sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Água doce.

Imagem @ Jacques Lowe The Joy of Music, N.Y.C., 1960.


a criança que ria do rio vindo,
que ria do tempo indo,
ela não cresceu.
Ela está lá no rio rindo,
e no meu rito
é minha rota de passagemembolada,
minha sombra engolida na rede.

a criança do rio que ri é o tempo,
e não há sapatos que caibam em seus pés.
Não há floresta que a faça crescer.

a criança rindo do feito mágico
rindo de todo juízo afinal,
com seus dentes de leite,
com sua boca e sorriso.

a criança é a vingança contra o tempo,
contra o abuso, o desespero, a maldição,
contra a triste desesperança da violência,
contra o assalto da alma à espreita.

a criança me leva de volta pro todo, ela é a inteira,
está livre dos dogmas e das vigilâncias sociais que inventaram
o verniz da aparência.

a criança é a vingança maior contra a opressão,
contra a ordem da casa, a fundo, o silêncio do lodo,
contra os antídotos que não te deixam sonhar.

a criança soprou palavras no meu ouvido,
dançou sobre minhas perdas mais sentidas, afagando meus lutos.
Um canto: a criança é tudo o que tenho, nada mais... nada mais...
...o rio rindo, o rio vindo, a criança e o riso, o viço, a risada
- tudo, tudo o que tenho...

a criança que ria era cria do rio,
criada a crença do pouco siso,
era a vingança contra a ascendência da intolerância,
do preconceito e de todo o peso da mão da mãe,
do pé pesado do pai sobre o soalho gasto.

a criança é a vingança sobre a inquietação da noite sem fim
contra os medos do quarto trancado, das trancas da solidão de fora ao claustro.
contra a face deixada para bater. Que batam! Ah, seus sentidos não sabem culpa...

e então a criança mostra seus dentes, seus dentes que mudam,
que morrem e renascem do novo.
E ri tão alto, tão alto, tão alto, tão longe, tão absurdo...
E segue o rio e o rio é o seu íntimo.

a criança conversa com a natureza das palavras:
poesia, estrela, amplidão, céu, poeira iluminada...
e habita a fragilidade de existir e perdurar;
sabe ler os vestígios na travessia, as ruínas sobre o terreno acidentado.
Sobre os corpos afogados trazidos no espírito -
é a coragem de esquecer.

a minha é menina e mora nas entranhas,
solta do meu útero a fazer cócegas nas minhas fraturas expostas.
Ela ri do rio e o tempo é tudo o que ela tem.

Porque já viu de tudo, porque sentiu de todos -
a criança tem os elementos da terra para fortalecer os grãos
contra a estiagem.
Ela ri e sua vingança contra o ódio é a lavoura, a terra encharcada,
a lama e a limpa do rio,  o tempo vindo no rio,
o rio rindo de dentro,
vivendo e morrendo - a-co-lhendo...
...vivendo e morrendo - de tanto rir.


Patrícia Porto

Bernard Descamps