terça-feira, 22 de outubro de 2013

Pedra e Asa.

Pierre Verger


Oh, senhora do templo
a tratar de lei tacanha  
que diz que gente oprimida
não pode mudar de curva...
A gente que é de floresta
o rio corta à braçada,
a margem corta à navalha
e não se dobra, deságua.  

Sai do meu caminho
pá do sem destino!
Não me rele a mão!
Que eu sou é de santo,
eu sou de Maria,
de santo oratório.
Eu sou da destreza
do jogo de perna,
e serpente que muito arrasta
não come ave esperta.

Levo o patuá
feito de erva forte.
Trago no meu peito
de alma salobra
água que é benzida
de gente sofrida.
Não sou do perdido
nem escravo ou mula.
Não sou do calado
seu  cavalo velho.

Sou  Casa das Minas,
cabocla Jurema que não vai calar.
Solta a voz do povo!
Deixa a voz falar!
Quem o corpo fecha
mal não vai matar.

Na beira do rio
jogo minhas prendas.
Sou gente de rendas,
meu barco é fechado.
O tecido é vasto.
Vou correr o mundo
para me sarar.

Gente de outras terras
pode me aguardar.


Patrícia Porto