segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Amar te sem ruídos.



Edouard  Boubat

Meu amor,
só conheço o amor pelas encostas,
e só aprendi do amor o verso, o pêndulo, o sótão...
Mas minhas risadas mais sonoras foram tuas, sem estreitos...
Minha voz te sussurrou na beira da Lagoa nomes secretos de mar
e somente tua lembrança, algum dia, poderá dizer que ouviu sob o pano:
o meu velho sentimento rugir.
E eu bordarei minhas melhores palavras até que minha velhice
se alinhe em teus braços invisíveis aos tricôs comprados, aos tecidos de brechó.
Por onde mora, porventura, o cessar de espantos ao teu lado?
Pois serei tua amiga nas coisas velhas: livros, vinho, música terrena...
E talvez, meus vazios cheios de mimesma
farão do meu corpo tua rede de velar marinheiro.
Tua existência me anima na vontade afetiva de ânima.
Eu pressinto bonanças, novos ajustes de passos aos dançarinos.
Do binóculo vejo um abraço depois dos incertos dias de nossas distâncias,
um sorriso depois de tanto tempo, margens, desassossegos,
um beijo sóbrio...
Andei tantas voltas e retornos a tua procura.
Atravessei a vida duas vezes, dei tantos soluços aos retratos!
E tu, por onde andaste? Foste para tuas regiões próprias?
De certo, que posso ouvir tua voz ao dentro, pernoitando.
É doce depois de tanta solidão dos barcos,
depois dos tapetes que só desteci confusa entre fantasmas
com falta honesta de habilidades.
Mas hoje quando eu abri meus olhos pela manhã chuvosa,
sabia que estarias aqui, dentro, no meu perto.
Olhei para o tempo e entendi o que é sorrir de aguardo.
Observo-te e danço melindrada para chuva:
ah, quer me deixar molhar.

Patricia Porto