sábado, 10 de novembro de 2012

Meus tios e o Riba Mar.

Imagem© Araquém Alcântara, A geografia das águas.


(para meus dois tios de nome "José (de) Ribamar",
filhos de Dona Mundica, meus primeiros poetas e amigos)   

O Vento me soprou!

E eu ouvi:
eram nos aguapés
passarinhos cantadores,
contadores dos tempos de Príamo.

Por isso meus tios são de Riba Mar,
porque engoliram o Mar e a sereia
para que no encantado da ilha -
a fé sempre viesse de frente.

O barqueiro disse:
O mundo é o tempo! É Gira!
Mas o tempo pode ser verso ou serpente.
Pode levar na rede peixe, homem, sermão
- a Jaçanã
- moeda infinita, aranha de tecido,
fio onde tudo que desvira é
Sonho, poesia, assombração...

Patricia Porto

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Gota Serena.


Imagem© E.E. McCollum. 


Aquele amor secou minha água,
secou minhas horas vazias de sussurros -
Soluços no espelho... um Eco.
O amor secou a terra que eu havia molhado
e o plantio estampou a escassez de minhas recentes palavras -
silêncios de uma cidade em fantasma...
O amor secou meu tempo feito a flor arrancada,
desagasalhada de pé, lançada ao esmagamento feroz
de uma carta...
O amor secou meu copo cheio de tempestade,
secou-me o hálito, os lábios, uma gastura...
E tantas, tantas foram as saudades de mim...
Já nem sei de quando.

Patrícia Porto



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Tua pele na minha.

Imagem© Hanson Kim
 L'avenir nous tourmente et le passè nous retient.
 Voilà pourquoi le present nous èchappe. 
Flaubert
Tua mão na minha palma
na tua alma abraçada cigana.
Tua pele é o fogo-deus,

abastecido de gente.
Meu oceano na tua fronha:
uma frota de manás. 
Com os meus dedos de dentro
cruzo dentro, por dentro dos teus dias.
Vou te correndo, te descobrindo
por meios afins e fins ilegítimos.
L'avenir nous tourmente...
Porque a via na tua reta é curva,
é láctea,  deixa minha noite adulta:
segura para fazer chá de hortelã
e beber soro de blues.
Minha fonte está no tato,
tua sede acabada
desnuda os meus seios de ontem.
Le passè nous retient...
Minha língua?
É que me veste
de coberta o escarlate.
Minha cobertura é de lua,
mas tua pele na minha transa
deixa minha cuca em sana.
Toda noite na tua febre,
todo dia vou vadia,
toda vida na tua arde,
toda minha sorte é sim,
é dorso, alimento de bico,
toda bossa é nossa prosa
e se minha nuca pela
- tua pele nua mina. brota.
Voilà pourquoi le present nous èchappe. 


Patricia Porto

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Móbiles.

Imagem© Mario Sanchez Nevado


Todo movimento
sem movimento
Não-movimento?
Inércia?

Toda música
sem som
Nenhuma música?
Silêncio?

Todo corpo

Muitos mistérios?
Enigma?

Toda alma
em-si
Eterna
nua
no Es pa ço
Existe?

e nessinstante 
 há tempo?

Patrícia Porto

domingo, 4 de novembro de 2012

infâncias em terras de açúcar e sal...

Imagem© Sally Mann.

Quando eu era criança havia uma chuva fina
que gotejava no meu quarto de dormir.
Pingava translúcidos sobre minha rede
que também era cabana e esconderijo.
Lá eu me vestia de chambre de passarinho,
brincava de gotejar com a chuva as mãos.
Porque nessa infância a gente brincava de ser ilha e natureza.
Vó sabia o tempo certo de cada coisa. Vô, se perdia todo no tempo escorrido.
Vó caçava tarefa. Vô fazia brinquedo de galhos.
Vó era a força. Vô, a expansão.
Vó, sabedoria. Vô, a pa-ciência...
Vó então ralhava: _tem que arrumar a telha, Mário!
Vô fingia de bobo: _amanhã já vejo!
Depois piscava de um olho pra mim e me dava um pedaço de pão ou maçã.
Crianças são sempre passarinhos.
Eu era um daqueles de asa quebrada
e boca e olhos grandes abertos pro mundo. Sempre com fome de tudo.
Mas vô e vó cuidavam de mim
com a delicadeza e a doçura dos que se encontram perto
demais de atravessar um jardim, um bosque, uma floresta inteira.
Não havia nada mais saboroso que aquela velhice de criança.
Vô e vó eram meninos que voltavam pra casa
cheios de infâncias,
com sorrisos largos e histórias de lugares estrangeiros.
Por isso nunca sarei do mal da asa quebrada
e quando sinto a chuva me ponho aninhada a gotejar saudades.

Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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