quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

entre tantos trânsitos, a carne crua


Fotos de Viagem, Lukas Kozmus.


porque nada permanece.
tudo é território
transitório:
amor, pena, solidão,
susto, gratidão, carma,
peste, bom senso, carisma,
a ilusão do amor.
a chuva, o fardo, o fado de Teresa,
a vilania, o espectro do pai,
o demônio, o oposto, a regra
e a exceção e o otimismo.
tudo que é fixo é trivial
e profundamente triste.
tudo o que permanece
é exageradamente pequeno
e ao mesmo tempo é tão grande
que nos faz amar o grotesco
ao som terrível da tempestade
que berra, berra sempre
porque é da natureza das tempestades.
o fixo é a gramática e o que aparta.
o fluido é que liberta, o que transita entre rios e margens.
não te coloca à beira.
é o que nos faz respirar direitos e humanidades.
e tudo mais é acessório, brinde ou souvenir.
é desgaste, desprezo e prisão.
o justo é o atraso da morte, a velhice enfim.
o que passa é o que muda, faz sentidos. 
Sobra. Cria. 

Patrícia Porto

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Viajar é olhar.





Viajar é olhar;
é ter olhos despertos,
olhos de mar,
de amplitudes e horizontes
- para saber olhar os essenciais
e não o pó fútil do verniz das aparências.

Olhos de viajar
para ouvir a sinestesia do tempo:
uma antiga canção de ninar,
de um cansaço de alma velha súplica
- sem mais tempo para a estupidez
das palavras déspotas,
dos verbos imperativos.

Viajar é olhar
vislumbrar,
desvelar o infinito do nada
e nele: o mais belo do belo que ousou existir.
Ser do tombo, um universo
e ser do profundo a busca
suprema.
Não no meramente raso,
nem tão apenas mesquinho.

Viajar é olhar
para poder um dia, quiçá,
dores acalentadas,
descansar da guerra
do fogo e da caça
no suave abraço
dos braços da amada.
Uma amada tem muitos abraços.

Viajar é olhar
para não perder de vez o sentido,
para não punir a experiência telúrica
com a ausência bruta, cruel, dos que não sentem.

Patrícia Porto

Pensando em Kierkegaard.

         
          “Poesia é comumente considerada a mais local das artes. Pintura, escultura, arquitetura, música podem ser desfrutadas por todos que vêem ou ouvem. Mas a linguagem, especialmente a linguagem da poesia, é diferente. Poesia, pode-se supor, separa as pessoas ao invés de uni-las. Porém, nós devemos lembrar que, se a língua constitui uma barreira, a poesia nos dá uma razão para tentar superar essa barreira. Desfrutar da poesia de uma outra língua é desfrutar de uma compreensão das pessoas às quais essa língua pertence – uma compreensão que não se consegue de outra forma.”

Kierkegaard


O Navegado.
Meu passo é o ante p
Asso
Antes p
Assa
Antes p
Eso
Antes pul
So
Sol
Mi
Mim
Meu pass
Ado
Antes
Nunca
Dantes
Dentes
Doravante
E sempre
Nave
Gado


Patricia Porto

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O Nascimento de Vênus.

“O nascimento da Vênus”, de Sandro Boticelli (1845)

"Conversa estranha com gente esquisita, eu não tô legal..." Aconteceu por duas vezes seguidas. A primeira foi perto do anúncio do fim do mundo, quando estranhamente resolvi me dar de presente um novo mapa astral. Sabe aquela lista de coisas que você faria se o mundo acabasse? Eu estava exercendo a minha de fato e pedi a uma pessoa,  reconhecida na área, que fizesse o meu mapa astral. O resultado disso? Passei mais de vinte anos acreditando que meu ascendente era “virgem” e não era. Como assim?! Claro que isso gerou um inusitado desconforto entre mim e a astróloga em questão, por sinal, maravilhosa pessoa.  “Me dá cá meu ascendente de volta! Que negócio é esse? Não tenho mais idade pra mudar de time nem de ascendente.”
Descobri - dessa maneira, um tanto pitoresca - o quanto nos apegamos às coisas, as mais incrédulas, as menos questionadas, creio. E nos apegamos a tudo e a todos com afinco e orgulho, nos apegamos à história, à racionalidade, às crenças, às banalidades, às quinquilharias, às coleções. Síntese bacana essa, a do ser humano: “apegar-se”. O desapego é um exercício de luta. Uma luta feroz pra muitos. Pra maioria, digo. Os que nascem em outra cultura e crescem longe, bem longe da poluição mercadológica, podem se desapegar com facilidade. Eu acho. Também nunca fui de outra cultura e lugar pra afirmar isso. O certo é que me apeguei tanto ao tal ascendente em virgem que não queria desistir dele por nada. Virgem, o ordeiro, centrado, minimalista, meticuloso, crítico sim, mas ponderado... Por aí vai...  E isso (acreditem) me dava certo conforto. Porque minha bagunça interna já era tão grande, que só um ascendente em virgem poderia me salvar da loucura total e generalizada. Imagina se eu tivesse um ascendente em escorpião?! Sairia por aí mordendo gente na rua!  Já me sentia culpada por ter nascido no mesmo dia em que nasceram Napoleão e  Mussolini. Pra que mais?  O fato é que detestei a nova constatação astrológica e cheguei a duvidar do mapa, e óbvio, dos métodos usados...
Foram minutos de um debate esquisito. E depois de cair de vez no “aqui e agora”, quando enfim percebi minha atitude ridícula, tudo isso acompanhado de uma xícara enorme de chá com florais, só poderia mesmo, finalmente, me conformar. Uma pessoa com ascendente em virgem, pé no chão, não iria tentar dissuadir a astróloga de seu achado profissional com argumentos paradoxais de teimosia. Tudo bem, tudo bem... Havia uma nova combinação no meu céu. Meu ascendente era libra. Mas foi por pouco, bateu na trave.
                Nada contra o signo de libra. Acho câncer, peixes e libra os signos mais fofos do zodíaco. Tenho amigos maravilhosos desses signos. Justificável, pois são pessoas de afeto e  “colo” extraordinários. Mas como eu poderia ter um ascendente em libra se nem pinto minhas unhas? Odeio pintar as unhas. Até porque levo menos de uma hora para destruí-las. Tudo o que eu ouvia falar de libra, de forma muito leiga, estava ligado à beleza, à leveza, ao bom gosto, a certo refinamento. Muito esquisito... A astróloga - canceriana, me apontou então alguns caminhos que seriam os ligados à arte,  à estética literária... Contou-me a seu modo o mito de Afrodite, a deusa do Amor. Nascer da força que espuma da delicadeza e da potência... 
                Com quantas certezas se constrói um barco ou um castelo? Fiquei com essa pergunta rondando minha nossa face psico-astrológica. Respondia: com a mesma, com a mesma. Mas se for um sonho? Uma criação? Uma mudança? Com quantas certezas? Muitas? Algumas? Nenhuma? De quanto tempo precisamos para nos desapegar de uma falsa certeza ou de uma verdade de ocasião? O caminho da verdade é a dialética. Aprendi nos livros e na vida. Só não tinha parado para entender o quanto custa  jogar qualquer verdade, a mais banal delas, para fora da alma. Não, não é somente na cabeça que as verdades são forjadas. Elas vão lá na tua alma e te possuem, talvez para o sempre. Olhei ao redor com medo de estar falando sozinha, tamanho o caos que me incendiava.  Afrodite me guiando numa nova temporada de incertezas e indefinições. Que bela espuma!
                Vi o quanto podemos ser rudes e austeros para manter uma convicção de cabeceira.  Mas também refleti sobre o desprendimento, das dores que causa: as pequenas, as variadas, as enormes, as de todos os tipos e sentimentos contraditórios: e as que invadem à nossa mente querendo fazer moradia fixa quando precisamos deixar algo ou  alguém partir. Voltar pra si mesmo, conviver com sua própria solidão, recolher-se para se reencontrar, pra ressignificar o vivido, não é tarefa das mais divertidas. Vai uma anestesia aí?  Ah, uma onda morna, por favor.
         É preciso voltar para dentro, mas não é fácil. Lembra a minha avó falando: “mas quem te disse que ia ser fácil! Quer moleza? Senta no pudim!”  Mas bem que um pouco de fantasia e  mágica não fazem mal a ninguém. Nem de pudim também. Ao contrário. A fantasia tantas vezes nos salva dos choques da realidade... Acho mesmo que a resiliência, essa palavra da moda, deve ser um portal, uma conexão direta com a fantasia, com a capacidade criativa de viver paralelos, outros mundos; e magicamente. As crianças sabem. Todas elas já nascem resilientes, fora os olhos abertos. Afinal, nosso mundo não anda bom pra peixes e nem pra crianças. Perdoem o trocadilho bobo. Mas não resisti.
                Arrumada de novo, a nova era astrológica me fazia rir, mas uma vez sozinha. Rir de mim mesma, da minha auto piedade diante da inevitável perda. Era preciso dizer adeus à virgem, à Terra... E dizer olá à Vênus. Olá, Afrodite! Enamorei-me de libra com suas delicadezas tão sutis. Quem sabe um novo ser surja da espuma, mais leve, menos dramático e arrogante, menos solar e mais autêntico na sua ambiguidade.
                A segunda conversa esquisita foi com a psiquiatra. Mas essa eu desisti de contar no caminho, conquista de uma recente ética e estética de balança.           
                             
Patrícia Porto
              

domingo, 16 de dezembro de 2012

Eπιφάνεια





na face mais aguda da palavra

pôs se na trama de fiar a lírica
feito o corte ao norte
para advir de todos
um novo serungido

dores sedentas sempre fitam-lhe
cara a cara, queda a queda:
pedaços de velhas construções poéticas
vão caindo sobre o corpo frágil,
um novo corpo frágil digital
sem ponteiros de direção

da palavra do pobre poeta:
agora nua, a despedaçada,
de tão efêmero e algoz existir,
surge da noite selvagem como um berro
rasgando verbos do dicionário:
enfileirando palavras esdruxulas
aos rococós do sem sentir.

dos novos navios, 
o verso da arrogância não
quer se entendido, esteriliza.  
o verso da arrogância é um tiro na face, asséptico,
como a violência soberba dos eternos colonizadores
de terras, mares e ares

quanto vale o poema da terra?
quando vale o poema do mar?
quanto vale o poema do ar?
com quantos grilhões se fere o seu verso alforriado?

mas o poeta do escuro, tateando o ouro das vestes
nobres de seus poetas obtusos,
escreve com sangue seu duplo sentido,
sua dupla jornada de ser e não-ser -
de lançar ao amor seu orgasmo e gozo. E os dois, ele e a amada,
um no corpo do outro, em simbiose, 
escrevem tatuados um novo ato de desconstrução sentimental...

toda voz grita. É o Frágil! Pobre poeta dos escuros... as paredes não gemem.

de longe se pode ouvir
sua viagem, miragem,
mensagem:
livre ele da criatura da guilhotina,
transborda sobre a cheia
que limpa e batiza novos povos:
meu mestre, sou louca, senhor! Ela diz.
Devora-me em mim o eu que há em ti!
angula-me, me gole, me enigma. Mas não me esnobe o que sublima,
o que tateia a pedra e não a tira.


Patrícia Porto



Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

Google+ Followers

Com-partilhados...

Pesquisar neste blog