sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

árvore degenerativa



Edouard Boubat

Tenho lágrimas
nos olhos e por dentro entre eles,
eu tenho como a morte de tudo que já viveu
a sombra de tudo que foi se amofinando,
aniquilando,
quebrantos de agonias tão nossas,
do meu amor... dos nossos dias de futuros...
Não deixaremos frutos.

Patricia Porto

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

E não sabia.



Ansel Adams

O espelho não tem matriz.
Minha noite foi cigana
na fonte.

Por um triz.
Por um fio
eu fui feliz...

..............

Patricia Porto

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

porque seremos as mariposas nunca seremos anjos...



Sally Mann

Se a janela estivesse aberta
um anjo entraria?
Sempre tive medo de anjos,
impossíveis de alcançar,
de desejar...
Anjos só me lembram
coisas tristes como fantasmas de asas
varrendo os cantos da vida,
soprando vestes brancas
atrás do pó dos esquecimentos.

Minha tia Marta me ensinou a não gostar de anjos.
Sempre dizia que o anjo tinha vindo buscar
a finada fulana, o finado sicrano.
Ou que um anjo tinha feito a virgem engravidar.
E ainda que nós, crianças, éramos puros, anjos.
Ah, se tia Marta soubesse quanta malvadeza
que se fazia...
Se velho morria, era anjo,
Se novo morria, anjo.
E pendurava anjinhos de papel na parede
pra afastar os demônios que nos perseguiam de noite.

Um dia ela fez eu me vestir de anjo pra procissão,
eu lá querendo comer bolo da casa de Seu Bernardo,
asas penduradas como um Ícaro e vela na mão
queimando os dedos: "mãezinha eu quero te ver lá no céu..."

O céu era o bolo de Sebastiana.
Vi logo que pra anjo eu não tinha vocação.
Tia Marta chorando: anjo mais lindo nunca fiz,
se eu morresse agora, feliz ficava.

Não era a hora dela.
A boca espocando de bolo da velha Sebastiana.
A lama de chuva levando as asas de tia Marta.
Nem liguei.

Patricia Porto

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A História da Veia...(o Maranhão e seus saberes em extinção)



Araquém Alcântara, Revista Trip


Eu me casei com uma veia
Pra livrar da fiarada
A veia disimbestada pariu dez
De uma ninhada
Passei mão num cacete
Dei uma polada e matei
Depois da veia morta
Ainda pariu dezesseis

Essa veia num era grande
Era uma veia meon
Dava vinte e cinco parmos
Da pá pra junta da mão

O dentinho dessa veia
Derradeiro do queixá
Dezesseis junta de boi
Num arrancava do lugar

A canela dessa veia
Três coisas se inventou
A canela deu uma barca,
Uma prancha e um vapor

A veia deu uma mijada
Na mata da Ribeira
Derrubou sessenta paus
E vinte e cinco parmeiras
Home, ainda disseram
Que não foi mijada inteira

A veia tava mijando às seis hora da manhã
Quando o menino gritou :_ Vovó quero passar!
“Espera meu netinho, que inda quero mijar"

Mijou o dia inteiro.
Quando feiz às seis da tarde
O menino tornou a gritar: -Vovó, quero passar!
“Passa meu netinho, que inda quero mijar"

O menino foi passando
Até dá água pra nadá.
Morreu no mijo da veia,
Coitadinho, ficou lá...


Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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