sábado, 2 de março de 2013

A moça, a bandeira e o cão.


         
        Nem notara que passava diante de um prédio, onde uma cerimônia de hasteamento da bandeira se realizava. Para ela, não havia a calçada quando o horizonte do hino elevava-lhe o espírito. Afinal, crescera com o progresso a balançar-lhe o coração com o ar de seu próprio sangue. Calçadas para ela eram para serem estilhaçadas com pedras portuguesas, para que seus pés forrados com o melhor couro alemão fizessem dos danos de seus algozes um batuque refinado em plena orla de Copacabana.
        Enquanto no mastro a bandeira tremulava ao vento, seus cabelos soltos flutuavam luz entre fios manchados em colorido, sacudindo-lhe a imaginação. Então, entrelaçados a imaginação e os fios de algodão, o tecido leve da bandeira despejava ouro como folhas de outono numa bateia em forma de redemoinho. Girava-a ao ar, garimpando na luz uma ilusão repetitiva. Despejava-a em forma de filete na calçada quente, onde se desfazia entre pedras pretas e brancas em direção à Avenida Atlântida. O mar e o concreto e a velocidade a acolhiam como se ela fosse uma forma inserida nas pedras. Mas, satisfazer-se no recapeamento do asfalto, tornaria aquela Avenida um mero colar banhado de luzes na garganta de uma vitrine da Zona Sul.
             Na verdade, ela queria mesmo era a grandiosidade dos anos setenta, se revelando nas obras decadentes. Desejava que naquelas tolas estátuas o fomento de sua geração fizesse crescer a vida recuperada de sua jornada pela tortura esquecida dos maravilhosos anos setenta. Desejava que outras cores vivas vestissem sua bandeira imaginária, de forma que a cada batida de seu sapato de legítimo couro alemão fizesse surgir ali, ao seu lado, escombros do muro invisível que separava os anos de sua juventude dos anos de sua recente inquietude. Destroços de seu muro, pedras portuguesas, batidas absurdamente ouvidas em alto som, batidas de seus passos largos sobre o cimento da modernidade, seguindo-a, farejando-a como um pastor também estrangeiro. Poderia senti-lo roçar sua perna, roçar o seu pulso, encostando o focinho ao bracelete que carregava um farpado de espinhos, cravejado de arranha-céus. 

Patrícia Porto


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

olhando azuis

Dave Cutler


Os olhos sempre enxergam mais que o limite.
São sempre audazes,
querem ver o que não é da própria conta.
Continhas de mar?  Só se for para olhos de infância.
Olhos dizem muito, tagarelam, uma tagarelice de abismo.
E perseguem horizontes
mesmo quando eles se tornam invencíveis ao tempo nu. 

Patricia Porto


amores e apegos.



Andreea Anghel

Com qual matéria fazemos o amor?
Amo-te no impartilhável e desconcertante.
Essa cafonice nossa de querer mais que o possível.
Atrasada dor fina que de tão ultrapassada
vai até ao absurdo das coisas indizíveis.
Meu amor,
sou extremamente falível,
"não sou iluminada".
Sou pessoa em viagens submarinas, esse desafino fora de moda.
E só posso te falar e sentir assim - como eterno enigma no teu corpo
e em minha vida, minha parte, metades...
Então me dispo, desnudo-me com os olhos da espera,
duas chamas.
Com qual matéria fazemos o desejo? A espera?
E o amor?

Patricia Porto

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A breve história de amor e oceano.

Daniela Kocianova by Manolo Campion for Flair Austria.

O oceano abriu-se...
Nele certa calma ria e um orgulho de fluidez.
As ondas me permitiam explorá-lo
com correntes em declive.
Os oceanos são sempre imensos
com suas velas banhadas de sal.

Temo as sensações de impenetrabilidade, temo a deriva,
pois quisesse mesmo o oceano, esconderia entre os brutos,
a força que engole a leveza e a queda.

O oceano não sabia do meu corpo em aguardo,
não sabia dos marinheiros
ou das mulheres brejeiras na beira da espera
ou da morta sereia dos desassossegos.

Pois se o oceano existia para além da existência
não saberia da minha febre humana.  
Ainda assim me aventurava de inundações,
alagando-me os inteiros, meu istmo 
- à revelia.

Universo de águas sem represas
espumavam, espumavam...
Havia espuma do úmido de mim,
por onde me perdia e prendia,
sempre abarcada ao desconhecido, salgando.
Eu que sempre gostei de brincar de não existir...

Porto Patrícia


domingo, 24 de fevereiro de 2013

sangria desatada

Zsuzsanna Mészáros


Quem dera a muda rosa falasse,
a rosa à flor e pele em casca.
E se na rua ao ser a exibida
quebrasse o esquizo de egos rotos.
E ao desenferrujar a fama gasta 
que diz ser melhor quem ganha 
do bicho preso no delicado: 
o ereto, o domador,
danasse a fúria.

Quem dera esses que se tomam semi-deuses
resgatassem suas intactas costelas,
libertando os nossos sentidos curvilíneos,
as nossas doses íntimas de anarquia
e a solidão feliz que tece a alma sem precisar murar-se.

Quem dera a rosa fosse tão livre
em vez de rosa desidratada. E o verso: solto.
Em versorragia. 

Quem dera a muda rosa falasse
pra eu também me libertar desses espinhos
que estão por aqui e ali me espinhando a língua,
coçando a última espécime frágil que só renasce do tempo ao tempo
pedra ou palavra...


Patrícia Porto



Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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