sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Intensamente.

© Igor Kraguljac 


Porque preciso mudar,
ser outro... mergulhar no outro...
Ser do outro um mundo avulso,
desertos à mão...

Para aceitar,
cruzar o peito e a estrada
com garras afiadas de combate,
e me combater,
porque sempre posso ser uma besta no fim de tudo,
do túnel entre faros e feras!

Talvez se deixar de cair atirando...
Talvez sepulte a velha pele gasta, curtida,
o tempo tolo, do curtume! 
Porque há o tempo dos tolos e o tempo que tornamos tolo!

Usar o instinto de proteção sobrevivendo.
Ser sobrevivendo sobrevivente.
Pegar o caminho, descaminho de ida sem voltas, 
o do rasgo do amor extremo,
o sem desvios fáceis,
o das horas quietas 
sem cabanas de salvação.

Ouvir o lobo aguçadamente, ouvir o
que vive dentro do novo, sentir seus pelos, nascendo junto,
correndo no chão de todas as formas de temporais...
O lobo que grita do espelho
em desesperos de tão lúcido afeto, quase um cão.

E ao correr, velho, contra a fuga,
rompendo antigos costumes, lembrando feiticiarias,
enterrar com as próprias patas
velhas cicatrizes da floresta - as do predador,  
as sem foco de direção.

Preciso atender o lobo,
esquecer a pluma da boa vertigem,  
e a rejeição que há no medo
de apanhar do meu senhor.

Acreditar que a coragem é um ciclo, 
é a transgressão da visão que se amplia
para a glória dos seres lobos, marginais!

Onde o transe é o encontro com as chagas
de todo corpo - sem custos de presa e saliva,
sem pesos de culpa e profecia,
remanso.

Encontrar o lobo...
Dizem que ele é o uivo da noite,
o suspiro da morte abraçada,
o intenso da terra, entre trevas, florestas e rituais,
ouvindo folhas cair das noites seculares!

Preciso Ser do lobo a face mais limpa,
e a mais sangrenta!
A mais próxima da fonte, a mais selvagem!
Ser o rio, os ossos lavados, o vale, os sentidos,
os dentes, o risco, o sopro – e por fim -

O nada! Ser nada e ainda assim Ser parte de tudo...


Patrícia Porto