quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

como agre doce.


 Imagem© Pierre Alain

A chuva veio
e levou tudo assim
como o vasto

Mas o que é o vasto
se não o sal
dessas águas de insistência:
viver?

São nossas as lágrimas,
o soro desses olhos
que cobrem o instante
da chuva de dentro.

Por fora:
as poças vão formando
oásis
como lençóis,
onde o sal agora é doce.

Patricia Porto



Um trem de cordas.


Imagem© Os Gemeos, Otávio e Gustavo Pandolfo.Graffiti.

Ainda ouço minha mãe gritando: _Vai perder o trem!
E o trem levava para a escola técnica,
no tempo que eu queria ser de outra natureza.
Maldita sina: nascer mulher! Eu praguejava.
Porque era normal praguejar se se nascia mulher
naquela família.

O trem saía de Alcântara
para um lugar nenhum dentro de mim.
O trem de Alcântara,
a explosão de Alcântara.
Eu queria ser engenheira.
Engenheira das letras? Disse um professor barrigudo. (que trem esquisito...)

E um dia Alcântara explodiu,
ficou deserta de gênios;
a outra, pequena para os meus olhos.
Eu queria conhecer uma tal de Londres,
vi num catálogo ilustrativo.
Era a terra de Shakespeare,
maior escritor inglês de todos os tempos.
Mas o trem de Alcântara não era desses de fios de ouro,
precisava de muitas cordas
e não parava em estações que fossem de sonhos ou loucuras.
Ele seguia avante e sombrio, como um trem de fantasmas,
para um destino que nem era o meu.

Acorda, Patrícia, vai perder o trem!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Garrafas, mensagens e trocadilhos sem mar. Ou por um sonho menos ordinário.



Imagem© Alice Wellinger
Cartas jogadas ao mar?
Não as teremos mais!
De tolas certezas se preenchem a vida dos que andam ao certo.
Agora sim,
é o sal do perecível dos beijos,
do perecível do amor,
do mundo o filho descartado,
o espécime raro engolido pela má sorte.
Saberá quando ancião do dia o mal estar do domingo à noite,
a solidão da geladeira. O pinguim eletrônico. A ração congelada.
Saberá da estátua de um seio amputado,
da bomba anatômica apontada para os nossos umbigos. A perfeição.

Cartas jogadas ao mar?
De insônias passam seus dias, os lobos solitários.
Saberá o filho do mundo - do ínfimo e das margens,
(e por que tantas margens se a alma estará só?)
(por que tantos parênteses?)
Saberá da fragilidade do corpo,
porque terá sido do raciocínio lógico um afogado firme!
Saberá do verso o vespeiro, o excluído, o cortado sem dó.
A palavra que lhe apertará o gatilho. E partirá com ela. Em retirada.

Cartas jogadas ao mar?
Com poucas sentenças deixará sua cidade.
Dirá para velha: "voltarei logo". Mas não voltará nunca.
Saberá por tantos do mapa que não seguirá,
o de veias tortas do mundo, porque será dele
o tempo bastardo e a falta de semelhança com a reta...
Saberá do escudo de uso para morte súbita.
E sentirá a mão de mulher que acenará até o fim. Esperando.
Saberá então do cachorro esquecido no mato. E será dele auto-retrato.

Patrícia Porto

domingo, 2 de dezembro de 2012

Notícia de vã guarda: A Mulher de Berlim.


O urso polar Knut no zoológico Tiergarten, em Berlim


Mulher se joga na jaula de ursos polares.
A mulher de Berlim se joga na cela dos predadores.
A mulher de Berlim na páscoa se lança e invade a piscina de Knut.

Por que a mulher de Berlim se jogou a um dos maiores predadores da terra?
Por que a mulher de Berlim queria abraçar Knut?
Por que se jogou?

A mulher de Berlim só queria abraçar Knut.
A mulher de Berlim só queria se jogar.
Aplacar sua ambígua dor.
E se jogou.
.
.
Pat Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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