãe:
_ Não aguento mais esse idiota!

A mulher conversa com uma vizinha no elevador:
_ É, tá quente, mas saiba que o pior é aguentar certas pessoas. Não aguento mais certos homens que...

A mulher conversa com o amante:
_ Ah, João Maurício, não aguento mais...
_  Mas, minha sereia, eu juro que estou fazendo o que posso... Mas ele é tão teimoso...


Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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