domingo, 17 de março de 2013

Jardim de Violetas para o novo-velho Amor.


Lee Jeffries. La tremenda humanidad.
         

            Meu nome hoje é Violeta e fiquei dias pensando sobre o que escreveria, tomada desse tão raro sentimento: o Amor. Então pensei com qual sentido poderia expressá-lo sem cair - inevitavelmente - no ridículo de todo bom estado amoroso. Acredito que, por escolha mais apropriada, de todos os sentidos tenha pensado primeiro na visão. Pensando sobre o olhar banalizado das coisas. Ver e amar - ou não olhar, esquecer-se de olhar ou ainda rejeitar olhar porque é óbvio, estamos cansados e o dia foi duro. Pela visão nos agradamos tanto, nos desagradamos tanto... E o primeiro olhar parece colher o viés da novidade, das sensações imediatas. É uma des-coberta sem igual. Mas lembro que se as aparências enganam, imaginem  por quantos enganos somos capturados pelo olhar aligeirado das coisas, pelo uso de uma só lente. É preciso então ficar com elas, as coisas, para aprender a olhar? E é preciso permanecer com elas? Encontrar nelas a pergunta primeira para as muitas respostas rasas?
             Da pergunta e da visão me veio à cabeça outro sentido que é o da memória olfativa, memória dos odores. Talvez porque eu me sinta povoada por esse tipo de memória. O cheiro das pessoas, dos bichos, dos lugares, dos objetos... O cheiro da nossa história tão impregnada de doces, azedos, cheiro de barata sem nunca ter cheirado uma de perto. O cheiro da mãe. O cheiro de sabonete de Alfazema da minha avó. O lugar mais comum e bonito: o cheiro de terra molhada, de chuva que faz a passagem; chuva boa, é claro. O cheiro de canela, de flor de laranjeira, dama da noite se espalhando pela rua...
          E tudo isso foi surgindo com esses pensamentos porque me veio à memória o cheiro do meu novo-velho amor. Sim, porque o novo quando nasce do velho é melhor que o novo original. A redescoberta já traz em si um odor único, bem peculiar de reinvenção, das coisas recém-re-descobertas, o cheiro do reinicio que pode até se estender ao fim de tudo, ao cabo de todas as emoções: o cheiro definitivo do nosso último tempo. Mas não estamos falando de partidas e sim de cheganças, reintranças, ressonâncias, "meu amor, por onde andastes"?
           O novo mundo, a terra nova, tudo tem consciência e profunda liberdade. Pois bem, o meu novo-velho  amor tem cheiro de incensos e poesia, tem cheiro de fragrâncias intensas nunca antes sentidas por mim. Tem cheiro de festa, música, suor de corpos em abraços demorados e desejados. O meu novo-velho amor têm o cheiro de mar, daquilo que chamam de primitivo e de sombra. Ecoa pra dentro. O cheiro da tempestade e da bonança, do barco que encalha e das ondas que o levam – não se sabe para onde. Não se quer saber. É pela deriva que se encontra o caminho. O meu novo-velho amor tem o cheiro quase indescritível de natureza, de sede, de mãos molhadas, de água doce correndo barrenta para um fluxo descontinuo de rio-mar. Tem cheiro de colônia e sexo. Tem cheiro de instintos, fluídos, magias.
          Sim, podemos ficar assim comovidos e exauridos de tanto que o novo-velho amor nos preenche de ansiedades e calmarias. Contraditório em si. Contraditoriamente sentimos e nos abalamos, nos movemos como inacabados ao encontro do que há de menos reflexivo e intelectual: a entrega. Somos parte então da própria intuição ou somos toda ela numa coisa bruta, num estado anterior, pré-humano de êxtase e confiança.
          Direi, por fim, que assim como é doce o cheiro da nova estação, é doce também o cheiro do meu novo-velho amor. Podemos ter a idade que for, eu o vejo sempre jovem com seus encantos e armadilhas. A nova casa, o novo lar, a nova trilha, a nova cidade, a nova saída, o novo pacto. Pra quê?
          Ah, porque o amor está mais dentro que fora e quando invade nossa rotina íntima sem solução, quer se fazer a origem de todos outros sentidos, criar sentidos. Há saudades, por certo, e estão inscritas no cheiro que retemos na memória. Respirar fundo, respirar longo, uterinamente o amor como uma pele de potência. Ele vem, atravessa o tempo e o espaço, atravessa a primeira capa do corpo para se instalar cativo dentro do coração. Mas é então possível cheirar com o coração? Sim, é possível sentir tudo com o coração, mas também é possível não sentir nada.
           Vou parar de escrever. Lá vem ele com vinho e comida. Os cheiros exalam pela casa, não se omitem mais. Talvez façamos carinhos apaixonados um no outro até o romper da noite em dia, da morte em vida, da vida em vida. Bendito seja o Amor e todo esse seu perfume de amanhã.
           Hoje me coloquei água e me chamei por Violeta.

Patrícia Porto