sábado, 25 de maio de 2013

Nouvelle (ou Máscaras)

Marie Cosindas Masks, Boston 1966.


Depois do choro
asas livres do chão
os
      porões, vergalhões, os alçapões
                                              O disparo diz: paro!

As presas às pressas
fazem do desejo um novo abismo para os pés
de vento e vendaval e tempestades de copo
e cólera

Tanta fúria
tanta gula
tantos os subterrâneos!

E o sangue frio
à sangue frio
trata à fórceps
a delicadeza abstrata
daquilo que afeta

não sopra nem vela
o amor nouvelle vague
novelo

Patrícia Porto

domingo, 19 de maio de 2013

poema para parto sem dor

Patricia Porto



No silêncio eu aprendi da onda,
do mar, de uma memória abissal,
da ventania vazia que é o amor
num poço mais vazio ainda, o de existir.

Aprendi incertezas que me falam surda mente
que não existem tantas respostas ou nenhuma resposta.
E que o nada também é uma chance e um susto
de existir sozinho e se achar profundo e raso.

No silêncio eu vivi tardes vermelhas de olhos acesos.
Eu aprendi a ver melhor o que havia das pedras,
uma linguagem inteira de pedras, uma linguagem de infância e pedras.

Das minhas durezas de alma, das minhas formas perenes de solidão eu adquiri certa lealdade.
E por escolher a solidão como condição de existência não consigo de modo algum me arrepender.
Eu li os poemas de Eliot e me estiquei com as memórias de Proust.
E sei deveras ouvir o som das grutas, das fendas, das águas, dos vales sombrios da alma...  Se dez mil cairão nesse chão, tu certamente estarás entre eles.
E fiz pactos com a floresta a compreender a escolha de mudança dos bichos. Partir pode não ser opção.
Descobri que sou um bicho, um bicho faminto, voraz, um bicho a violentar, e um bicho que espreita, obtuso.
E dei de conhecer um temor esfacelado
e uma indomável sede de dizer que não devo fé e que sim, peco o tempo todo.

Qualquer hora enveredo altiva por entre meus bosques de espera
e lá – silenciosamente – na linguagem dos que esperam sem nenhuma humildade -
hei de encontrar do mistério a casa, a lanterna, a terra onde pousarei os ossos desses dias.

Na última casa do último sonho
da última face próspera de esperança...
A criança abandonada atravessará o bosque rindo muito, rindo alto,
-  última e corajosa vontade de silêncio.

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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