sábado, 27 de julho de 2013

Tecidos de Memória.

© Steve McCurry, Contemplando a humanidade.

(Para Letícia Mello Leitão, uma grande memorialista)

No dia seguinte
o silêncio da tua quase entrança
me desvelou o outro nome secreto da alegria:
e ele não era menos belo que a tua face oculta.
O rosto bem não te retrata
e o sussurro de uma memória estampada
perdendo-se no eco dos esqueletos
de tua casa - já nos esquecia.
E se a morte se resumir a isto?
Ao nada? Quem nos dirá?
Quadros retirados das paredes?
Roupas que não guardarão teu corpo?
Quem então herdará a tua palavra,
os pés trocados de teu santo?
Teu relicário de recortes de jornais, tuas histórias
sedentas de ouvidos?

A visita nas horas
de tua frágil existência
me fizeram conhecer o teu altar interno de lembranças,
tuas ofertas de memórias,
um acervo tão familiar.
Eu, a clandestina do meu clã destino,
guardando o dia de tua quase não-existência,
a tua quase última entrega afagada.
Irmãs de véu, sabíamos nós
do que nos falam as ressurgências.
Vozes inaudíveis,
ressonâncias perdidas nesses corredores
da alma.

Pois sim, não deixaremos de herança.

Patrícia Porto