sábado, 20 de abril de 2013

A lavadeira e o encontro com o barqueiro.


Bouguereau.


_ Vem, moça, corre a envelhecer
que te direi quem és.
Assim disse o barqueiro. E mais:
O que trazes aí neste cesto?
Nenhuma moeda?
Só palhas de solidão?
Foi isto então que acumulastes
do rio?
Pobre moça, intempestiva.
Por dentro, adulação de amanhãs
e por fora
o largo preço da vida.
Molhaste tuas coxas no
quente e na fonte
e ainda assim quiseste gritar e chorar,
tirando o limbo do corpo
a descobrir que era pouco
a tua paga?
Quis olhar a existência
e o que era estreito se fechou?
Moça das beiradas,
nem percebeu que o sujo faz parte da água
e que o pecado é uma invenção
que nunca se quis partilha.
Contentou-se apenas em saber se era dia
ou se era noite a tua vida?
Se era começo, se era fim?
“Bendito Será fim,
Bendito Será fim!
Salve o mal que há em mim!”
E cegou-se sem pregos
e deitou-se nos rochedos
com o frio da traição,
com os cortes do chão batido
sem ágoras, preces,
sem anunciação.
E só depois de tanto alarde bem quis saber:
Quantas mulheres viveram dentro de mim? – diga mensageiro.
Quantas desistiram?
Quantas voltaram de lá?
Quantas beberam e se deitaram com o rio?
Ouço suas vozes e suas intemperanças nas saturnais...
E sei de repente de uma coisa entre tantas que esqueci – por atropelo:
Todas essas mulheres viveram violentamente esses preceitos.
Todas fizeram juntas a razão da minha fogueira.
E são sombras minhas...
São minhas essas árvores.
Ao final de tudo, disseram-me que estarão pálidas,
e que todas elas, aninhadas, quietas,
preguiçosas, sonâmbulas, retornarão
às cadeiras de balanço do meu outono que se antecipa...
Moças também, partes da minha alma, correntes desse rio,
de um rito do tempo
ao cair de minhas folhas...

_ Leva o cesto, seu barqueiro,
leva o tempo
que eu lavo o resto dessa noite.

_ Pobre moça, lavadeira,
pega o teu cesto,
consola-te de margens
que nem o teu trabalho,
nem tua modéstia
e nem a tua venda
me pagam melhor a queima
que essa tua alma.

Patrícia Porto

O Barqueiro Caronte.