sábado, 27 de abril de 2013

Em suspensão e pêndulo.

© Aernout Overbeeke


A Santa

Poesia, sou tua!
Carne, alma, unhas...
Dentes de Dante.
E a cabeça feita
até as pontas dos pés.
E as pontes sobre o céu entre polens,
e os poros de tua flor,
as margens encarnadas de: tua palavra.
Minha e vossa ceia posta,
minha insanidade doce sem misérias.


A Louca

Em transe
sou tua cor o escarlate,
Poesia sem vestimentas,
sou teu corpo, do objeto,
teu cavalo em gestação...
Se me danças giro,
giro e rio, giro, rio e águo...
Sou do teu vermelho o sangue e a espuma,
vivo a transfusar por ondas,
fantasma, lançando sinais
a pedir tua guia.

Não me guie, minha guia...

Sou tua em pausas e sonoros silêncios. Só tua.
Toda a rua sabe, todo o chão dessa casa
e o ruído abafado de minha sede noturna.

Um explicito, um acento, um abrev.
breve ato a breve ato
palco e platéia,
simbióticas:
As rainhas do drama, da tragédia, do riso!

(r i so s)

(êx ta se)


Patrícia Porto

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Um SOLO e um Naufrágio.

Imagem: Jan Saudek, Hungry for your touch, 1971



só lamento o atraso do fim
que mente sempre o só
vibrando feliz que há um sol na mente.
não, não se meta
nesse enxame que é o de fora.
não, não se toque o solo, ao ceifador,
onde jaz um coração latino
é sempre abaixo do Equador.

há um solo de andorinhas
que deixaram de fazer verão
há tempos...
e sem destino, sem clichês,
o sonho dessa minha juventude
de arriscada não existe,
não se arrisca para além da própria casca e caminho.

camadas são para se retirar
de nossos corpos frágeis.
e para enterrar os nossos sonhos
mais floridos –  ah, um solo...
sóis de flores para murchar com nossas
esperanças esquecidas.
um solo para esconder os nossos ossos,
que feito dois cachorros velhos, nós
tentamos ocultar.
morto amor, nua noite,
correndo lentos atrás do próprio rabo.

só eu e você...
solo para o nosso sol puindo,
caindo...

o big bang.

o bang bang.

o big end.

o nada enfim.
só quartos de separação.

e um outro rastro de papel
atrás da vida
atrás da nossa
vasta
e  - Absurda dor de querer mais,
outra história.

falta do que fazer?
coma a utopia.
coma que é macia.

um solo!
um naufrágio!

não, não nos querem salvos.
por favor, desliguem o recinto.

Patrícia Porto

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Fábrica de Sonhos.


Sally Mann, immediate family.

Põe a mão no peito, nos meus ombros,
minha mão sobre a tua, face a face.
Onde houver Deus: cacos de vidro e estilhaços de pólvora.
Em minhas mãos mágicas pombos voam de minha cartola,
pedaços de minha mente, desejos estilhaçados.
Sou como o Espantalho da Terra de Oz.
Põe seu olhar junto ao meu, senta do meu lado, mamãe.
Minha história é triste, mas eu vou lhe contar pela última vez.
Nenhum de nós é tão culpado assim. Só queremos a Liberdade.
Ouço, ouço, ouço e o eco traz estampidos mascarados de silêncio,
porque sou filho de uma outra guerra mais fria.
Pousa na palma dos meus sonhos, eu decidi explodir o jardim de nossa casa
antes que ele me invada e exploda os meus sentimentos.
Senta ao meu lado, papai.
Há tanto ódio em meu coração que sou capaz de implodir
antes mesmo de amanhã.
Sentado daqui como eu gosto desses holofotes...
E se me dizem: “ _ Vem, vem por aqui...” Eu não vou.


Patrícia Porto

sábado, 20 de abril de 2013

São nossos esses filhos: "droogs" globalizados.


Toni Frissell



Quem já se sentiu vítima de um gesto, uma palavra, um olhar de intolerância sabe à flor da pele o quanto isso faz doer. E talvez tenha aprendido pela dor que a melhor resposta possível é uma resposta política: a luta, a luta pacífica - e não passiva - pelos direitos e pelos “deveres” dos homens. Um clichê dentro do outro seria dizer que desde que o mundo é mundo, os seres humanos exercem a nem sempre sutil “intolerância” - para humilhar, negar, apartar, desprezar o outro. E nada é tão difícil de tolerar que a própria intolerância. Diríamos também que é uma herança complexa de nossa vida coletiva se levarmos em conta toda a nossa história pelo mundo, tão marcada por ações e reações resultantes de atos de intolerância levados às ultimas consequências, atos violentos e infundados, nascidos da não aceitação e da retroalimentação de ódios entre os povos, que só deixaram como legado as guerras e os genocídios, as maiores tragédias humanas.

O Homem é sim capaz da exclusão e do extermínio por não concordar com ideias diferentes das suas, por não aceitar um modelo político diferente do seu, uma raça diferente da sua, uma classe social , uma religião que não seja a sua, enfim, por não tolerar a diferença entre os seres. E, paradoxalmente, tudo o que somos e fazemos vai nos singularizando dentro da própria trajetória humana. Somos diferentes, diversos, igualmente diferentes.

A igualdade começa, sobretudo, pelo respeito à diferença. Pelo amor à diferença. E porque não há nada mais belo e humano que o amor não podemos deixá-lo de fora da resposta política. E sabemos o quanto isso pode parecer desagradável: disponibilizar-se para amar, amar para além do seu raio de segurança. Não, não é fácil assim como num estalar de dedos e pensamentos. É um exercício contínuo de aceitar e ser aceito, é um exercício extraordinário de coragem. Até porque é muito mais fácil sentir raiva, guardar mágoas, velhos ressentimentos remoídos... Amar é ter coragem de assumir a sua parcela mais humana, é tirar a casca, a couraça, a culpa; é deixar de lado a mesquinharia, o egoísmo, toda falta de gentileza. Amar é sentir-se feliz por ser bom o suficiente - como disse um sábio, pois não precisamos ser o melhor entre outros, mas o melhor que se pode ser para alguém. Feliz quem pode olhar para as suas crias e se alegrar com a tamanha diferença encontrada. Feliz por ser capaz de compreender que os filhos não podem ser uma mera projeção narcísica dos desejos dos pais, de uma país e nem estão aqui somente para cumprir uma entre as tantas profecias familiares e coletivas. Eles são únicos quando são eles mesmos. E se perdem quando não podem ser eles mesmos.  Talvez a tarefa mais árdua seja de encontrá-los perdidos na insensatez mundana.

Mesmo assim a perplexidade contemporânea nos coloca diante de atitudes pra lá de esquizoides se pensarmos nas últimas e tantas demonstrações de intolerância ocorridas pelo mundo afora. Poderemos nos questionar se estamos de fato perdendo contato com nosso mundo interior, perdendo também a capacidade de olhar para dentro desse interior. Para onde então caminha a nossa humanidade? E a nossa juventude? Tantos episódios de crueldade gratuita, de intolerância explícita... Por que sentir tanta raiva, tanto desprezo por tudo e todos? Será que estamos adoecendo? Em tempos de glamourização excessiva da violência, dos bíceps e das drogas, que tal trazer de volta o silêncio que perdemos com tanto barulho externo? Que tal ouvir o silêncio para refletir sobre quem somos, sobre o que queremos, sobre as escolhas que precisamos fazer? Que tal pausar a mente, nossa casa? Pausa-da-mente...

Nossos corações devem estar despertos para que possamos ver um palmo antes e depois de nossos narizes. Precisamos de menos babás eletrônicas e mais diálogo, menos shopping e mais abraços, menos redes sociais e mais tête-à-tête. Precisamos brincar mais, rir mais - principalmente as meninas, precisamos nos lançar mais ao outro, aquele nosso velho desconhecido. E, é claro, precisamos ter coragem. Essa palavra latina que une Cor + Agir, “agir com o coração”. O amor é sublime e sendo assim é o amor a única ponte que nos leva ao outro e que nos faz enxergar no olhar do outro a nossa imagem menos refletida, o amor é que nos educa sobre a necessária tolerância para bem viver, para con-viver.


Patricia Porto
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Sobre o termo "droogs", drugues ou druguis: faz parte do vocabulário "Nadsat", "linguagem" própria criada para os personagens do livro/filme "Laranja Mecânica" (A Clockword Orange), 1971, adaptação do livro de Anthony Burgess.  Malcolm MacDowell faz o papel do protagonista, Alex, que é líder de uma gangue de delinquentes.   


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A lavadeira e o encontro com o barqueiro.


Bouguereau.


_ Vem, moça, corre a envelhecer
que te direi quem és.
Assim disse o barqueiro. E mais:
O que trazes aí neste cesto?
Nenhuma moeda?
Só palhas de solidão?
Foi isto então que acumulastes
do rio?
Pobre moça, intempestiva.
Por dentro, adulação de amanhãs
e por fora
o largo preço da vida.
Molhaste tuas coxas no
quente e na fonte
e ainda assim quiseste gritar e chorar,
tirando o limbo do corpo
a descobrir que era pouco
a tua paga?
Quis olhar a existência
e o que era estreito se fechou?
Moça das beiradas,
nem percebeu que o sujo faz parte da água
e que o pecado é uma invenção
que nunca se quis partilha.
Contentou-se apenas em saber se era dia
ou se era noite a tua vida?
Se era começo, se era fim?
“Bendito Será fim,
Bendito Será fim!
Salve o mal que há em mim!”
E cegou-se sem pregos
e deitou-se nos rochedos
com o frio da traição,
com os cortes do chão batido
sem ágoras, preces,
sem anunciação.
E só depois de tanto alarde bem quis saber:
Quantas mulheres viveram dentro de mim? – diga mensageiro.
Quantas desistiram?
Quantas voltaram de lá?
Quantas beberam e se deitaram com o rio?
Ouço suas vozes e suas intemperanças nas saturnais...
E sei de repente de uma coisa entre tantas que esqueci – por atropelo:
Todas essas mulheres viveram violentamente esses preceitos.
Todas fizeram juntas a razão da minha fogueira.
E são sombras minhas...
São minhas essas árvores.
Ao final de tudo, disseram-me que estarão pálidas,
e que todas elas, aninhadas, quietas,
preguiçosas, sonâmbulas, retornarão
às cadeiras de balanço do meu outono que se antecipa...
Moças também, partes da minha alma, correntes desse rio,
de um rito do tempo
ao cair de minhas folhas...

_ Leva o cesto, seu barqueiro,
leva o tempo
que eu lavo o resto dessa noite.

_ Pobre moça, lavadeira,
pega o teu cesto,
consola-te de margens
que nem o teu trabalho,
nem tua modéstia
e nem a tua venda
me pagam melhor a queima
que essa tua alma.

Patrícia Porto

O Barqueiro Caronte.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Uma aquarela do Brasil.


Imagem: Pedro Nava para a capa do livro de Mário de Andrade.  
           

            Ética? Perdoe o leitor dessa crônica, é que às vezes, por tolice, confundo, vislumbrando determinados contextos institucionais, a palavra ética com algum tipo de “ismo”. E a palavra amizade com compadrio, troca de favores e moedas. E a palavra família com nepotismo e churrasco. E a palavra confiança com corporativismo ou fisiologismo. São resquícios talvez da minha ignorância tardia. Eu poderia citar um sociólogo conhecido, mas não vou fazer isso. Cumpri com todas as minhas obrigações acadêmicas e sinto-me livre o suficiente para exercer o meu próprio e talvez impróprio pensamento sobre o tipo de "ética" que comanda os nossos comandos e desmandos brasileiros. Porque fico perplexa quando me dou conta que brasileiro não vota mais, brasileiro faz fezinha. E quando vota no tal "limpo" é um sujeito estranho, piegas, raivoso, comuna, coisa de uma fatia de qualquer valor arcaico.  José Murilo de Carvalho fala bem sobre o exercício do pensamento, um “instrumento” de muita utilidade, mas tantas vezes usado somente pra cair no vão. Cadê o pensamento? A palavra pensada? Será que estamos ficando pobres em produção intelectual que faça emergir algo de realmente novo? Por que não assumir o lugar do risco, da ousadia, da tentativa criativa de mostrar um “ser-eu” que cria e pensa por si mesmo? Deixa o bicho solto. Esse "ser-eu" singular e fraturado, que está atrás da porta, feito um bicho à espreita... Na mitologia africana há um orixá que simboliza a mãe-guia das forças das tempestades, a guia que age segundo uma grande força que deixa à mostra as fraturas do terreno, da terra, que desfolha, desalinha... O que tanto tentamos ocultar para não cuidar, olhar, compreender?             
           Sou poeta e sempre ouço que os poetas são fingidores e que o ego de quem escreve é um monstro devorador de si mesmo. Concordo sem usar heteronimia. Mas pelo menos a gente se expõe, cara pálida. E é claro que sei que em ambientes hostis precisamos acionar velhas defesas e que para isso vamos desenvolvendo táticas, estratégias de sobrevivência. E também estratégias de conformismo. E "conformismo" é uma palavra que às vezes confundo com fingimento, mas que está aí e pertence ao léxico dos que teimam em dizer: "deixa disso". Porque, exercendo minha opinião, tem o conformista e tem “gente que finge conformismo” , gente que passa longe do ethos do bem, do bom, de qualquer saída que não seja a de sacanear o próximo. "O próximo, por favor!" Tem um tipo de oportunista-conformista que finge ser amigo de todo mundo e é um tremendo hipócrita por convicção. Posso crer, inclusive, que esse tipo pode passar uma biografia inteira como um cínico-medíocre-mediano-conformista, se é que é possível ser tão traste assim. Sabe aquele jeitinho de ser... No caso do Brasil, o jeitinho é pra fazer. E a regra da etiqueta é guardar entre os panos e colocar panos quentes onde der.
           É claro que eu leio os jornais, é claro que tenho acesso às páginas da Internet e sei o que se passa na cidade do Rio de Janeiro e no Brasil. De Cabral a Cabral nós sabemos, pra usar um trocadilho bobinho: se caminha às avessas. Excesso de roupas do Rei. Mas as informações nos chegam a todo o momento, quase que pelos poros, entram em nosso órgãos vitais até respirarmos bastante lixo político, sentenças sensacionalistas... Não dá pra demonizar os que nos deixam burros, mas dá pra chamar de calhordas os políticos covardes que se espalham pelo país nesse sistema sócio-econômico cínico-medíocre-mediano-conformista “dos que levam vantagem em tudo”, nas instituições, nas redes de informação etc.  Mas aos cínicos de plantão podemos dizer que é possível guardar uma medida de crença, fantasia, utopia pra outros, que nos faz suportar a existência e que nos faz também suportar um bocado de mazelas por um bom tempo, seja na politicagem cotidiana, na política do congresso, nessa estrutura toda.  Mas espero e devo crer também que a maioria segue querendo mudanças, e tendo bastante esperança, que muita gente não compactua com esses “ismos” de ocasião. A gente acredita no Brasil e acredita como criança, apostando as fichas.
         E para não dizer que não falei das metralhadoras, há uns tempos atrás, numa escola pública onde trabalhei, nós, professores e alunos fomos obrigados a fechar as portas por ordem do tráfico. Tente acertar. Alternativa A: notícia gasta sem qualquer efeito no receptor. Alternativa B: notícia velha que só serve para embrulhar peixe. Alternativa C: notícia renitente que não faz cócegas nos assentos do Parlamento...
        É... Sobre essa situação lembro que sofri um bocado, sensação de ficar no ponto zero ou morto, na desvalia, se é que me entendem. E para anestesiar minha parcela no jogo lembro que fui de bolinha, placebo desses que no invólucro vem escrito que um dia “isso passa”.


Patrícia Porto

terça-feira, 16 de abril de 2013

MINHA HERANÇA (à Orides Fontela, grande poetisa brasileira)



© Mihaly Andras 

Da avó materna:
um santo,
um terço,
um marcador de pastéis,
um prato de porcelana.

Do pai:
ausências.

Da mãe:
um pano,
fotografias,
a caixa de costura da avó
materna,

uma cantiga:

Ciranda, cirandinha
Vamos todas cirandar
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar

O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco (tão pouco, homem)
Se acabou...


Patrícia Porto


HERANÇA (Orides Fontela)

Da avó materna:
uma toalha (de batismo).

Do pai:
um martelo
um alicate
uma torquês
duas flautas.

Da mãe:
um pilão
um caldeirão
um lenço.

De Rosácea (1986) Herança

sábado, 13 de abril de 2013

o poeta, as máscaras e o animal. (terra de sal e ninguém)

Gunnar Gestur.



Eu tenho medo do animal que existe dentro de mim.
Ele não pensa.  Comporta-se como uma besta à mesa,
não tolera toalhas rendadas e porcelanas.
Ele não faz as unhas por preguiça, ele não entende para que lhe serve unhas pintadas.
O animal que me habita é selvagem, intranquilo e pode ser violento ao afago.
Olho para ele quando me visto e vejo que ele me entende e me dá coragem.
Algo nele me diz que sou parte dessa estrutura animalesca e temporal.
Não ouso dominá-lo. Preciso de sua fome voraz, preciso alimentá-lo com meu sangue,
minha carne, meus ossos.
Nascemos juntos e na temporada de caça saberemos exatamente onde nos recolher.

Patrícia Porto    




Gunnar Gestur.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Catarses e Personas...


              Proibido calar vozes, catarses e personas. Você pode sim enlouquecer com elas. Mas pode viver sem elas? Não tenho altares, tenho reflexões sobre. Se duvido da existência de Deus? Sim, duvido da existência de Deus. Isso não quer dizer que não acredito em Deus. Se duvido da psicanálise? Sim, da mesma forma que duvido da gramática, da ciência, das novas tecnologias. Se sou louca? Bem, se duvidar me rotula, me faz louca, então eu sou. Paciência. Se Deus é Paciência? Posso apenas desejar que sim.
 Patrícia Porto

                "Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta. Não podemos nunca esquecer que os sonhos, a motivação, o desejo de ser livre nos ajudam a superar esses monstros, vencê-los e utilizá-los como servos da nossa inteligência. Não tenha medo da dor, tenha medo de não enfrentá-la, criticá-la, usá-la." 
 Michel Foucault



Os bailarinos.



Lúdicos e tortos  com seus passos
eles se encontram e se deitam na varanda
Na sacada, nos varais, nas oficinas, nos salões e nos saraus...
Pelos cantos, nos faróis, nas fantasias,
Nas certezas de incertezas de ser dois.
Nos passos fantásticos eles vão e são mágicos demais.
Soltam seus balões, suas etéreas construções.
São aço e sonhos, sombras, vestes e sinais...
Dançam pela rua, descem as esquinas...
E só para chamar nossa atenção
pulam dessa ponte: o coração.

Patrícia Porto 

terça-feira, 9 de abril de 2013

Sê livre.

VLADIMIR FEDOT.


E se eu só quiser voar sendo livre,
o que dirão os cheios de deveres e compromissos?
E se eu não quiser mais voltar para o engodo da alma,
o que dirão os que esperam minha queda?
E se eu me tornar o mistério
o fabuloso do fogo,
o que dirão os céticos de coração?
E se eu deitar fora toda a profecia,
e queimar as entrelinhas,
romper os pactos,
e entrar sedento e firme
na transcendência sem pedir vossa licença!
O que dirão os inimigos que me vêem um fraco?

É realmente um vexame ser louco
perto dos que retrocedem a passos largos de certezas.
Por isso arde em meu peito a pétala da indecência,
o fruto proibido da mente que pensa,
o pecado que cria
e o gozo da fonte que em mim, pedindo, não seca.
Sou ilha e engasgo,
um constrangimento belo na sua sala de mal estar.
Autenticamente grotesco e liberto na face mais forte
e aguda de meu ser humano.

Patrícia Porto

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Memória de meu guarda-alma.

Madalina Lordache-Levay




A chuva pode durar um deserto de tempo
e causar tanta secura de sorte... que a boca há pra apavorar.
Mas de dentro um dragão, um monstro, uma serpente acende
e te guarda num guarda-alma mágico com doçura.
Então passa tudo... num pingo (!),
num rabisco de memória.

Patricia Porto

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Cor das horas.

Jim Brandemburg

Queria não poder guardar vozes em mim.
Do lado de dentro do lar anáguas se penduram
em cabideiros de parede;
penduradas estão minhas dores,
umas soltas, outras suspensas como pêndulos.
Tudo em mim já foi presa
e pressa também.
Mas hoje sou Perséfone
e solto meus cabelos,
viajo nua pela casa,
buscando desconhecidos.
Ando até com o seio à mostra;
E se ele me diz não sentir paixão.
Corro atrás de corda e cadeira.
Guardo meus ossos. Limpo o chão.
Tenho todos os tempos que quis,
tenho inscrições milenares
escritas por baixo da pele.
Sou do livre, a louca.
Todos os votos desfiz
e todos as deixas que fiz,
soltei e fiz caminhos de mesa.
Sozinha em minhas próprias tintas -
- desboto essa cor gentil das horas.


Patrícia Porto