quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O Arco por onde se dignificam os Bobos.


Diego Rivera.


O Arco por onde se dignificam os Bobos.

Não sei se atravesso.
Não saberemos – tu e eu,
minha alma velha.
Ninguém veio para contar,
ninguém narrou a vossa notícia.
Ficamos – tu e eu,
na espera a reescrever
flácidas memórias no travesseiro,
como truques de antecipações
pelas nossas retinas mutiladas.
Um herói soluça contra o enigma.
Destino?
Não. Dissidência.
Ao vencedor o ouro e as batatas.
Ao vencedor o direito de hastear bandeiras
e palavras.
Ao herói o fruto de sua honrada alienação.
Ao vencedor o sucesso pendular.
Ao herói o verso ritmado,
a história em punho.

Não fui herói nem vencedor.
Fui pessoa de pouca aventura,
poucos feitos de espetáculo.
Por isso trago por candura o temporário,
o imperfeito e o que se demora.
Minha palavra é água e está a amolecer meu bruto
na têmpora marcada por antolhos.
Não distingo os homens pela bravura
ou bravata,
mas pelos elementos de natureza
que eles carregam de mão.

Patricia Porto


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Maria, onde você andou?

Ana Madureira

O riacho me cantou
_Maria, onde você andou?
Maria, o que você encontrou?
O riacho me encantou
_Foi sereia ou foi vampiro?
Foi vampiro ou foi sereia?
Maria, onde você andou?
O riacho me lavou
_Foi de dia ou foi de noite?
Foi de noite ou foi de dia?
Maria, onde você andou?
O riacho me levou
_Era virgem ou era pecado?
Era pecado ou ilusão?
Maria, onde você andou?
O riacho me cantou
O riacho me lavou
O riacho me encantou
Onde tudo terminou
Era sereia e vampiro
Era de noite e de dia
Era pecado e ilusão
Era virgem e pouco siso
Era viagem e era luz
Era riso e era tristonho
Era fumo e era mata
Era tudinho e era nada
O riacho me cantou
O riacho me encantou

Patricia Porto



segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Para todos os seus dias de glória.

Gerard Dubois


Se levantar a cabeça rápido demais
quem poderá cair?
Se esgotar suas escolhas, que porta estreita,
que parte estranha vai deixar emergir?

Se ouvir tudo o que dizem a seu respeito,
onde vai se esconder do caminho
quando ele resolver fazer dos seus pés pegadas?
E suas coleções, nome e sobrenome, a terra com gosto de infância...
Em que esconderijo secreto guardará seus brinquedos?

Se a noite apagar antes de um pálido amanhecer,
onde descansará o seu corpo com seus espinhos afiados
- sempre prontos a ferir?
Se a nota for mais aguda e o ritmo descompassar
quem chamará para sua cantiga de ninar espírito insano?

Onde passará os últimos dias de sua jornada pelo mundo?
Quem escolherá para estender a mão quando seus anéis caírem dos dedos?
A quem pedirá conselhos quando for o último deles? 
Quando as fotografias não fizerem mais nenhuma companhia,
quantos rostos fincaram notícias na sua memória?

Se abrir a janela, quem enxugará as lágrimas do seu rosto?
Se fechar, quem pegará o cobertor para o longo inverno?
Ao abrir seu peito, que pássaro surgirá dele?
Ao se despedir da juventude, quem vestirá seu velho jeans?

Onde foi morar aquela moça? Aquele rapaz?
As ruas demolidas, o asfalto quente derretendo toda vista do caos,
quem lhe alcançará na corrida? Por que correu tanto se podia caminhar?

Se torcer muito o nó, ele enforca a corda. Se afrouxar os seus pés, quem sabe..
Desligar o medo do outro, antecipar ao vento o rosto...
Sentir seus sentidos, dissolver a couraça da exagerada arrogância,
destruir suas façanhas, aprender uma nova língua...

Se encontrar mais estranhos dentro que fora,
e abandonar aquela velha teoria sobre os homens,
mergulhar no traçado da alma,
que desenho, lápis, risco
escolherá para inventar sua história?

Se ao passar sob o arco
nada, nada mais levar nos bolsos...
E se passará sozinho,
abrindo a passagem com a cabeça,
o que perderá desse momento?

Patricia Porto


domingo, 6 de janeiro de 2013

Sonata para coração desesperado.

 © Sebastian Liste.
      
    Tem dias que me desespero ainda, mas meu desespero mudou de ordem e aviso; então me desespero - e muito - quando vejo meninos e meninas trabalhando ainda tão cedo quando deveriam estar brincando, estudando, tendo um lar decente. Lar decente eu achava que era uma metáfora inventada pela minha avó. Ela dizia que o bom era ser decente. Comida decente, vida decente, casa decente, amordecente, amardecente... Decente que é “digno, honesto, honrado”.  Decente-metáfora era ainda mais amplo de significados, porque era o justo, o suficiente, o ético, o confiável. Lardecente. Largo na dignidade de existir. Desespero era outra coisa, coisa feia - dizia minha avó, coisa dos infernos, casa amarela ovo, dor de dente, aguardente... Des-espero para mim era o contrário do eu-espero, era o lado fingido da esperança. Porque eu tinha pressa e não queria mais esperar, desesperava, desespero. Desespero ver crianças sem escola decente, sem futuro decente. Tenho pressa, minha esperança tem pressa e me consome. Quem sabe você aí não me empresta uma sonata hoje? Preciso tanto apaziguar, pousar na sombra de uma árvore vizinha da casa da minha recente infância, a casa do teu sorriso, o meu amor... Pausar no sopro dessa história terrena e injusta a minha inquietude ferrenha sem juízo, o meu desesperado sentir com o coração, pensar com o coração na mão...Deixa minha desesperança pousar na palma do teu olhar? Então, não feche os olhos... Os meus ainda estão abertos: sem controle, sem fugas nem subterfúgios. Desesperando retinas. 

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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