quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Um Vestido de Festa.


Imagem© Jordi Gual

Pelas viagens que nunca fizemos juntos
um sorriso,
Souvenir de porcelana da Índia.
num trem que te leva a Bangladesh.
Para os dias que não viveremos juntos.
Pelos sonhos que deitaremos fora
na estrada, fronteira entre almas
que se querem amigas, irmanadas,
mas que se sabem melhor na distância,
separadas, esquecidas.
Para os dias de comunhão,
por todos os santos dos dias,
um cartão postal da China.
E no verão que vai despontar em sol,
cartas de ninguém para ninguém,
misérias humanas tão bem partilhadas...
Nenhum silêncio de degelo,
nenhuma vertigem brusca.
Um bibelô do Vietnã,
uma prece do Tibet.
Uma  foto de torre ou castelo,
uma notícia do mar,
um segredo engarrafado,
bebido em silêncio póstumo e discreto.
Por todos os anos que não saberemos juntos,
um post, uma mudança de status,
um vaso quebrado,
uma foto de Paris iluminada.
Um desejo cão de morte,
um assobio último, baixo,
um gole de vinho amargo
e versos estilhaçados compondo o chão.

Patrícia Porto 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Poeta, a Palavra e a Vertigem da Esquina.


Imagem: Sally Mann



na fase aguda da palavra

agudos acordam
os acordes da voz
- e revelam vestígios esquecidos
de sonoros mundos -
e de dentro, da dor,
se ouve o desejo
que amplifica todo duplo que há em si.

na trama, a roca fia a lira
e toca as perdas do advir
feito faca cortante
um tanto cega de corte.
Corta a vida em partes
sem definhar o amor.

dores doentias fitam-lhe
cara a cara, salto a queda,
pétalas caiem sobre
o corpo doce
da palavra po-ética.
agora pele, desnudada,
vive de espanto e existir:
a espantada.

e os dois agora, mergulhados,
vão ancorados um no corpo do outro:
poeta e palavra
- abrigam o dia da mesma criação...
e toda voz suspira: sou frágil...

de longe se pode ouvir
da palavra: viagem ou miragem,
o abandono de toda forma de estrutura.

transbordados sobre a cheia
que limpa e batiza a balada lírica
dos andantes sobre a terra,
dois andantes sobre a água,
cúmplices professam: sim, loucos!
Pois. Deságuas em mim.


Patrícia Porto

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A imagem do largo e o retorno do estreito.

Imagem@ Cravo Neto.


De tão ausente dos meus olhos andei mesmo a envidraçar paisagens.
Joguei flores aos não-gentis
e dei por sussurrar palavras à lua,
fiel em minhas mendicâncias.
Sou desastrada e me perco em obscenidades esdrúxulas.
Desastrando o andamento desse carrossel
ando em círculos e por desvio sou capaz de mascar
da demora o fumo bom da tolice.
Sou tolamente humana -
esperando atenções, olhares,
acenando e sorrindo para desconhecidos, todos.
Quase uma histeria
que cedida ao retorno do olhar,
numa tal existência prévia-
vai secando a imagem dura das retinas, pobrezinhas,
minhas meninas assobradas,
nessas rotas e ilusões de cegar e não-cegar.

Patrícia Porto


Para os tempos que curam.

French Packing Tape_La Vie En Rose

Pétala a pétala
Desnuda-se o amor.
Bem-me-quer...
Mal...
Não. Nada de mal.
Eu só desejo o bem-me-quer...
o Quem-me-quer.

Pardon.

..................


Patricia Porto

sábado, 20 de outubro de 2012

Sobre poetas e jardins.


Imagem@ Henri Cartier Bresson.


Nas asas de  um adão.
Que costela nada... Asas!
As asas da criatura,
nos campos do criador,
trazem em si
a incômoda inquietude
de Artear o novo fogo.
Há de arder assim na pessoa água-viva.
Já o silêncio os reclusa, o necessário...
já aquele algo da alma não inócua os enfurece e os tece nova voz
ou os abranda o tempo da solidão uma qualquer brisa de verso:
fazer poemas é reconhecer em si uma vida que sempre morre
 antes de qualquer mero definitivo.
Pra ver nascer.

Patricia Porto

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Fabricações

Imagem@ Duy Huynh, "turning leaves".

O tempo me sangrou os pés,
mas do pó do tempo eu fiz
esses novos ossos de fabricar brinquedos.
Veja aqui: do tempo da judiação
fiz essa oração de punição,
feito ladainha de voz...
Pra chover mais na terra seca,
na seca terra da existência,
na seca terra das horas magras,
na seca terra, terra de gente feito nó,
eu fiz esse pássaro de papel!
E pra chover forte de ventania,
de vento vasto de ventania
que encobre o olhar: um corte!
Porque no tempo da minha infância
o afago era da pedra e a faca, branca nuvem.
Daí esse rasgo grande no peito do herói:
um desenho sem surpresas.  
Na sua morte agendada uma poeira lenta
foi maquinando os instrumentos,
dedilhando os orifícios
dos horológios
a poer a toalha da mesa, o pão,
uma lágrima de um olho caindo, sôfrega,
o som do abafado sem qualquer,
qualquer rumor de amor na algibeira...

Patrícia Porto
   

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

minha língua ameaçada.


Imagem@ Moment of Noise_low, Duy  Huynh.


O silêncio só é mudo
quando não estamos à procura
das palavras de dentro o feito.
E o nosso problema
não é tanto com as palavras feitas
- é com os sons dos teus ouvidos
que não entendem as pausas
de memórias arabescas
cada vez mais tristes e longas
na interrupção das notas.
Enquanto ainda respiro no quieto
o mesmo ar, a mesma música que tu-
- somente tu ostentas em teus quartos de censura
a minha língua pro jantar.

Patricia Porto

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Como nascem os poemas? E os elefantes?

Imagem@ Duy Huynh
"Far from home, elephant gun
Let's take them down one by one
We'll lay it down, it's not been found, it's not around"

 (para Alice)

Os poemas nascem dos olhos
e voam no malabarismo de um beija-flor verde.
Nascem da maçã,
do cheiro de café com chocolate que invadiu a casa...
Nascem até das coisas minúsculas, de um botão solitário
ou se um aroma memorial traz família,
sossego, formigamento.

Os poemas nascem dos olhos dos filhos
e do desejo de amar para sempre
aquela mesma intensa pessoa
que me olhou um sereno.

Sim, direi que os poemas nascem do desespero,
nascem das noites de morte e ventania no coração,
do absurdo e do medo, da dor, da doença,
da vastidão e do incenso,
do pavio e do aceso.

Há também poemas conta-gotas,
que nascem na escuta de uma bela canção
como essa de Beirut
que fala sobre a morte dos elefantes
e de um tipo de armamento que derruba grandes espécies.

E o poema nasceu da natureza de Alice
que me deu Beirut de presente.
Realidade se gasta, utopia não, se espelha,
e quer se pôr sem fim trágico 
assim como as grandes espécies.


Patrícia Porto


Imagem@ Duy Huynh


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Olhos de tapeçaria.


Imagem@ Duy Huynh
Estou a viver de teus sinais,
da melancolia dos retratos daquele setembro
de amor inusitado.
As fotografias, eu as guardei do teu rosto,
gravando tuas impressões dentro do
riscado, do rascunho da festa
que eu não pude ir, apenas soube.
Olho-te e sigo-te então com minhas
pequenas mortes antecipadas.
Cubro-te de sorrisos sem te ver,
sinto a tua boca tão perto,
quase um desespero quente
em meu pescoço.
Ouço tua voz e a repito em sons
e ritmos de alquimias internas,
penso o teu presente,
sigo tuas noticias engolindo silêncios.
Testemunha de um amor não acontecido,
mas há séculos esperado,
desejo teu regresso ao longe
nos calados dos barcos serenando no mar.
Podes me ver?
Podes me crer?
Colho teus vestígios em mistério anunciado,
selo minha vontade de dizer “te amo...”
e vou de escotilha enferrujada a fim de não abrir segredos.
Com os meus dedos caindo em sal, confidenciados,
sou toda angustia em palavras escritas
nos subterrâneos da terra da minha linguagem.
Meus seios dormem e te aguardam.
Meus cabelos envelhecem sozinhos.
Visto a capa de proteção
contra a vigência da espera,
durmo te trazendo em sonhos,
compondo em tramas a alegria da tua volta.
Vou ninando a vida sem pressa,
abraçando o vulto da tua estada,
acarinhando o teu rosto de mãos.
Depois, quem sabe, um dia de futuros,
meus braços longos de despedidas
tragam ao teu fruto flores, velhices minhas,
nova infância do amor no tecido que setembro.


Patrícia Porto

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Para aprender oboé.

On désire être compris, parce qu'on désire être aimé, 
et on désire être aimé parce qu'on aime.
Marcel Proust
o medo é o vazio
e vazia é a alma
onde um Deus mora
acolhendo o desprovido.

Sombras e cavernas
não são insignificantes.
Medos não são insignificantes.

Quando virão lavar meus pés? Eu pergunto, pergunto...
Em que rio deixarei que floresça
a nova espécie de pessoa a nascer de mim?
Se a tua marca de nascença é o abandono,
quem, porventura, não te abandonará na primeira rua ou tempestade?

Abraça teu abandono. Uma relíquia que te deixaram de herança.
Pois sim. Faz florescer do teu medo a tua paz,
e entra no vazio desse Deus: em silêncio,
Vazio...................................................



Patricia Porto

Imagem@ Mila Kucher.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

terra de irmãos...


Imagem@ Ricardo Funari


a terra é nossa,
nossos são os novos trigos, 
o sol se pondo de amor, uma muralha...

a luta: nossos dedos revolvendo
o barro de veia expressa, é cria.
a noite sim, a sua, a vossa
são vadias de vadios cães...

por que avenidas e sangrias
não desfilariam ares de rei ou rainha?

a vossa cama é soberba
asfaltos, feitos de tortos remendos,
restos de nossos sonhos
dejetados no umbral de vossa porta...

o sal do choro é nosso, 
o tempo: remédio placebo
batendo na hora sempre
a errada, é sobra de cidadela. De graça.

(a louca que em nós pariu um país não sabe fugir. Finge esquecer.)

o tempo da guerra é vosso
com nome e sobrenome:
a casa de land.
a vossa gana gasta o chão em sangue pardo.

Quem limpa os dedos do tempo? As digitais?
Quem paga o preço? A pólvora?
A conta? E o pato?
Quem come o pato?

sois vós, nesta terra de irmãos?

não são vossos os nossos sóis,
pois nossa é a pátria, o sumo de outra esfera,
a resistência em som de acalantos;
nossa vingança: alegria...

Patrícia Porto