sábado, 1 de dezembro de 2012

Meu Brasil brasileiro entre tons e dissonâncias.

Imagem© Araquém Alcântara

                      Tenho andado numa fase frasista esta semana. Acho de uma inteligência  tão "chic" esse poder de síntese! Eu não sei dizer nem mesmo o óbvio em cinco palavras. Que me perdoem os meus colegas, poetas contemporâneos, com suas tesouras antenadas, mas me esparramo pelo chão... Por isso estou sempre ou com uma trilha sonora na cabeça, minha paixão explicita pela música; ou com frases de outros a rondar meu pequeno mundo de cachola. E hoje eu acordei tendo como lema a conhecida frase do Tom Jobim, num desses tons: "Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom”. 
                        Acredito que cada cidadão brasileiro comum, como eu ou você, à sua própria medida ou desmedida passe duas ou três vezes por semana por esse sentimento que diz e clama lá do fundinho de nós: “o que eu estou fazendo aqui neste lugar?!”
                           Que país é este, afinal? Rico e miserável em contradições. Acho até que Belíndia já caducou. Mas dizem que estatísticas não mentem. São como cartas de tarô. Descartes não tinha ideia da persona ou do monstro que poderia criar. E viro número, logo existo! É claro que avançamos muito, o que pode comprovar que a pobreza vem diminuindo. Pode? Sim, basta olhar todos os índices do ilustre economista Marcelo Neri e de todos os Institutos que são realmente sérios. Não estou sendo irônica. É o que ocorre!  Estamos saindo da imensa pobreza e é pra valer. Que nos confirme também o tal Fuleco, nosso mascote do crescimento! 
                        Agora,  pra sair da miséria, do nosso velho e rotineiro miserê, devo confessar que tenho cá minhas dúvidas – e também dívidas à balde pra desmentir. E o que sei (perdoem) é que desse imbróglio todo, uma pergunta teimosa resiste e não quer, mas por nadinha, calar: "se avançamos tanto por que os tantos retrocessos e a tamanha desigualdade?" E esse desconcertante retrocesso ético? Como fica nessa lista? Como lidar com esse “pepino” interno? Ah, no meu não, camarada! Sai pra lá!
                  É paradoxal mesmo. Lembra um pouco aquele jogo de corrida de casas que a tua tia te dava de presente de natal, quando não era meia: vai, meu filho, avance! Ah, agora retroceda, não, volte duas, três casas... Quer saber? Volte ao início e comece tudo de novo que é melhor negócio... Ou deixe-o e  saia logo do jogo! 
                  Não sei vocês, mas eu já pensei algumas boas vezes em arrumar minhas malinhas e ir pra um lugar distante, pra um desses países gelados que prometem oportunidades e são campeões em qualidade de vida. Depois pensei na frase do Tom e na minha bronquite, e desisti. Penso dois segundos por mil vezes. E fico no assobio do samba do avião, resignada... Tá legal, eu aceito o argumento.
                O que eu iria fazer com a minha língua que é ao mesmo tempo - para mim - saída e entrave?  E o Brasil é bom, vai...  Olha as nossas praias, o futebol... Não temos guerras, homens-bomba, vulcões, tsunamis... E aí vai ficando quase impossível não cair naquela piadinha batida da criação do mundo. E o todo poder dizendo: “Você vai ver quem eu vou colocar lá!” A lista da ficha suja é realmente longa e histórica, vários congressos, organizações, departamentos caberiam dentro dela. 
                 Sobre não ter guerras ainda duvido.  A nossa usual estatística de homicídios entre jovens que morrem antes dos vinte e tal – sempre teima em pregar peças. Mas segundo os novos índices, diminuiu pela metade de 2000 para 2010. Sei não... Devem estar torturando uns números por aí. "Cala boca aí seu cálculo de merda!" E tome tapa na cara de mão aberta que é pra não marcar!  
                E quem é o Collor mesmo? O Maluf? O Zé Dirceu? Não seriam também homens-bomba? Outro dia ouvi um repórter falando que estava acontecendo um “verdadeiro terremoto político” em Brasília. Tive que rir. Talvez a nossa natureza seja realmente outra já que estamos extinguindo aquele povo que era do verde, usava cocar e era real, e isso juntamente com os caras pálidas que os protegem. Farinhas do mesmo saco das coisas que permanecem no reino da impunidade. Ah, mas tudo bem, eu também me ufano do meu país! Afinal, como esquecer essa gente bonita brasileira, de pele bronzeada caminhando rumo ao mar? Também disse o Tom sem perder o tom. 
              Parafraseando meu poeta conterrâneo:  "minha terra ainda tem palmeiras, basta ouvir o sabiá". E se sabiá de lá não gorjeia como cá é porque virou raposa há tempos. E o pior: peste que não morre! Gente, até a Hebe que eu pensava ser eterna, morreu. Mas o raposa-mor não morre!  Com certeza já deu três voltas no capeta pra não cumprir o pacto.
               Mas nem por isso podemos esquecer a cidade maravilhosa com sua geografia encantadora. Patrimônio da humanidade. Dá para sublimar qualquer paranoia - com certeza. Basta não pegar ônibus, nem trem, nem metrô - e nem táxi. Ontem atrasada para o trabalho desci do ônibus e peguei um táxi  O “gente boa” do motorista com seu GPS-TV colocou num desses programas bem bizarros pra acompanhar as notícias do trânsito na Avenida Brasil. O sujeito-locutor, uma mistura pavorosa de todos os que o antecederam, gritava horrores! “Olha aí, gente!, tá lá!, o corpo do motoqueiro esmagado embaixo do caminhão! Mostra lá, câmera! E agora outra: cabeça encontrada em matagal!” Quase vomitei na poltrona, ô da poltrona...    
             É isso, ainda bem que brasileiro que é brasileiro sabe torcer com muito orgulho e com muito amor. Então se for de carro, a pé ou bicicleta, torça bastante pra que não chova, ainda mais se estiver na Praça da Bandeira, perto do Maracanã ou à altura do Caju.  Se for de trem e for mulher, torça pra ninguém passar a mão na sua bunda.  E torça, torça forte, pra que não role um feriado prolongado quando você estiver sem grana pra fugir pro Alasca e tiver que atravessar a ponte Rio-Niterói ou pegar a Imigrantes.  E torça, mas torça de pé junto e firme, pra que – nem com a vaca tossindo de pneumonia -  você precise contar com algum serviço prioritário, tipo esses dos hospitais, bombeiros, polícia, defesa civil, todo esse povo também deixado à míngua por esse Estado de coisas.
           Ah, mas tem sempre um cara feliz tomando um pileque homérico pra dizer: “vai, dá pra relaxar, meu amigo...” E se rolar uma graninha talvez até se consiga uma boa solução miliciana, marciana, de outro mundo ou submundo paralelo... Mas vale lembrar que o amigo é sempre da onça.
         O que seria então “o melhor e o pior do Brasil”? Lanço esta pergunta como desafio de resposta aos leitores dessa crônica. Será que daria para pegar um capitão gancho na Carta de Caminha? Por que perder tempo falando de índios, queimadas, destruição, desigualdade, se hoje estamos entre as dez maiores economias do mundo e se temos novos milionários na Forbes? Não sei não... De tanto a gente ficar em cima desse muro fino, ele já está maior que a muralha da China, mas prometendo ruir.
            Para não dizer que não falei das flores...  E a nossa juventude que não está somente na estatística do IML? E as crianças com tanta sede e fome de aprendizagens todas e de perspectivas de presente? Sim, sem dúvida continuam sendo o futuro discursivo do Brasil. Quem dera fosse o melhor na prática. Bem, o pior todo mundo sabe, é a educação que eles continuam  recebendo às avessas e a educação que eles continuam  não recebendo como direito legítimo, como fatia principal de dignidade pra se viver com cidadania, amor, arte, lazer... Nós já temos os royalties pra começar! É... Vamos cobrar? Afinal, a gente não quer só comida.
             Pressinto que ainda vou continuar por um bom tempo a ser perseguida pela frase do mestre Tom. Brigo na padaria porque o pão veio queimado, no ônibus porque o errado é o meu dinheiro suado. Brigo com a caixa do mercado que passa as mercadorias como uma máquina metralhadora  e ainda me olha de cara feia porque eu demoro a arrumar as bolsas. Brigo com o banco que cobrou tarifas indevidas. Brigo com o técnico que veio consertar minha máquina de lavar e me esfolou o bolso pra cobrar a rebimboca da parafuseta de todo aparelho mecânico, eletrônico, de pilha ou bateria... Brigo com o vizinho que colocou o carro da sogra na minha vaga de garagem pra fazer média com a jararaca. Brigo com o sujeito que por pouco não me atropela em cima da faixa de pedestre, estando o sinal fechado pra ele. Brigo com o atendente da minha operadora de telefone – e aí “xingo” e grito! Brigo até com o pobre do cachorro que mora no meu prédio, de apartamentos minúsculos e não para de latir no meu ouvido e  nem me dá o retorno... Brigo, brigo, brigo... Uma merda!
            Mas o Brasil tem tantos tons, tantos sons... Agora deu até vontade de assobiar um sambinha pra esquecer essa merda toda. Ah, cada música, cada tempo, cada dia segue com seu ritmo, a sua dissonância... E é bom à beça, vai...


Imagem© Araquém Alcântara

Patrícia Porto

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

“Quem tem poder, que faça bom uso.”

Imagem: Alice Liddell por Lewis Carroll.



            “Até um vira-lata é obedecido quando ocupa um cargo.” Frase célebre de Shakespeare em Rei Lear. Há uma outra não tão célebre, mas não menos polêmica:  “Gosto de crianças (exceto meninos)”, esta de outro escritor inglês muito reconhecido: Charles Lutwidge Dodgson ou simplesmente Lewis Carroll, autor do clássico “Alice no país das maravilhas”. Carroll já adulto não só tinha como melhores amigas “menininhas”, mas também as fotografava com permissão e apoio da própria mãe. Eram tempos vitorianos... Outro tempo, outra moral. Não tenho tanta certeza, mas talvez não tivéssemos hoje por Dodgson ou Caroll a mesma complacência, isso levando em conta a nossa atual visão de mundo. Sem respostas absolutas que não acabem sucumbindo ao fosso da temporalidade, o que importa me parece ilustrar aquilo que do passado vingou: que Caroll foi indiscutivelmente um grande escritor que tratou de nos deixar de legado  seus incômodos narrativos de imagens perturbadoras e visões pra lá de ambíguas que jogam com nossos próprios e indiscretos espelhos. O cenário de sua escrita? Uma terra e uma época profundamente marcadas pela opressão do puritanismo. Caberia então perguntar o que a repressão e a tirania podem fazer de mesquinho com os homens. Frear, coibir ou iluminar sua loucura? Coroar ou cortar suas cabeças?
           Num tempo não tão distante, muitas rainhas e rainhas-mães se revelaram tão insanas e perversas, tão tiranas e sanguinárias quanto os seus próprios reis-pais, acabando com a esperança de que mulheres no poder sempre nos salvariam de guerras atrozes, perseguições vingativas e derramamentos de sangue. Novamente Shakespeare nos aponta a montanha que há por trás do iceberg ou por trás de um desejo oculto e freado. Lady Macbeth, de Shakespeare, tem a força e a gula dos grandes tiranos. Em toda minha incursão literária nunca li tanta crueldade, tanto ímpeto feroz, marcado pelo orgulho do ódio e o delírio da ambição:
“Vinde, espíritos sinistros
Que servis aos desígnios assassinos!
Dessexuai-me, enchei-me, da cabeça
Aos pés, da mais horrível crueldade!”
            Dessexuai-me... Ninguém melhor que Shakespare para traduzir a vontade do poder, ninguém melhor que Freud para interpretá-lo. O desejo cruel de Lady Macbeth, a inveja de Iago, a persuasão de Cássio, a dominação de Petrucchio, o fantasma de um pai, a manipulação da mãe, Hamlet  e a tirania se contrastando com a palidez e a fragilidade de Ofélia, a ninfa no lago. Que morra, por certo.
           Poderíamos nas aulas de literatura falar de muitos “complexidades” do humano e também das nossas tantas fraquezas de caráter, das nossas absurdas pequenezas... Mas quem quer ouvir isso em sã e feliz alienação afortunada? Fiquemos por ora na superfície, na superfície porque não causaremos mal estar. Enfiar o espinho na ferida é para os loucos, os sem juízo, os vadios, os amorais. Não funciona, eu sei. Continuaremos sempre a desejar a morta do lago, a quietude do poço, como o "silêncio dos inocentes".
            Fiquemos na sustentável ignorância do ser e não nA insustentável leveza do ser, belo filme de Philip Kaufman. Como protagonistas, vemos os engajados Juliette Binoche e Daniel Day-Lewis, personificando o casal Tomas e Tereza numa Praga invadida pelos Russos, naquele tal ano de 1968, o ano que não terminou segundo Zuenir Ventura. Baseado na obra de Milan Kundera, o final do filme destroça nossas esperanças de ver aquele final bacaninha, com o casal apaixonado vivendo numa cabana da montanha. E destampa o vulcão para causar fraturas. Tão difícil assumir a ferida narcísica exposta do nosso lado sombrio...    Revelar o asqueroso, o feio,  o estranho, o desumano, o esquizoide – e o finito. Como nos discos vinis, muitos tentam tocar apenas o lado A, aquele com as melhores paradas de sucesso. O lado B, no obscuro permanece, reprimido numa cortina de fumaça como se seguisse a Lei de Murphy, na consequência inevitável  da opressão: caindo para baixo, no baixo, nas baixezas do grotesco, escondido embaixo do tapete da terra, como As Aventuras de Alice Embaixo da Terra, primeiro nome dado ao livro de Carroll.
            E pensando melhor, afinal, não importa tanto distinguir o lado A do B, porque no fundo ou raso, eles estão mesmo misturados, e se o homem não descobre sua dimensão humana e finita, ainda mais sofrimento deixará de herança aos outros do advir, porque deixará de apostar na dimensão misturada de sua natureza primária. Quando olho para a nossa História recente fico pessimista e isso não tem vínculo com a minha visão política de mundo, mas sim com a minha visão humana de mundo. “Para onde caminha a humanidade” depois do Tibete, da faixa de Gaza, depois do Iraque, das ogivas, das sanções, dos milhões que morrem de AIDS num continente imenso esquecido? Não sei. Fico com medo de me tornar um daqueles anões da Branca de Neve, o Zangado, e virar alvo da globalização da informação. Ranzinza, com idiossincrasias irrecuperáveis: toc, síndrome do pânico, TPM, manias de grandeza, rabugenta e boca porca. Se eu me pergunto para onde caminha a minha humanidade?  Pergunto. E não tenho resposta que não seja ficar com a   minha fiel perplexidade.
           No nosso reino da felicidade de araque e de gente tão cordial e conservadora,  se a ficha  da hipocrisia não cair, que tal ficarmos com aquele velho adágio: "Quem tem poder, que faça bom uso"? Esse pode servir...
        No “The End” talvez encontremos a frase de efeito para a contemporaneidade, como Boris Yellnikoff, personagem neurótico e pessimista do filme de Woody Allen. Sim, é possível, “Tudo Pode Dar Certo”.


Patricia Porto

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Prece para o dia em que te conheço e me perco em teus achados.





porque nunca sairei a mesma.
poesia,

que amanhã não se sofra tanto,
que o dia seja tão claro como escuro
e que se perceba dele os contraditórios,
os freios, os enigmas dos afogados.
A natividade explicita de uma tola esperança.
Que o golpe, enfim, sendo de sorte ou azar,
nunca antecipe desfechos. Deixe em aberto...
Aqui se constrói uma casa de versos, se desmorona
a notícia que outrora dizia no rádio. Mas já não há mais rádio.
E nem ouvidos para ouvir.
E que a água, limpa ou suja, seja o tanto faz: bem dizer, mal dizer, escárnio,
que o humano é um som em marcha que escuto do outro lado, o meu lado, o lado de mim
no outro quarto, na voz da sentença do meu exercício do feio.
Já que te ouço em mares de fluidez e me sinto um ser abjeto exijo perdão.
E que o tempo, sim, seja de farto e corte. E que não sobre. O tempo foi feito para o desgaste,
que se gaste o tempo então vivendo de tudo no esparramado, de todos, nos obscenos da alma caleidoscópica.

Proteja então as estrelas que nos protegem da escuridão
e que a cigarra cante, que a cigana dance,
e que o mensageiro se engane
e só leve da vida a solidão que não nos serve nos bolsos pra carregar como armadilhas,
como armas de grossos calibres da pretensa unção da verdade.

Que o velho seja realmente sábio
e o menino o velho mais sábio ainda.
E que caia do céu a chuva, a têmpora feliz dos renascimentos,
como as chuvas de tarde em minha terra de águas.
Terra aos montes pras meninas correrem, deitarem na lama
como nos bons dias da minha infância.
Ah, e que nunca nos falte o alimento do sonho, a larva da palavra,
o susto da arte: o riso, a risada, a vida solta, correndo, atravessando oceanos
a gargalhada. Sonora.

Amém


Patrícia Porto

Do charco.

Imagem© J. Guall
Meu amor disse:
“do charco nasce a flor”.
Charco, meu amor,
chagas do meu corpo doce,
flor violeta do meu sexo bruto,
como da brutalidade nasce o mel
e das violentas sedes da minha alma
nasce o escuro, em poças,
assim como do fim nasce o início,
como das bocas nascem e caem os dentes,
como da vida nasce a mente, a morte
e do tempo nasce o futuro que nos corta
ao meio
a nossa flor idade.

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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