quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

As asas de Adão.


Dennis Duijnhouwer
           
                Ele vinha todas as noites e se deitava em minha cama. Era um homem forte, rude até, mas  andava tão perdido naquela cidade grande... E olhava pra mim quase que desaprovando meus caminhos. Vai pra onde, mulher? Ou ainda: Por que não sai um pouco?
               Passaram-se tantos anos até que ele se acostumasse a nossa presença, mas também tantas eram as ausências que ele fazia de mim, que eu me sentia parte concreta do mobiliado, esquecida entre o espaço do relógio e a cortina de tecido grosso. O tempo era amigo do relógio, imprimia nele sua potente velocidade. De fato foram tantos giros dos ponteiros e  tanta a distância que se abriu sob nossos pés que até a minha velha roupa de solidão encurtou. Depois logo veio o tempo em que ele me solicitava viagens, viagens longas, cada vez mais demoradas. Assim me queria no tempo da saudade extinta ou se bem quisesse ou não conforme seu desejo morno. Quis tentar ajudar, pois ele vinha perdendo a voz dia a dia. Fazia então uns sons diferentes, afiados. Até que num certo domingo ele acordou aprendendo a falar uma  língua estrangeira, mas uma língua tão difícil que eu não conseguia escutar com meus recentes ouvidos humanos. Não era língua de gente ou sábio. Parecia mais um assobio bem surdo...
            Tempos depois ele passou a se debater por demais durante a noite, sentia uma falta imensa de ar... Então subia até o telhado para olhar as outras casas por cima, às vezes entrando em algumas sem ser  percebido. Mas pela manhã voltava a dormir de gesto inexplicável, mas gentil, ao meu lado.
              Um dia de folhas secas decidi: pra que ter má sorte? Abri a porta para que ele saísse, meu homem de tão pouca vontade. Mas ele apenas acocorou-se no sofá numa posição de bicho. Pra que isso? Perguntei. Que te deu, homem?!
            Então vi – de repente – duas asas abertas sobre seus ombros, duas asas enormes. Aproximei minhas mãos, cuidadosamente, sobre seu novo dorso, tocando as penugens finas com tato. Eram avisos de partida, dores de certeza. Fechei a porta do quarto. Abri as janelas todas pro vento do norte. Disse: Vá embora! Mas demore não.
                Deitei na cama com ele, talvez pela última vez. E só então pude também lhe revelar:
                Olha, Adão, eu também sempre tive asas.

Patricia Porto