sábado, 20 de abril de 2013

São nossos esses filhos: "droogs" globalizados.


Toni Frissell



Quem já se sentiu vítima de um gesto, uma palavra, um olhar de intolerância sabe à flor da pele o quanto isso faz doer. E talvez tenha aprendido pela dor que a melhor resposta possível é uma resposta política: a luta, a luta pacífica - e não passiva - pelos direitos e pelos “deveres” dos homens. Um clichê dentro do outro seria dizer que desde que o mundo é mundo, os seres humanos exercem a nem sempre sutil “intolerância” - para humilhar, negar, apartar, desprezar o outro. E nada é tão difícil de tolerar que a própria intolerância. Diríamos também que é uma herança complexa de nossa vida coletiva se levarmos em conta toda a nossa história pelo mundo, tão marcada por ações e reações resultantes de atos de intolerância levados às ultimas consequências, atos violentos e infundados, nascidos da não aceitação e da retroalimentação de ódios entre os povos, que só deixaram como legado as guerras e os genocídios, as maiores tragédias humanas.

O Homem é sim capaz da exclusão e do extermínio por não concordar com ideias diferentes das suas, por não aceitar um modelo político diferente do seu, uma raça diferente da sua, uma classe social , uma religião que não seja a sua, enfim, por não tolerar a diferença entre os seres. E, paradoxalmente, tudo o que somos e fazemos vai nos singularizando dentro da própria trajetória humana. Somos diferentes, diversos, igualmente diferentes.

A igualdade começa, sobretudo, pelo respeito à diferença. Pelo amor à diferença. E porque não há nada mais belo e humano que o amor não podemos deixá-lo de fora da resposta política. E sabemos o quanto isso pode parecer desagradável: disponibilizar-se para amar, amar para além do seu raio de segurança. Não, não é fácil assim como num estalar de dedos e pensamentos. É um exercício contínuo de aceitar e ser aceito, é um exercício extraordinário de coragem. Até porque é muito mais fácil sentir raiva, guardar mágoas, velhos ressentimentos remoídos... Amar é ter coragem de assumir a sua parcela mais humana, é tirar a casca, a couraça, a culpa; é deixar de lado a mesquinharia, o egoísmo, toda falta de gentileza. Amar é sentir-se feliz por ser bom o suficiente - como disse um sábio, pois não precisamos ser o melhor entre outros, mas o melhor que se pode ser para alguém. Feliz quem pode olhar para as suas crias e se alegrar com a tamanha diferença encontrada. Feliz por ser capaz de compreender que os filhos não podem ser uma mera projeção narcísica dos desejos dos pais, de uma país e nem estão aqui somente para cumprir uma entre as tantas profecias familiares e coletivas. Eles são únicos quando são eles mesmos. E se perdem quando não podem ser eles mesmos.  Talvez a tarefa mais árdua seja de encontrá-los perdidos na insensatez mundana.

Mesmo assim a perplexidade contemporânea nos coloca diante de atitudes pra lá de esquizoides se pensarmos nas últimas e tantas demonstrações de intolerância ocorridas pelo mundo afora. Poderemos nos questionar se estamos de fato perdendo contato com nosso mundo interior, perdendo também a capacidade de olhar para dentro desse interior. Para onde então caminha a nossa humanidade? E a nossa juventude? Tantos episódios de crueldade gratuita, de intolerância explícita... Por que sentir tanta raiva, tanto desprezo por tudo e todos? Será que estamos adoecendo? Em tempos de glamourização excessiva da violência, dos bíceps e das drogas, que tal trazer de volta o silêncio que perdemos com tanto barulho externo? Que tal ouvir o silêncio para refletir sobre quem somos, sobre o que queremos, sobre as escolhas que precisamos fazer? Que tal pausar a mente, nossa casa? Pausa-da-mente...

Nossos corações devem estar despertos para que possamos ver um palmo antes e depois de nossos narizes. Precisamos de menos babás eletrônicas e mais diálogo, menos shopping e mais abraços, menos redes sociais e mais tête-à-tête. Precisamos brincar mais, rir mais - principalmente as meninas, precisamos nos lançar mais ao outro, aquele nosso velho desconhecido. E, é claro, precisamos ter coragem. Essa palavra latina que une Cor + Agir, “agir com o coração”. O amor é sublime e sendo assim é o amor a única ponte que nos leva ao outro e que nos faz enxergar no olhar do outro a nossa imagem menos refletida, o amor é que nos educa sobre a necessária tolerância para bem viver, para con-viver.


Patricia Porto
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Sobre o termo "droogs", drugues ou druguis: faz parte do vocabulário "Nadsat", "linguagem" própria criada para os personagens do livro/filme "Laranja Mecânica" (A Clockword Orange), 1971, adaptação do livro de Anthony Burgess.  Malcolm MacDowell faz o papel do protagonista, Alex, que é líder de uma gangue de delinquentes.   


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A lavadeira e o encontro com o barqueiro.


Bouguereau.


_ Vem, moça, corre a envelhecer
que te direi quem és.
Assim disse o barqueiro. E mais:
O que trazes aí neste cesto?
Nenhuma moeda?
Só palhas de solidão?
Foi isto então que acumulastes
do rio?
Pobre moça, intempestiva.
Por dentro, adulação de amanhãs
e por fora
o largo preço da vida.
Molhaste tuas coxas no
quente e na fonte
e ainda assim quiseste gritar e chorar,
tirando o limbo do corpo
a descobrir que era pouco
a tua paga?
Quis olhar a existência
e o que era estreito se fechou?
Moça das beiradas,
nem percebeu que o sujo faz parte da água
e que o pecado é uma invenção
que nunca se quis partilha.
Contentou-se apenas em saber se era dia
ou se era noite a tua vida?
Se era começo, se era fim?
“Bendito Será fim,
Bendito Será fim!
Salve o mal que há em mim!”
E cegou-se sem pregos
e deitou-se nos rochedos
com o frio da traição,
com os cortes do chão batido
sem ágoras, preces,
sem anunciação.
E só depois de tanto alarde bem quis saber:
Quantas mulheres viveram dentro de mim? – diga mensageiro.
Quantas desistiram?
Quantas voltaram de lá?
Quantas beberam e se deitaram com o rio?
Ouço suas vozes e suas intemperanças nas saturnais...
E sei de repente de uma coisa entre tantas que esqueci – por atropelo:
Todas essas mulheres viveram violentamente esses preceitos.
Todas fizeram juntas a razão da minha fogueira.
E são sombras minhas...
São minhas essas árvores.
Ao final de tudo, disseram-me que estarão pálidas,
e que todas elas, aninhadas, quietas,
preguiçosas, sonâmbulas, retornarão
às cadeiras de balanço do meu outono que se antecipa...
Moças também, partes da minha alma, correntes desse rio,
de um rito do tempo
ao cair de minhas folhas...

_ Leva o cesto, seu barqueiro,
leva o tempo
que eu lavo o resto dessa noite.

_ Pobre moça, lavadeira,
pega o teu cesto,
consola-te de margens
que nem o teu trabalho,
nem tua modéstia
e nem a tua venda
me pagam melhor a queima
que essa tua alma.

Patrícia Porto

O Barqueiro Caronte.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Uma aquarela do Brasil.


Imagem: Pedro Nava para a capa do livro de Mário de Andrade.  
           

            Ética? Perdoe o leitor dessa crônica, é que às vezes, por tolice, confundo, vislumbrando determinados contextos institucionais, a palavra ética com algum tipo de “ismo”. E a palavra amizade com compadrio, troca de favores e moedas. E a palavra família com nepotismo e churrasco. E a palavra confiança com corporativismo ou fisiologismo. São resquícios talvez da minha ignorância tardia. Eu poderia citar um sociólogo conhecido, mas não vou fazer isso. Cumpri com todas as minhas obrigações acadêmicas e sinto-me livre o suficiente para exercer o meu próprio e talvez impróprio pensamento sobre o tipo de "ética" que comanda os nossos comandos e desmandos brasileiros. Porque fico perplexa quando me dou conta que brasileiro não vota mais, brasileiro faz fezinha. E quando vota no tal "limpo" é um sujeito estranho, piegas, raivoso, comuna, coisa de uma fatia de qualquer valor arcaico.  José Murilo de Carvalho fala bem sobre o exercício do pensamento, um “instrumento” de muita utilidade, mas tantas vezes usado somente pra cair no vão. Cadê o pensamento? A palavra pensada? Será que estamos ficando pobres em produção intelectual que faça emergir algo de realmente novo? Por que não assumir o lugar do risco, da ousadia, da tentativa criativa de mostrar um “ser-eu” que cria e pensa por si mesmo? Deixa o bicho solto. Esse "ser-eu" singular e fraturado, que está atrás da porta, feito um bicho à espreita... Na mitologia africana há um orixá que simboliza a mãe-guia das forças das tempestades, a guia que age segundo uma grande força que deixa à mostra as fraturas do terreno, da terra, que desfolha, desalinha... O que tanto tentamos ocultar para não cuidar, olhar, compreender?             
           Sou poeta e sempre ouço que os poetas são fingidores e que o ego de quem escreve é um monstro devorador de si mesmo. Concordo sem usar heteronimia. Mas pelo menos a gente se expõe, cara pálida. E é claro que sei que em ambientes hostis precisamos acionar velhas defesas e que para isso vamos desenvolvendo táticas, estratégias de sobrevivência. E também estratégias de conformismo. E "conformismo" é uma palavra que às vezes confundo com fingimento, mas que está aí e pertence ao léxico dos que teimam em dizer: "deixa disso". Porque, exercendo minha opinião, tem o conformista e tem “gente que finge conformismo” , gente que passa longe do ethos do bem, do bom, de qualquer saída que não seja a de sacanear o próximo. "O próximo, por favor!" Tem um tipo de oportunista-conformista que finge ser amigo de todo mundo e é um tremendo hipócrita por convicção. Posso crer, inclusive, que esse tipo pode passar uma biografia inteira como um cínico-medíocre-mediano-conformista, se é que é possível ser tão traste assim. Sabe aquele jeitinho de ser... No caso do Brasil, o jeitinho é pra fazer. E a regra da etiqueta é guardar entre os panos e colocar panos quentes onde der.
           É claro que eu leio os jornais, é claro que tenho acesso às páginas da Internet e sei o que se passa na cidade do Rio de Janeiro e no Brasil. De Cabral a Cabral nós sabemos, pra usar um trocadilho bobinho: se caminha às avessas. Excesso de roupas do Rei. Mas as informações nos chegam a todo o momento, quase que pelos poros, entram em nosso órgãos vitais até respirarmos bastante lixo político, sentenças sensacionalistas... Não dá pra demonizar os que nos deixam burros, mas dá pra chamar de calhordas os políticos covardes que se espalham pelo país nesse sistema sócio-econômico cínico-medíocre-mediano-conformista “dos que levam vantagem em tudo”, nas instituições, nas redes de informação etc.  Mas aos cínicos de plantão podemos dizer que é possível guardar uma medida de crença, fantasia, utopia pra outros, que nos faz suportar a existência e que nos faz também suportar um bocado de mazelas por um bom tempo, seja na politicagem cotidiana, na política do congresso, nessa estrutura toda.  Mas espero e devo crer também que a maioria segue querendo mudanças, e tendo bastante esperança, que muita gente não compactua com esses “ismos” de ocasião. A gente acredita no Brasil e acredita como criança, apostando as fichas.
         E para não dizer que não falei das metralhadoras, há uns tempos atrás, numa escola pública onde trabalhei, nós, professores e alunos fomos obrigados a fechar as portas por ordem do tráfico. Tente acertar. Alternativa A: notícia gasta sem qualquer efeito no receptor. Alternativa B: notícia velha que só serve para embrulhar peixe. Alternativa C: notícia renitente que não faz cócegas nos assentos do Parlamento...
        É... Sobre essa situação lembro que sofri um bocado, sensação de ficar no ponto zero ou morto, na desvalia, se é que me entendem. E para anestesiar minha parcela no jogo lembro que fui de bolinha, placebo desses que no invólucro vem escrito que um dia “isso passa”.


Patrícia Porto

terça-feira, 16 de abril de 2013

MINHA HERANÇA (à Orides Fontela, grande poetisa brasileira)



© Mihaly Andras 

Da avó materna:
um santo,
um terço,
um marcador de pastéis,
um prato de porcelana.

Do pai:
ausências.

Da mãe:
um pano,
fotografias,
a caixa de costura da avó
materna,

uma cantiga:

Ciranda, cirandinha
Vamos todas cirandar
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar

O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco (tão pouco, homem)
Se acabou...


Patrícia Porto


HERANÇA (Orides Fontela)

Da avó materna:
uma toalha (de batismo).

Do pai:
um martelo
um alicate
uma torquês
duas flautas.

Da mãe:
um pilão
um caldeirão
um lenço.

De Rosácea (1986) Herança

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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