quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mãevó

Patricia Porto por Dedé: Mãevó.


dobrava os lençóis do mesmo lado da cama
sentadinha, cantando: "hum, hum, hum, hum,hum,hum..."
mãevó começava o dia com música de ninar,
pra ninar o rio, dizia,
pra amansar o mar.
Ninar a vida embalada de redes,
emboladas de lençóis brancos de areia...
Mãevó dobrava o espelho em dois
pra que em cada face, fase,
se pudesse ler do inverso no verso
as palavras secretas da água.
De tanta saudade de ninar mar, meu olho é d'água,
minha vista se perde: saudade tem fim não,
tem é essa água de colônia, esse cheiro de travesseiro,
de vestido de chita. Saudade tem colo
e minha vista estreita.
São os olhos de mãevó que me carregam...
Por que essa saudade, mãevó?
Mãevó contou pra mim:
saudade embala os sonhos,
embala a casa de águas
e enreda de novo, o tudo de novo e tudo de novo
...........................................
saudade é o mar, o mar, minha pequena.


Patrícia Porto

domingo, 5 de maio de 2013

Poema para balanços.

Angela Bacon Kidwell


Montanha russa, roleta russa, bonecas russas:
matrioskas, Maiakóvski. Tenho sonhos de amor que não se curam.
Tenho cicatrizes horrendas, mas ocultas na derme.
Espero um príncipe encarnado como todas as mocinhas de folhetim.
Conto moedas, namoro figos que não como, adio partos,
atraso correspondências.
Adoraria ter a chave que abre mentes muito cerradas. Mas não tenho.
Sou mãe todas as horas do tempo. Sou mulher a cada ciclo do espelho.
Às vezes me acho muito feia, outras vezes me acho bela. Às vezes nem me acho.
Escrevo poemas sem nenhuma finalidade. E sempre me aborreço com o excesso de finalidades e funcionalidades das coisas. Prefiro descobertas a ler manuais.
Amei e não fui amada. Fui amada e não percebi. Não amei.
Adiantei relógios, compus canção de barco e ventania e depois rasguei.
Quando minha mão coça sempre penso que vou ganhar dinheiro. Nunca ganhei.
Desemborco chinelos porque tenho medo que minha mãe morra. Um terapeuta disse que fazia parte do meu desejo. Dispensei o terapeuta e continuei com o medo.
Adoro flores. Por isso namorei um dono de floricultura e fui especialmente feliz enquanto durou.
Conheci muito cedo a cultura do trabalho. Lavei banheiro coletivo. Por isso aprendi como é fácil ficar invisível.
Fiz muitos amigos. Achei que nunca teria inimigos, mas alguns inimigos me acharam sem muito esforço.
Balanço? Gosto muito. Outro dia fiz uma arte no parque. Sentei num deles e me embalei bem alto por pura traquinagem.
A vida é realmente breve. Nós somos realmente finitos. O tempo passa sim rápido e nos engole. A vida é dura como minha avó dizia; o mundo é um lar, uma fabricação de sentidos. Gastei muitos dos meus dias vivendo e mesmo assim fico extasiada ao viver, como se fosse o primeiro deles, como se tivesse sempre acabando de chegar. 

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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