sexta-feira, 4 de outubro de 2013

poema para a mulher do invisível

Alice Wellinger

mãe filha mulher menina avó moça velha alguém desceu as escadas para o quarto branco cheio de falas e falsas ternuras e de anjinhos pregados nas paredes brancas ursos brancos de pelúcia portas retratos bibelôs perfumes vidrinhos toalha de prato mesa de jantar vaso de rosas a santa a vela o colar a pérola o grão de areia alguém fechou a porta e se trancou no esquecimento não tinha nome nem residência fixa apenas o quarto hóspede de suas alucinações lembranças encantarias o ontem soube lhe acariciar as faces ninguém lhe perguntou as horas ninguém lhe perguntou sua graça os anos passaram a enrugar e ela coseu casaquinhos de lã as paredes resolveram lhe fazer companhia e ela falava em línguas estranhas escrevia para os parentes mortos escutava a rádio relógio você sabia? você sabia? você sabia? você é minha irmã? um dia também morreu e ninguém a sepultou anos mais tarde varreram seus ossos seus cabelos seus poemas seus engasgos suas larvas seu vulcão extinto vermelho vermelho vermelho veias maquiagem de boneca suas coxas seus olhos suas lágrimas seus mistérios sem qualquer mera curiosidade mero espanto mera passageira das coisas belas e feias do destino quimera quisera coragem quisera nome herança partilha ilusão silhueta anel quisera passar espelhos para trocar mas ninguém lhe sabia o nome você sabia? você sabia? você sabia!


Patrícia Porto