sábado, 5 de janeiro de 2013

In Memorian.



Henri Cartier- Bresson
      

                    Ninguém chorava. Mais de três horas haviam se passado e eu nem dera conta. Talvez por não entender realmente o que eu fazia ali. Tantos anos depois, tanto tempo... Com certeza eu tivera algum propósito, por mais incoerente que fosse. Ter saído de casa, naquela madrugada gelada de meio de inverno, para enfrentar a estrada em plena neblina. Para quê?! Para testemunhar aquele velório? Deveria existir alguma explicação lógica, embora eu tentasse negá-la protegida por minha capa de racionalidade.
             Meus pés congelavam. Na pressa esqueci de colocar sapatos. Olhando para os meus pés percebi que estava de meias e chinelos. Senti uma enorme vontade de rir, mas me contive. O riso preso. O tempo preso na ampulheta infinita. Mais vontade de rir, o riso aumentando, subindo quente, vontade de gargalhar muito, muito... Contenha-se! Louca! O que pensaria a viúva? O que pensaria aquela família tão distinta? O que esta louca está fazendo aqui?! O que eu – a louca – estava fazendo ali?!
             Amanhecia lentamente, as pessoas falavam lentamente, andavam lentamente... Pareciam querer não acordar o morto. E o morto parecia querer não acordar mesmo. O seu semblante me dizia alguma coisa em relação a alívio, sensação de independência, livre arbítrio. Para um morto recente era uma feição suave, suavizada por certa nostalgia a invadir o recinto. Em meus delírios, suavizei minha tonelada de raiva em pequenas doses. Diferente das covardias que o morto estava acostumado. Poderia bem ser uma morte lírica, extraída de um verso russo, de paredes sujas de sangue. Não era. Parecia estúpido agora.
             Naquela cerimônia tão clean somente eu parecia ter saído de uma HQ. Meus cabelos crespos esvoaçavam, despenteados. Um desleixo total sem persona. Minha roupa preta e colante lembrava algo entre o perua e o cult, uma mulher gato de meias e chinelo, uma mulher raposa sem calcinha. Nossa! Era um ultraje! Que susto afinal! Levantar do onírico, arrancada da cama por um telefonema vindo de uma caverna qualquer de um tempo pré-histórico: “_ Alôôô...” eu não sabia se pegava o telefone ou o abajur.
            _ Alô, eu gostaria de falar com a Bia. Ela está?
            _ Sim. É ela.
            Olhei para o relógio com seus números gigantes, tentando supor que tipo de piadista me falava do outro lado. Duas horas da madrugada de uma segunda-feira...
            _ Sim. É ela.
            _ Bia, desculpe o horário. Aqui é o Alfredo, amigo do Henrique. Lembra de mim? Tem tempo que a gente não se vê...
           _ Vinte e cinco anos. Lembro vagamente de você. Pra ser sincera, nem lembro.
           _ Bia, o Henrique morreu.
          A franqueza era um algoz, uma criptonita. O disfarce, uma defesa contra os inimigos. Uma pessoa que de uma situação limite aprende a criar novos métodos de sobrevivência e ataque.
         _ Como assim morreu?! O amigo chorou, falou em minutos intermináveis, contando o que tinha se passado em dias, meses, anos... Um trailer surreal de filme antigo. E eu anestesiada ouvindo sem falar para além do sim. Ouvindo notícias de uma ficção fantasmagórica de onde a minha personagem saia para viver num subterrâneo qualquer da metrópole.
          Aquele homem do passado, o homem que eu havia amado... Que ódio! Morreu! Morreu como sempre viveu, se esquivando de enfrentar seus monstros. O arqui-inimigo havia vencido a batalha. Uma arma. Uma bala apenas. Tão pouco diante do tempo indo pelos ares, esfumaçando promessas firmes de vingança.
         Eu dirigi, dirigi em plena neblina. Cheguei suada, cansada, sem graça, sem ser percebida. Minha lágrima anônima não fez menção alguma de injúria àquela família. A mulher, os filhos, os netos, ninguém poderia me reconhecer. Ninguém perguntou. O próprio Alfredo não me reconheceu. Havia tanta água de espaço entre o passado e o presente, tantas sombras... Nada parecia fazer sentido. O tempo escorrendo, suando as mãos... A memória inconveniente sem sabor. Memória fragmentada surrando o corpo de volta à vida, colhendo sutilezas. Viver pode ser impróprio se não há amor próprio. Um chiste.
          Cheguei próxima ao falecido. Morte, uma palavra simples. Acabou, simples assim.Também não reconheci aquele rosto, camadas de outros. Talvez não conseguisse nem mesmo reconhecer o meu naquele espanto. Pedi perdão por nunca ter perdoado o que ele me fez. Perdoar e esquecer... Perdoar é esquecer. E daí me vi juntando as peças: a torre, a rainha.. Fui percebendo que fazia um sentido danado estar ali. Precisava enfim perdoar minha memória, me despedir de vinte e cinco anos de raiva mal resolvida. Perdoar e seguir sem entraves. Para frente.
           Amanheceu bonito, custoso sim, mas abotoado. Era enfim chegada a hora de guardar a capa e voltar pro mundo, pra casa. Um novo calor, uma perversa alegria.
Patrícia Porto

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Femina e o corpo de baile.


© René Groebli


ressaca nos engoliu as flores

amor que é tudo que gera medo e sonho,
amor e sobras de beleza nas calçadas
juntando nossas sobras do jantar.

meus e-mails no lixo do mundo
apagados entre tantos...
a noite busca sem sentido
a lógica dos encarnados.

a fome de teus beijos é insone.
a noite estrelada sem tua língua,
um mergulho sem rede.

minhas vestes se queimam
sozinhas, sem atravessar oceanos,
sem terra que seja firme.

teu corpo é o espaço da manhã anunciada
e nós, afogadas, caberemos nele...
Gozemos todas!


Patricia Porto

domingo, 30 de dezembro de 2012

Transcendências...

 "Akash", Bangladesh, ganhador do concurso Travel Photographer 2009.


Há um véu que adorna o rosto.
Um mosquiteiro sobre a cama.
O mundo bem podia ser feito de filó
e de sua inevitável transparência.
Mas há tantos chambres de dormir
e máscaras de gás nos armários.
no algodão que encobre os corpos
para serem levados ao Ganges há paz.

transparências sim, algo dão,
algodão puro, água para banhar-se...
A água de rio corrente desacorrenta almas e tecidos.
Translúcidos nos tornamos.
Translúdicos como crianças que brincam com oxigênio.
Transparentes da mesma família humana.
Tolerantes e violentos como as águas dos rios,
mas também doces e profundos.
O tempo é movimento, tomba e dilata.
A poesia é uma transparência do ser
que se desnuda em várias fatias de horas anteriores.
O poeta é um sonhador que transparece feliz.
O fundo é o barrento da alma que se transforma
com transgrediências...
E transcende.

Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

Google+ Followers

Com-partilhados...

Pesquisar neste blog