quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A metacrônica.



Fui convidada, insistentemente, a ler uma crônica de uma moça que está sendo muito badalada na mídia. Como a apresentação e o enaltecimento eram grandes e chatos, fiz questão de fazer o jogo dos sete erros. Até porque quando se tem muitos fogos, sempre pode ser droga. E foi o que vi e li, uma droga. Uma droga de texto. Excessivo nas considerações, politicamente correto até dar náuseas. Mas a foto ao lado do texto nos embromava e quem muito vê cara não lê texto, pelo menos foi o que me pareceu, pelos comentários super-mega- hiper piegas que foram sendo deixados como procissão; inclusive li poucos, porque minha curiosidade por bizarrices tem limite. E li a tal crônica porque me indicaram muito, vou deixar aqui até no sujeito indeterminado, do tipo: “quebraram a janela”, “roubaram a fazenda” para não trollar a amizade.
O bom é que pude analisar alguns aspectos importantes da xaropada contemporânea que se derrama aos nossos sentidos. Não vou dar créditos, mas o texto era muito curto pra ser chamado sequer de crônica. Eu chamaria de “post” e já estaria muito bom! Ele passou longe, muitas léguas do que entendemos ser uma crônica  pela perspectiva do que é um texto com lógica, coesão, coerência, blá blá blá... Mas é que futebol, religião, educação, sexo e agora – texto,  depois do advento das redes sociais,  leva pitaco ou cutucada de todo mundo.   Acho que a ordem é essa mesma.  Futebol, religião, educação e sexo. Por aí... Talvez política entre uma coisa e outra.  Podemos até perguntar pra FIFA ou pra Fernanda Fifa ou Lima, coitada, envolvida num desses esculachos do ano. Estou fazendo minha lista dos dez maiores esculachos do ano, seguindo a tradição de Sérgio Porto. Mas dez é pouco, eu sei.
Vamos de deixar a prolixidade de lado e voltar ao “post” da moça. A moça muito bonita, já disse. Foto quase do tamanho do texto que o site importante chamava de crônica  ressaltando a inteligência do escrito. No meu jogo dos sete erros fui numa busca googlemaníaca atrás do nome com sobrenome da mocinha boa da história. Então encontrei o alto grau de seriedade de suas palavras, não seria pra menos. Claro que um sobrenome não deveria dizer tanta coisa, mas ainda estamos aqui, neste lugar paradisíaco, miscigenado, mixado onde tudo a partir de outubro é Carnaval. Estou até feliz porque 2014 vai ser só Carnaval com alguns feriados prolongados.  Nem vai ser preciso gastar dinheiro com roupa, é uma fantasia só para o ano todo. Vai até inflacionar o mercado de abadás.
Então.... Vestida já com o meu abadá... A moça e o texto. A moça com sobrenome pomposo. A moça e a foto. O texto é um “post”.  O texto é chamado pelo site “importante” de crônica.  Vamos fechando aqui os pontinhos. Infelizmente o que vai aparecer ao final de figura é um vaso de barro. Sempre podemos colocar flores e rezar pelo defunto. Nada impede.
E o fato deste meu desafeto todo é que fiquei bastante incomodada. Coisas da minha avó. Como aquela propaganda que me dá vontade de entrar na tela, como no filme neorrealista de Maurizio Nichetti e meter spray de pimenta na protagonista. Como alguém consegue fazer aquela expressão com uma toalhinha dentro das calcinhas, minha filha? Mas a moça da vitrine e a da propaganda são juntas a mesma moça da crônica que não é crônica. Inclusive as três vão dar notas no Lulu para os amigos e ex-namorados achando que estão realmente fazendo a grande revolução feminista contra as humilhações seculares que passam e vivem as  mulheres. Até suponho  que essas moças “não envelheçam”.  Pera aí. Para onde as foram as violetas que estavam aqui há pouco?
Eu nem deveria mostrar este texto pra ninguém, afinal foi escrito na hora de uma raiva súbita. Recalque, alguns vão chamar. “Ela está com inveja da moça.” Por sinal, tudo aqui se resume a inveja: ciúme, perda de parente, desemprego, fome... “Vai fazer terapia e tratar da sua inveja pra parar de ser chutado!” Minha tia falava que raiva passa pra comida. Todo mundo tem uma tia pra falar essas coisas e a minha tia Marta dizia que não se podia oferecer ao outro uma comida cheia de raiva. Fiquem à vontade para abandonar o texto a qualquer momento, porque a raiva ainda prossegue com requinte de exibicionismo público.
Por final, falaremos do conteúdo do texto da moça. Dissertava sobre o quê? Sobre nada, porque se dissesse alguma coisa eu me lembraria de algo, não? Ah, sim, falava sobre liberdade de expressão em três pequenos parágrafos, mas assim pequenos... Ah, tem sempre a turma que vai falar que tamanho não é documento. Tudo bem, na certidão de nascimento deveria vir somente escrito: “nasceu”.
 Liberdade de expressão é uma coisa difícil aqui em casa com bebê, adolescente e cachorro. Eu até entendo o complexo. Mas a liberdade de expressão referida no texto era ainda um rescaldo do tema “biografia” que foi pra batedeira midiática. O interessante foi que na conclusão da “crônica” ou do crônico, ela usou a expressão “feissibuque” para dizer que não admitiria mais comentários maldosos sobre seus próprios textos. Você não entendeu? Eu também não. Vamos tentar juntos.
É engraçada essa mania de se achar e se escrever superior da elite de uma determinada casta tupiniquim. É estranho também. Lembro-me de uma pessoa assim dessas  que chamava os empregados com sinos e dizia com orgulho nunca ter visto uma televisão na vida. “Nunca tivemos televisão em casa! Papai e mamãe queriam a melhor educação pros seus filhos! ” Oh, sorte do papi e da mami que não ficaram pra assistir ao vivo o estrago de pessoa que deixaram no mundo. Mas esses metidos a sabichões gostavam dessa armadilha de dizer que não viam televisão. Santa idiotice, Batman! Também nunca tinham lido um livro na vida.  A proporção era a mesma.
Agora são novos os tempos, mas as bestas quadradas continuam.  Dizer que não tem facebook hoje correspondente analogicamente a dizer que não tinha televisão há décadas atrás. Nem tantas décadas assim já que o mundo do pós é volátil. E aí eu empaquei feito uma mula teimosa na tal frase da moça.  O fato de ter ou não ter facebook não diz nada sobre nada. Não é isso? Respondam os que sabem tudo.  Está aberta a temporada de caça ao pato. O “feissibuque” seria uma pequena manchinha no tapete persa chinês produzido por mãos infantis e mão de obra barata?
Em tempos de Lulu e Tubby, penso que qualquer bravata de arrogância é pequena na pequeneza humana mesmo, no detalhe sórdido sobre nós dois e a humanidade. Melhor seria usar a energia da juventude para compreender essas reversões, inversões que levam a mais e mais crueldade contra os outros, os diferentes – do que ficar assistindo a grande tela sistina achando que está pintando o novo dedo de Adão.  Não digo nem o que fazer com o dedo.  Deixem o Adão em paz!
Somos todos imitadores, grandes ou pequenos. O eu é uma janela por onde o outro me diz quem eu sou. A porta é pesada demais, é o próprio Pai encarnado.  O facebook é uma televisão com interações indiscretas e o que está por vir chego a ter medo. E só posso prometer a mim mesma não me esconder atrás de nenhuma cortina. E cada um que cuide de si, porque  ao cuidar de si se cuida do outro. Lembrando que cuidar vem de “cogitare”, mas aí já é outro texto.  Pra se pensar com alegria.

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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