quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

porque seremos as mariposas nunca seremos anjos...



Sally Mann

Se a janela estivesse aberta
um anjo entraria?
Sempre tive medo de anjos,
impossíveis de alcançar,
de desejar...
Anjos só me lembram
coisas tristes como fantasmas de asas
varrendo os cantos da vida,
soprando vestes brancas
atrás do pó dos esquecimentos.

Minha tia Marta me ensinou a não gostar de anjos.
Sempre dizia que o anjo tinha vindo buscar
a finada fulana, o finado sicrano.
Ou que um anjo tinha feito a virgem engravidar.
E ainda que nós, crianças, éramos puros, anjos.
Ah, se tia Marta soubesse quanta malvadeza
que se fazia...
Se velho morria, era anjo,
Se novo morria, anjo.
E pendurava anjinhos de papel na parede
pra afastar os demônios que nos perseguiam de noite.

Um dia ela fez eu me vestir de anjo pra procissão,
eu lá querendo comer bolo da casa de Seu Bernardo,
asas penduradas como um Ícaro e vela na mão
queimando os dedos: "mãezinha eu quero te ver lá no céu..."

O céu era o bolo de Sebastiana.
Vi logo que pra anjo eu não tinha vocação.
Tia Marta chorando: anjo mais lindo nunca fiz,
se eu morresse agora, feliz ficava.

Não era a hora dela.
A boca espocando de bolo da velha Sebastiana.
A lama de chuva levando as asas de tia Marta.
Nem liguei.

Patricia Porto