quinta-feira, 18 de abril de 2013

Uma aquarela do Brasil.


Imagem: Pedro Nava para a capa do livro de Mário de Andrade.  
           

            Ética? Perdoe o leitor dessa crônica, é que às vezes, por tolice, confundo, vislumbrando determinados contextos institucionais, a palavra ética com algum tipo de “ismo”. E a palavra amizade com compadrio, troca de favores e moedas. E a palavra família com nepotismo e churrasco. E a palavra confiança com corporativismo ou fisiologismo. São resquícios talvez da minha ignorância tardia. Eu poderia citar um sociólogo conhecido, mas não vou fazer isso. Cumpri com todas as minhas obrigações acadêmicas e sinto-me livre o suficiente para exercer o meu próprio e talvez impróprio pensamento sobre o tipo de "ética" que comanda os nossos comandos e desmandos brasileiros. Porque fico perplexa quando me dou conta que brasileiro não vota mais, brasileiro faz fezinha. E quando vota no tal "limpo" é um sujeito estranho, piegas, raivoso, comuna, coisa de uma fatia de qualquer valor arcaico.  José Murilo de Carvalho fala bem sobre o exercício do pensamento, um “instrumento” de muita utilidade, mas tantas vezes usado somente pra cair no vão. Cadê o pensamento? A palavra pensada? Será que estamos ficando pobres em produção intelectual que faça emergir algo de realmente novo? Por que não assumir o lugar do risco, da ousadia, da tentativa criativa de mostrar um “ser-eu” que cria e pensa por si mesmo? Deixa o bicho solto. Esse "ser-eu" singular e fraturado, que está atrás da porta, feito um bicho à espreita... Na mitologia africana há um orixá que simboliza a mãe-guia das forças das tempestades, a guia que age segundo uma grande força que deixa à mostra as fraturas do terreno, da terra, que desfolha, desalinha... O que tanto tentamos ocultar para não cuidar, olhar, compreender?             
           Sou poeta e sempre ouço que os poetas são fingidores e que o ego de quem escreve é um monstro devorador de si mesmo. Concordo sem usar heteronimia. Mas pelo menos a gente se expõe, cara pálida. E é claro que sei que em ambientes hostis precisamos acionar velhas defesas e que para isso vamos desenvolvendo táticas, estratégias de sobrevivência. E também estratégias de conformismo. E "conformismo" é uma palavra que às vezes confundo com fingimento, mas que está aí e pertence ao léxico dos que teimam em dizer: "deixa disso". Porque, exercendo minha opinião, tem o conformista e tem “gente que finge conformismo” , gente que passa longe do ethos do bem, do bom, de qualquer saída que não seja a de sacanear o próximo. "O próximo, por favor!" Tem um tipo de oportunista-conformista que finge ser amigo de todo mundo e é um tremendo hipócrita por convicção. Posso crer, inclusive, que esse tipo pode passar uma biografia inteira como um cínico-medíocre-mediano-conformista, se é que é possível ser tão traste assim. Sabe aquele jeitinho de ser... No caso do Brasil, o jeitinho é pra fazer. E a regra da etiqueta é guardar entre os panos e colocar panos quentes onde der.
           É claro que eu leio os jornais, é claro que tenho acesso às páginas da Internet e sei o que se passa na cidade do Rio de Janeiro e no Brasil. De Cabral a Cabral nós sabemos, pra usar um trocadilho bobinho: se caminha às avessas. Excesso de roupas do Rei. Mas as informações nos chegam a todo o momento, quase que pelos poros, entram em nosso órgãos vitais até respirarmos bastante lixo político, sentenças sensacionalistas... Não dá pra demonizar os que nos deixam burros, mas dá pra chamar de calhordas os políticos covardes que se espalham pelo país nesse sistema sócio-econômico cínico-medíocre-mediano-conformista “dos que levam vantagem em tudo”, nas instituições, nas redes de informação etc.  Mas aos cínicos de plantão podemos dizer que é possível guardar uma medida de crença, fantasia, utopia pra outros, que nos faz suportar a existência e que nos faz também suportar um bocado de mazelas por um bom tempo, seja na politicagem cotidiana, na política do congresso, nessa estrutura toda.  Mas espero e devo crer também que a maioria segue querendo mudanças, e tendo bastante esperança, que muita gente não compactua com esses “ismos” de ocasião. A gente acredita no Brasil e acredita como criança, apostando as fichas.
         E para não dizer que não falei das metralhadoras, há uns tempos atrás, numa escola pública onde trabalhei, nós, professores e alunos fomos obrigados a fechar as portas por ordem do tráfico. Tente acertar. Alternativa A: notícia gasta sem qualquer efeito no receptor. Alternativa B: notícia velha que só serve para embrulhar peixe. Alternativa C: notícia renitente que não faz cócegas nos assentos do Parlamento...
        É... Sobre essa situação lembro que sofri um bocado, sensação de ficar no ponto zero ou morto, na desvalia, se é que me entendem. E para anestesiar minha parcela no jogo lembro que fui de bolinha, placebo desses que no invólucro vem escrito que um dia “isso passa”.


Patrícia Porto