sexta-feira, 8 de março de 2013

Os Guardados e a Santíssima.

Amy Abshier-Reyes.


O PRIMEIRO GUARDADO


                 Aquela velhinha da rua três se chamava Dolores. Dolores vivia na janela a espreitar o mundo que passava cá fora, do lado que eu olhava pra ela.  Um dia nossos olhares mútuos foram interrompidos pela presença de uma barata imensa que passava entre nós: o lado dentro de Dolores e o meu cá fora. Eu Gritei! Mas Dolores não. Ficou lá de dentro me olhando... Perguntei então sem dúvida: _ Não grita, senhora? Não tem medo? Então a voz de dentro saiu, espanando rouca antes de se firmar:
               _Grito? Não, nunca. Falo baixo por acomodação e domicílio. Viajo raso, minha menina, bem rente ao  chão, bem rente pra não causar impactos ou estribilhos na realidade moldada pra mulher que eu fui. Mas sofro de silêncios sim, extremos e ruidosos, e dores de vazios, dores de guardados. Nunca pude ser de natureza extravagante. Então, como também não recebi a dose exata de beleza que me poupasse da ilusão do amor masculino, além da dose doce de tristezas e nuvens, compus cantigas para vidas passadas. Compus sutilezas mais que os ardis. Dizem que sou calma nervosa, que guardo segredos e segredo juramentos. Vou ampliando, amplificando assim os silêncios. Sonho? Sim. A transverso. Gritar não. Nunca.

O SEGUNDO GUARDADO

Guardei aquela chave dada por Dolores e passei anos sem passar por ali. Enfim havia crescido e mudado de cidade, indo embora do interior. Um dia, por um motivo de saúde qualquer, precisei voltar para casa de minha tia Fátima. Precisava descansar, havia cansaços em mim. E já foi quase no último desses poucos dias de convalescência que resolvi visitar a casa daquela senhorinha da infância.
Perguntava ao chão durante o caminho: para onde foram as flores e os dias de paz que deixei aqui? Passo em frente à janela de Dolores e então vejo: a casa esvazia-se, afazia-se, tranca baús, perde as chaves. Mas para onde ela foi? A janela trancada, o tempo descascando tudo. Sei que as memórias dormem. E que são mulheres, metáforas com odores de velhice, quase sempre transcritas em línguas mortas de alfazema. E todas as velhas, eu sei, somos nós. Todas. Partindo em migração.

O TERCEIRO GUARDADO

Sem sincronias para adiar, acabei seguindo um cortejo que descia pela ladeira, pois havia um cortejo durante a passagem, um funeral sem tristezas que já contornava a pequena praça rumo à capela da Santíssima. Resolvi seguir aquela dúzia de mulheres chorosas, até porque o funeral poderia ser bem o de uma senhorinha como Dolores. E até pensei por um momento, um relâmpago de ideia, que talvez mulheres espalhadas pelo mundo todo  estivessem saindo de suas casas ao mesmo tempo e que aquelas ali seguindo em ladainha, talvez fossem as semelhantes das que levavam para as ruas fotos e flores de amores velhos e novos, cantando canções,  pedindo justiça ou acalantos guardados em coro de vozes audíveis ou  inaudíveis. E diante daquela quase vertigem, peguei do meu xale português, presente de minha tia Fátima, e entrei - sem mais despedidas ou desejos no vasto espelho da memória necessária - para me fechar em copas, para aprender, quem sabe, me  encontrar com e sem Dolores.

Patrícia Porto