quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

De véspera.


Koh Ker tower tree, Cambodia. 
(Conto publicado no meu livro "Narrativas Memorialísticas..."
 e também na Geração Editorial: http://www.geracaobooks.com.br/colunistas/colunista.php?id=218)


                Eu já fui chamada de esquisita... E o meu esquisito também sempre foi para o dentro do umbigo das coisas. Embora eu sempre tenha sido – aparentemente – mais para o fora. Era a que vivia sonhando – ainda vivo, a que vivia escrevendo – meu Deus, sobre o quê? A que chorava à toa e à toa também ria do nada, a que matava aula pra fugir pro aeroporto, eu morava bem perto do aeroporto em São Luís. E ficava por lá, horas e horas perdidas a fio, vendo os aviões, as pessoas que chegavam e partiam com malas e notícias. Ficava imaginando como viviam, onde moravam, com quem. Reparava as expressões pra tentar adivinhar o que estavam sentindo: saudade por alguém que ficou, alegria por chegar, tristeza, solidão.
             Nessa época eu morava com três velhos, três irmãos: vovó, tia Marta e tio Inácio. Éramos os extremos dentro de uma casa em ruínas, cheia de esquisitices. Tia Marta passava o dia inteiro falando sobre a sua própria morte: como iria, quem a carregaria, quem choraria, como seriam as horas, as flores, o padre, as muriçocas, planejava, planejava e nunca estava doente. Não. Era viva, viva até demais, tão viva que só pensava na morte – danada, que nunca chegava, nunca acontecia até acontecer como acontece mesmo. Minha avó, sobre suas muletas, era só os silêncios e afetos pra mim, como que me compensando pelas faltas, perdas, dores – nossas, todas, da família. E suspirava... Era costume suspirar naquela casa. Os fatos suspiravam e vovó contava as histórias dos que já se tinham ido pelos anos a distanciar. E eu olhava para o umbigo das coisas, para o olho das perguntas: quando? Por quê? Como se explica o tempo desentendido a respingar a lama velha dos dias de chuva, quanta chuva, nossa senhora, credo cruz, ave maria! Era uma danação de chuva. Todos choviam naquela casa. Tio Inácio. Tio Inácio ria sem dentes, ficava o dia todo naquela lentidão de existir, como alguém que diz pra si: a vida vai diminuindo de tamanho, ficando no corpo menor, como música que termina no som diminuído. A gente decrescendo até partir. Deviríamos sumir, isso sim, espoeirar, espalhando cinzas poucas para serem varridas para os quintais, misturadas com comida de galinha, esterco, adubo de planta comum. Sem dar satisfação de deixada. Deixou-se pela manhã, ninguém viu, deixou-se na ventania que correu a plantação de mato qualquer! Tio Inácio era a poeira do tempo, aguardando não sei quem, acho Dom Sebastião, chegando pelo Porto de São Mateus. Tio Inácio era o próprio tempo deitado e assombrado na rede. O dia todo. A noite toda. Era gente? Era rede? Os dois, parte a parte, imbricado, deixado corpo diminuto.
              E eu?
            Eu amava os velhos, amava a morte, o silêncio e o tempo. Sabia ali que nunca mais seria parecida com o restante das outras meninas ou mulheres. Eu olhava para o dentro das coisas e me perdia, esquecia até de ser gente. Era meio coisa também. De mente?! Eu ficara velha antes de ser menina, mulher antes de moça, ia andar ao revés, de trás pra frente, ficando cada vez mais criança e louca. Esquisita e esquecida de ser velha, e no tempo da velhice iria espoeirar. Pensei: tomara então alguém lembrar de mim quando ninguém mais lembrar nome ou idade. Tomara que ao tomar minha mão, eu criança, desmemoriada de futuros, saiba reconhecer nele ou nela o amor que existiu em alguma vida passada ou restante.Até o fim, quando eu perder toda linguagem, voltar pro ventre de minha terra salgada de existência, liberta, deixada natureza, dando pé de raiz.

Patricia Porto