sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

David Taggart

Eu precisava comprar pilhas, mas havia muita pressa nas ruas... E o asfalto queimava a minha sola de pé.
Muita pressa nos olhos, e nenhuma lágrima indiscreta. Muita pressa no sangue, escaldando no
solo de asfalto, um sangue pardo... Corpos empilhados na horizontal e minhas pilhas do outro lado da rua
no meu consumo diário de energia. Muita pressa nos autos, nos baixos, nos sinais eletrizados,
muita pressa de sentir, muita pressa de matar a hora matinal... a hora marginal. Na margem do asfalto fervendo o solo para bailarinos loucos que vivem de lentidão como as frágeis margaridas, o incunábulo.  
Os viadutos com pressa, a vida chapada, o teto escuro com pressa... Pressa de dizer que o melhor é partir,
pressa de escrever nomes novos nos corpos e trocar os nomes e os corpos por outros corpos e nomes. Pressa de comer. Tudo so fast. Pressa de festa, festa de viver no instantâneo, no miojo da vida o calabouço, a cloaca, o colapso, o conluio, a cocaína, a trapaça, a cidadela desconstruída... A traça, o troço, a masturbação, o ego, o universo, o rádio, um rádio de pilha sem pilhas porque agora jazz é morto, jazz está estirado no asfalto queimando em ondas de ferver meus pés.

Patrícia Porto
    

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

As asas de Adão.


Dennis Duijnhouwer
           
                Ele vinha todas as noites e se deitava em minha cama. Era um homem forte, rude até, mas  andava tão perdido naquela cidade grande... E olhava pra mim quase que desaprovando meus caminhos. Vai pra onde, mulher? Ou ainda: Por que não sai um pouco?
               Passaram-se tantos anos até que ele se acostumasse a nossa presença, mas também tantas eram as ausências que ele fazia de mim, que eu me sentia parte concreta do mobiliado, esquecida entre o espaço do relógio e a cortina de tecido grosso. O tempo era amigo do relógio, imprimia nele sua potente velocidade. De fato foram tantos giros dos ponteiros e  tanta a distância que se abriu sob nossos pés que até a minha velha roupa de solidão encurtou. Depois logo veio o tempo em que ele me solicitava viagens, viagens longas, cada vez mais demoradas. Assim me queria no tempo da saudade extinta ou se bem quisesse ou não conforme seu desejo morno. Quis tentar ajudar, pois ele vinha perdendo a voz dia a dia. Fazia então uns sons diferentes, afiados. Até que num certo domingo ele acordou aprendendo a falar uma  língua estrangeira, mas uma língua tão difícil que eu não conseguia escutar com meus recentes ouvidos humanos. Não era língua de gente ou sábio. Parecia mais um assobio bem surdo...
            Tempos depois ele passou a se debater por demais durante a noite, sentia uma falta imensa de ar... Então subia até o telhado para olhar as outras casas por cima, às vezes entrando em algumas sem ser  percebido. Mas pela manhã voltava a dormir de gesto inexplicável, mas gentil, ao meu lado.
              Um dia de folhas secas decidi: pra que ter má sorte? Abri a porta para que ele saísse, meu homem de tão pouca vontade. Mas ele apenas acocorou-se no sofá numa posição de bicho. Pra que isso? Perguntei. Que te deu, homem?!
            Então vi – de repente – duas asas abertas sobre seus ombros, duas asas enormes. Aproximei minhas mãos, cuidadosamente, sobre seu novo dorso, tocando as penugens finas com tato. Eram avisos de partida, dores de certeza. Fechei a porta do quarto. Abri as janelas todas pro vento do norte. Disse: Vá embora! Mas demore não.
                Deitei na cama com ele, talvez pela última vez. E só então pude também lhe revelar:
                Olha, Adão, eu também sempre tive asas.

Patricia Porto

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Somos do mesmo tamanho.

                      Como boa leonina que sou gosto de zelar pelo território, por isso minha casa, essa transitória, por pequena que seja, modesta que seja, entulhada que seja - ou de livros  ou de lembranças de todos os lugares por onde andei a fazer amigos, é o meu reino. E só um felino muito indistinto sabe o valor que isso tem na hierarquia dos desejos. Por isso cuido do meu canto, gotejo nas plantas minha sorte, arrumo gavetas de esquecimentos, brinco de abrir e fechar janelas e solto meu pensamento, flutuante, misturado ao odor de café, cheiro de minha natureza sempre mais para o dentro que para fora. Não reclamo, embora reclamem bastante de mim. Gosto da minha natureza reservada, do meu canto de leitura e meditação, de construções enigmáticas de poemas que ainda vão surgir daqui a dias, meses ou que simplesmente vão desaparecer esfregando e soltando letras sem sentido algum que dê sentido a eles. Gosto da solidão moderada, gosto de estar comigo e conversar comigo mesma. Isso talvez me torne uma pessoa muito estranha. Difícil não explicar a liberdade que mora na minha necessidade de solidão. Gosto de escolher tecidos e pendurar roupas, mas não me sinto oprimida por isso. Quando ando borboletando pela minha sala, pouso na estante e sempre arranco sorrisos dos livros: pedaços, corpos inteiros, novos romances pra ler... Espero que ninguém, nenhuma fada madrinha tente algum dia me salvar ou me anular da minha tão íntima rotina. Por isso meus companheiros são meus filhos e um cachorro. O meu cachorro até senta para tomar café comigo, olha a lua da varanda e me ajuda a criar loucas elucubrações com latidos e afagos arabescos. Nesse instante somos os dois a própria falta de eternidade, aquele instante breve de ser nada. Adultos humanos são os mais difíceis de lidar, querem sempre explicar ou exigem explicação para tudo, para a mais mísera das bobagens. Não se conformam com "não sei", "esqueci" e "não me interessa".  Minta, meu filho, é o que costumo dizer. Humanos adultos preferem mentirosos a autênticos, porque abandonam suas infâncias na primeira esquina de arrogância ou soberba. 
               Então não me explico e falo cada vez menos. Tem um vizinho que sempre me pergunta: por que seu cachorro late tão pouco? Eu minto: "ele é tímido".


Patrícia Porto
                  

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Amar te sem ruídos.



Edouard  Boubat

Meu amor,
só conheço o amor pelas encostas,
e só aprendi do amor o verso, o pêndulo, o sótão...
Mas minhas risadas mais sonoras foram tuas, sem estreitos...
Minha voz te sussurrou na beira da Lagoa nomes secretos de mar
e somente tua lembrança, algum dia, poderá dizer que ouviu sob o pano:
o meu velho sentimento rugir.
E eu bordarei minhas melhores palavras até que minha velhice
se alinhe em teus braços invisíveis aos tricôs comprados, aos tecidos de brechó.
Por onde mora, porventura, o cessar de espantos ao teu lado?
Pois serei tua amiga nas coisas velhas: livros, vinho, música terrena...
E talvez, meus vazios cheios de mimesma
farão do meu corpo tua rede de velar marinheiro.
Tua existência me anima na vontade afetiva de ânima.
Eu pressinto bonanças, novos ajustes de passos aos dançarinos.
Do binóculo vejo um abraço depois dos incertos dias de nossas distâncias,
um sorriso depois de tanto tempo, margens, desassossegos,
um beijo sóbrio...
Andei tantas voltas e retornos a tua procura.
Atravessei a vida duas vezes, dei tantos soluços aos retratos!
E tu, por onde andaste? Foste para tuas regiões próprias?
De certo, que posso ouvir tua voz ao dentro, pernoitando.
É doce depois de tanta solidão dos barcos,
depois dos tapetes que só desteci confusa entre fantasmas
com falta honesta de habilidades.
Mas hoje quando eu abri meus olhos pela manhã chuvosa,
sabia que estarias aqui, dentro, no meu perto.
Olhei para o tempo e entendi o que é sorrir de aguardo.
Observo-te e danço melindrada para chuva:
ah, quer me deixar molhar.

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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