sábado, 15 de dezembro de 2012

Do mirante.


Lukas Kozmus



E você abre a janela e espanta o que foi espanado
da casca.
E aí é possível ter visões de nuvens e cores,
montes que corromperam um tempo
- o indivisível.
E aí você que se diz poeta - abre o mundo feito uma fruta de gomos
e espera que o ar traga a poeira dos sonhos mais lúdicos e loucos
- feito Poesia – essa coisa de criança.
E você escreve sonhos na areia
ou versos que um dia você docemente teve
e esqueceu de acordar.
Por dúvida ou medo. 
Foi-se na espuma
engarrafando o desejo.


Patrícia Porto

Por que voar? Arre, voar!



Penso em voar
voar dentro em pouco
e aos poucos num raio
por milésimos de segundos
segundo meu fato solto

Penso em voar
voar dentro do poço
pulando atrás do rastro
de um mistério mundo
rompendo meu salto alto

Penso em voar
voar denso e pouso
povo a povo num rasgo
de um parto fundo
profano de meu salvo ato

Patrícia Porto
(1987, escrito aos dezessete)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Paciência Estratégica.


Paciência Estratégica
             
                Recentemente numa entrevista concedida à TV brasileira, o Presidente do Uruguai,  apelidado como o Presidente mais pobre do mundo, contou que para lidar com os problemas internos da economia uruguaia e a queda de sua popularidade, seguiria o conselho que a Presidenta Dilma tinha lhe dado: teria “paciência estratégica”.
                Paciência é uma palavra muito ligada à semântica dos monastérios.  Ser monge é quase um aspecto sinonímico de ser paciente.  Um monge estressado, penso que seja algo inviável. Talvez motivo para uma distinta expulsão. Jó era outro. O mais paciente de todos. Mito da Paciência, Jó perdeu tudo: família, terra, honra. Mas reconquistou tudo em dobro pela sua enorme, monumental paciência.  Perder tudo para ganhar tudo em dobro. Imagine-se perdendo alguém que ama, para mais tarde ser contemplado com duas novas pessoas, tinindo, brilhando de novas... A paciência conseguiria dar boa substituição para o que já foi perdido?  
                 Em termos de economia de um país... Aí é outro papo. Certo? Certíssimo ou justíssimo, diria o nosso político mais realista da ficção, Justo Veríssimo.  “Pobre tem que morrer!” Era um de seus bordões. Pobre que não é Presidente é como o operário que não é Presidente, como a mulher que não é Presidenta, como o sociólogo e professor que não é Presidente, como o palhaço que não é deputado. Achar que eloquências ou dinâmicas discursivas podem representar as minorias ou a maioria esmagadora, é uma ilusão de ótica. Gostava mais quando o programa televisivo de fim de domingo deprimente (ou em outra ordem) mostrava os ilusionismos de David Copperfield  ou  ainda, quando o Cid Moreira apresentava o Mister M. Pelo menos eram anunciados como deveriam ser: “mágicos”. Sempre gostei muito de mágicos.  O mágico é um sujeito que tem a tal da paciência estratégica. Porque primeiro ele faz todo um trabalho de sedução, ganha a confiança da plateia com seus truques e mãos rápidas. E depois engana seus olhos com muita rapidez e logística. Geralmente faz mais coisas desaparecer que aparecer ou faz coisas desaparecerem e aparecerem em outros lugares, como paraísos fiscais, cofres suíços etc. E para lidar com a desconfiança da plateia? Mais e mais, muita paciência estratégica. Podem ser anos, décadas de paciência.
              Em Grande Sertão Veredas, “Deus é paciência”. O diabo é que está solto na rua, no meio do redemoinho. Parece que o “Coisa Ruim” não é de ter paciência. Não à toa, antes dos manicômios, o tratamento que se dava aos loucos eram os dos serviços clericais, expulsando os demônios que habitavam a loucura: a irrequieta, a extravagante, a excêntrica, a histérica loucura, principalmente a das mulheres. Afinal, só paciência expulsa demônios. Algumas cachimbadas podem até ajudar.  Meus demônios, por exemplo, se chamam “hormônios”.  Tem dias que nem o  melhor dos exorcistas conseguiria lidar com eles, eu asseguro.  Haja paciência!
               Todas as esferas de poder conhecem a importância da paciência. A indústria farmacêutica ganha rios, tubos, malas, cuecas de dinheiros com a Paideia da Paciência. Vende-se de tudo para o sujeito ficar “paciente”. Porque a impaciência é  decididamente o mal estar do século que ainda se inicia, podemos dizer. O século, um adolescente de doze para treze anos... Fase das mais difíceis de lidar. Dá mesmo  vontade de acabar com o mundo. Um horror! Depois que ele casar passa.
            A paciência aqui de casa tem formato de vidro e no rótulo está escrito rivotril. Cinco, dez gotinhas, hum, dá uma paciência da boa... Melhor que chá de cidreira, folha de maracujá, erva que dá no mato... A necessidade de paciência tem essa estratégia. Outro dia, uma colega de trabalho se encostou em mim de canto, falando baixo: “eu sei que você usa rivrotril, dá pra me arrumar umas gotinhas...” Foi divertido sim, me senti a maluca na jaula dando a solução pro enrustido. Sai desse armário, minha filha. Libera essa louca! Deu  nó na garganta, porque a loucura anda tonta, extraviada, banida dentro dos nossos próprios redemoinhos. Na mitologia persa existe a "syngué sabour" ou pedra-da-paciência, uma pedra mágica que guarda os segredos e as angústias de uma pessoa, e que só pode libertá-la dos seus piores sofrimentos no dia em que explodir.  A liberdade então não está na resignação passiva da pedra. Explodir seria sua libertação dos sofrimentos.  Mas que medo, não?  
             Paciência é uma das sete virtudes, fica do lado oposto aos sete pecados. Do latim patientia,-ae, é a virtude de tolerar dissabores, todos os males da vida com calma. Nossa, dei até umas sacudidinhas pra escrever isso, uma coceira na cabeça... Não tenho a menor calma com gente muito calma. Talvez porque o meu pêndulo caia sempre mais para o lado dos pecadores.
          Entendo que nessa nova “era”, não a de Aquário como pensávamos, mas na era da “Autoajuda”, tudo isso venha parecer conversa pra boi acordar. Que o pobre do boi continue dormindo seu sono em berço esplêndido. E que os incomodados que se acalmem.  Entre as palavras de mesmo significado gosto bem mais de “pachorra” que além do duplo sentido sonoro, é plena de significância em sua ambiguidade.  Assim como o ser humano?  Só de falar “pachorra!” já fico até calma.
            Não, não farei um tratado ou testamento contra a paciência. Nada disso. Nonada. O mal não há. A gente é que atravessa o mundo criando, inventando desesperos, pintando a casa de amarelo.  Talvez eu esteja na embrionária vez pela existência. Não consegui nem mesmo ser um ser humano inteiro, porque se assim fosse não me sentiria tão miserável por tantas vezes. Perfeita a ideia de “paciência estratégica” dos dois Presidentes diante das crises, como um jogo de cartas que se joga sozinho. Quem Perdeu? Eu. Quem Ganhou? Eu. O último a bater? Eu.  Mas tudo estrategicamente.
 

Patrícia Porto 


       

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O Porto.

 Imagem© Igor Kragulaj, Croácia.

adiante...

Se fosse o mar a nossa mão direita
E a nossa garganta fosse a água dar a senha
Não, não teria razão para tanta sede

Se fosse o mar doce como a tua beleza
E não fosse fel a onda, nossa água ardente,
Não, não teria razão para tanta sede.

Se fosse o mar calmo como o teu canto
E não fosse estranha a minha natureza,
Não, não teria razão para tanta sede.

Se fosse o mar todo o teu bem futuro
E se não fosse nessa água esse tanto sal,
Salgando essas carnes nossas feito um fado triste,
Não, não teria razão pra enterrar na areia esses nós e pés,
Adubando a terra com tamanha sede.

O Porto ficou deserto, vazio parto de si.
A inundação foi chegando, salgando sua chegada.
Varreu o sal dos seus barcos
E quem esperou nele o amor
só viu a sede partida.
Tanto mar em terra firme
Se despedindo da vida...



Patricia Porto

domingo, 9 de dezembro de 2012

Pensando na morte do Bezerra.

Shinji Watanabe

Não havia dúvida.
Era preciso enfrentar o Mar:
- não há pressa, disseram.
Trincos trancados.
Xícaras de café.

Templos aguardando
seus joelhos e chagas.

Mas ninguém ficará aflito.
Ninguém cairá da janela do medo
ou subirá escadas de orgulho.
Prometeram:
Ninguém!

No espetáculo fáustico
nenhuma presença dos Anjos,
nenhuma mancha de assalto
no tapete persa. Chinês?

Tome o café rápido!
É preciso enfrentar o Mar:
o absurdo da vida
chamando, chamando!

Marche soldado,
cabeça de papel!
Toda loucura é pouca!

Entra um homem de beca e assalto:
sinto muito, mas o senhor continua vivo
e os suicidas, esses não se enterram em solo santo.
Precisamos reanimá-lo.
Ah, e o solo é santo, doutor?
Atirem-me então ao universo!
E vendam minhas relíquias!
Estou sóbrio e preciso enfrentar o Mar!

Entre os vivos-mortos
ia só dedilhando farsa poética,
onde os vermes-humanos não se podiam mais ver,
“ignoro toda miséria dos seus preceitos!”, gritou!
Agora hei de cerrar a porta do meu abismo com gosto.
Despisto a vida, porque não tive dela virtude,
para abrir enfim, à revelia, a escotilha do mundo!
A última. Que seja. Ao mar!"


É o vasto!
É o Mar!
Estou morto!
Estou vivo!



Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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