quinta-feira, 2 de maio de 2013

Meninos não choram.

Chad Crouch.


                          Por que faz tanto frio lá fora? Fora do círculo o fogo dissolve a aspereza das mãos. Perto do fogo o veto é desumano em degelo. Hoje me sentei ao lado de um menino, um menino negro, um menino que estava preso, mas que podia ir à escola, seu nome Maicon como o de um Rei que desvaneceu.  “Tráfico e roubo, mas tenho bom comportamento.” A professora deprimida mal conseguia lhe estender o olhar, presa no frio da sua própria navalha. Tudo é tão corte e a abade na esfera da educação pública no país. Os dois, lado a lado,  juntos aqueciam seus corpos num latão de lixo imaginário. Juntando melodramas de cinzas ao fogo. “Depressão, Síndrome do Pânico, Mania de perseguição, Raiva, mas me readapto bem.” "Pô, você é loucona!" (risos) 
Como espíritos avulsos e sem reconhecimento, errantes nas sobras das ruas marginais. É possível ser marginal para além do marginal. Um preso. Uma louca. Somos tantos que até nos esquecemos de ser o outro.  Na sala de espera, preso e louca, ficamos por mais de quatro horas sem controle remoto para estancar o tempo, doía. A professora readaptada, o menino do reformatório, quatro horas e meia de espera. Mas somos loucos e presos... 
Ela já vem. Ele já vem. A Polícia. A ambulância. A cura. A morte.   A máquina de  ocultar  nossos desaparecimentos, nossos cadáveres apolíticos.  Ninguém chegará para nos alimentar de sorte a solidão compartilhada. Mas um  ponto cego nos incomodava: _ se eu ficar, prometo cuidar de você. Um ponto cego nos animava o tédio: _ se eu ficar, prometo ser bom pra você. As mãos de Maicon eram longas demais para um menino. “Sabe, eu quero mudar de vida.” A frase se consolava na língua alheia, o sujeito no reflexo do borrado alheio. “Eu tenho medo que você fique, você é parte da minha doença. Mas eu também já não quero que você saia. Não consigo curar a dor que há em mim nem elevar a minha alma.”
Quatro horas de séculos de fortuita tragédia nos unia em torno do fogo da boca do lixo. Tanto frio lá fora na imensidão dos homens adultos em torno de um punhado de poder. Homens pequenos como os de Papai Noel, homens e mulheres escrotas com capa de juridição para uso de pequeno e podre poder... 
Pude sentir a tristeza da espera do menino: “Acho que não vão me aceitar”. Ele pressentiu a minha: “Acho que não não vão me readaptar.”  Sentados ao avesso, vagando invisíveis pelas celas, salas, corredores de pedra. Tantas pedras nas mãos para atirar. Tanta raiva. Tanta dor de raiva pra tirar, crostas nas mãos, calos de ódio.
“Vocês ficam e podem ir!” Uma voz avisava do alto de nossas deficiências privadas. "Segunda-feira!" Mais um berro e o corpo da professora se assustou no corpo do menino preso. 
Atravessamos o corredor. Dizem que há uma luz para todos que atravessam. Não a vi, talvez tenham desligado, queimado, falha de interruptor. Meu casaco era pouco para o frio da rua daquela nova saída. Apenas a mão de Maicon sobre meu ombro parecia acesa, quente, humana. Sem palavras, sem corpo de signo, apenas a mão dos nossos flagelos.
Sem sal de olhar sigo o caminho em outra vasta direção. Um cachorro magro me acompanha, posso sentir sua fome quente queimando o osso do meu calcanhar. E já me sinto de novo amparada, um gesto quente. Presos, loucos e cachorros de rua se assemelham. 


Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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