sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A Torre de Caim.

Angelo Massi


Querem que você levante antes mesmo de cair?
Para medo não se tem mais choque,
porque o choque agora é não sentir mais medo?
Cachorro tem medo? Não sei, não sou cachorro.
E elefante? Ah, como admiro os elefantes...
Mas desejo firmemente que não tropecem em mim.
Por que alimentamos os pombos?
E por que tememos o rato?
Não temos mais o direito de temer o rato.
O medo de hoje é o rato. E o rato foi feito para o corte, o abate.
Por que não alimentamos os ratos?
Por que o medo é tão sujo, meu menino?
Não brinque com o medo! O medo é sujo, não deixe o menino brincar!
Quem brinca com o medo acorda mijado!
Por que alimentamos os macacos de grades?
Por que alimentamos com açúcar o beija-flor?
Por que você tem medo do escuro se é criança?
O medo é sujo! O medo é tão feio! Pega a vassoura, menina! Mata esse medo!
Pode bater no medo, enxota! Sim, lá para dentro, bem dentro do ralo. Tranca esse medo no quarto!
Por que compramos venenos que é dos ratos para nos matar - homens?
Por que matamos os homens, os elefantes, o menino sujo de verme e a menina do quarto?
Por que alimentamos os vermes?
Por que sangramos a terra de tanta coragem?
Por que alimentamos os egos com restos de ratos?
Quem foi que entupiu esse ralo?
Por que alimentamos as caçambas de lixo? E os meninos?
Por que não sentimos a euforia do escuro?
Por que eu agora não me sinto alegre?  
Por que alimentamos a alma de pílulas para não sentir o escuro da sombra?
Por que a sombra nos projeta um assombro?
Por que alimentamos os egos de ratos se tomamos pílula e veneno?
Os gatos sentem medo?
Por que não alimentamos do mesmo amor os gatos quando pretos?
Por que alimentamos fogueiras com gatos e mulheres de vestido preto?
Por que eu sinto medo da noite se não sou mais criança?
A noite que é dos poetas, as ruas, esquinas...
Por que alimentamos a noite de armas?
E os meninos negros, por que têm medo?
Mas o medo é tão sujo! É preciso amordaçar o medo! Calar o medo!
Deem  torturas elétricas no medo de sentir medo até o medo vomitar todo o seu infeliz medo!
Por que alimentamos de eletricidade cadeiras que matam homens que matam outros homens?
Por que queremos tanta essa eletricidade? Por que não tememos a luz se ela pode nos cegar os olhos de tanta luz?
Por que alimentamos os nossos corpos de máquinas de fazer medo no outro se o outro não pode viver seu medo?
Os ratos sentem medo? Você aí, é um homem ou um rato?
Os ratos se borram de medo?
Os ratos os homens os elefantes os macacos os cupins...
Por que os cupins se alimentam das nossas casas por dentro?
Os cupins sentem medo?
O futuro nos dirá?
“Apenas os objetos inanimados sentirão medo? A natureza morta? O estático? A estátua grega?”
Por que deixamos de alimentar de corpos a terra para alimentar o ar com nossas cinzas?
Por que tememos o Pai?
Por que eu tenho tanto medo de você nessa hora se você é meu irmão, meu irmão único de raça?   

Patrícia Porto


O poema do poema, por Vanessa Vieira, moça que tece versos: 

Alejandra Karageorgiu



Medo

Esperto
Vem perto
Excesso 

vai longe (bem longe)

Equilíbrio te quero
vem certo

Vanessa Vieira 



Para Vanessa:
Se usas do meu tecido
para destecer-me o sentido
te ouço e assobio

se usas dos fios de meus retalhos
quero logo o ponto novo

o ovo do novo
que fias no coração velho...

Patricia Porto