terça-feira, 31 de julho de 2012

No íntimo da palavra: as quietudes...


Imagem@ Sarolta Ban.
Porque a preciso
eis que diante do turvo
investigo os meus sentimentos,
meus escombros, minha natureza.
Sou pessoa de poucas e muitas palavras.
Debruço-me então sobre o alpendre dos porosos
dos versos esquecidos pela poeira da má lembrança.
Que ousadia! Que má ideia!
E assim no íntimo esquizo da palavra
ou no sopro absoluto que faltou ao silêncio
- aconselho-me com a espera.
Peço perdão às excluídas.
Sou pessoa de gestos medidos,
mas sei que hei de sujar a beleza do verso
se nele nada houver da minha estranheza.
Não darei pontapés nas palavras,
mas usarei do uso o vulgar
e o que for mito da sua verdade.
Do contrário também usarei palavras engraçadinhas,
farei cócegas nas cansadas do gasto:
na barriga de uma, no pé de outra.
Fincarei meus olhos nelas,
tranquilas de minha vida,
palavras refletidas, aqui e ali,
murmurando futuros incertos:
- Viverão sem mim, livres. Ostentando intimidades.
Eu não. Sem pesar a surpresa, sou-presa, 
uma ilha, nunca sem elas.

Patrícia Porto

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Depura a seda.

Museu da Língua Portuguesa.

Ser escriba é vestir vertigens
Feito virgens velhas
Feito vidas de
pronta e entrega
Com seus casaquinhos de lã.

Ser escriba é ser o santo e a puta
Dizem: “ah, mal não faz comê-la!”
          E me engulo na escrita: sou seu prato feito.
É tarde, eu sei, mas
E se a garoa cai
Nada mal então recebê-la.

Ser da escrita é
vestir viagens
E ao final do dia descobrir-se a intacta
por ter tido a chance de merecê-la.

Aquecer seus pesinhos...
A escrita a antigar, a secular o que nos
habita com seus tantos sinais
Com seus casaquinhos de lã: um nov elho.

Ser da escrita um poema.
          Como palavras em grossas camadas. Como sempre.

          Patrícia Porto

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Atravessando a rua em silêncio.

Imagem@ Henri Cartier-Bresson.
                                                     

(Para um passarinho.)

                 Tem uma frase do Bartolomeu Campos de Queirós que, embora curta, é precisa, poética e carrega múltiplos significados, estes que delicadamente afligem as paredes sólidas daquele lugar que chamamos semântica ou de busca de sentidos para as palavras da nossa (língua)gem. Costumo usar a frase de Bartolomeu como a pílula do doutor Caramujo quando, não por acaso, sinto que devo sair da impotência, da letargia, lugar tão conhecido por nós, seres humanos modernos, que vivem como um dilema a nossa conturbada e frenética contemporaneidade - ou seria com-tempo-em-ansiedade? Disse Bartolomeu que tudo passa, que "até passarinho passa". Lembro então que quando descobri que estava doente já há muitos anos, Ana, uma grande amiga, escreveu esta frase num bilhetinho e me deu de presente com um livro também de Bartolomeu, já que éramos as duas suas fãs incondicionais. O livro “Para criar passarinho” passou a fazer parte de minha mesa de cabeceira e foi assim durante um longo percurso de avanços, retrocessos e reincidências. O livro de Bartolomeu foi tão medicamento quanto os outros e tão eficiente quanto os outros. E gosto cada vez mais de pousar os olhos sobre um trecho que fala assim:
           "Para bem criar passarinho é necessário ter corpo capaz de escutar o silêncio das pedras, o som do vento nas folhas, o ruído de soluços preso em garganta. Isso se alcança afinando bem os sentidos, para perceber sopros de flauta, cordas de harpa e murmúrios das perguntas e lembranças."
           Parece que uma boa definição para a morte foi encontrada por Manuel Bandeira: sim, “o maior de todos os milagres”, o último dos milagres, ele que viveu sempre entre fantasmas de lembranças. E os que já passaram pela tangência da morte, talvez tenham realmente aprendido o incrível e enigmático valor da vida. Porque somente a presença contumaz, a presença física da morte nos faz criar deslocamentos antes inimagináveis. A ameaça da última parca a nos cortar o tecido faz aguçar nossos mais íntimos sentidos. Os sons da música dos passarinhos e a busca da diferenciação entre seus cantos é uma nova aprendizagem sobre sons e notas. Os odores do mundo aparecem - e agora não mais atenuados por nossa displicência olfativa, as texturas das palavras nos chegam com o eco de vozes, o pôr do sol de tantos tons abrandam o que é noite, as crianças fazendo algazarra no faz sorrir assim como a gargalhada sonora de uma menina que atravessa o espelho... E nos perguntamos atônitos: por que esperar a ameaça do fim para aprender a experimentar todos esses pequenos delírios - quase "delitos" da vida?
         Dizem que quase todas as pessoas quando são diagnosticadas com doenças de difícil tratamento tendem naturalmente a negar aquela primeira condição e se perguntam: “por que comigo?” “por que agora?" São invadidas de sentimentos paradoxais, por um lado, superioridade e onipotência; por outro, fragilidade e frustração. E depois, dizem que nos passos seguintes, há revolta e por fim, chega o dia da conformação. Ainda assim nenhuma dessas etapas poderá ser medida como mais ou menos dolorosa. E todas – acreditem – nos fazem ver o mundo. Simplesmente isso: ver o mundo. E ver o mundo tem muito do ver a vida de mais perto, ver dos seres o imperceptível ao olho nu. Porque estamos diante de outra nudez, a maior de todas: a nudez da nossa própria alma.
           E qualquer que seja a via crúcis, ela nos ensina ainda mais sobre paciência, tolerância e humildade. Ser simples. Afinal assim chegamos ao mundo e assim partiremos dele. Não levaremos nada em nossos bolsos. Não carregaremos para nossos túmulos: riquezas, jóias, patrimônios, títulos, plateias... Estaremos sozinhos - de novo... Seremos simples. Perceberemos talvez e então que nada pode ser mais estúpido e violento que a intolerância, o desprezo e a prepotência. É diante do sofrimento que nosso corpo carnal torna-se então capaz de escutar o silêncio das pedras. Ele, suas marcas e cicatrizes serão o símbolo maior da nossa profunda humanização. E é ele que nos une ao que transcende. A alma é um todo que só percebemos diante de uma das mais úteis conscientizações terrenas: somos finitos. Perfeitamente únicos e finitos.
            E a cura é também um milagre, mas não porque nos deixa “prontos pra outra”, mas porque nada será como antes depois dela. E ela se repetirá mais de trezentas vezes ao ano, mostrando-nos o quanto somos mortais. Ela nos ensinará a olhar o outro - de dentro de nós - com mais compaixão, nos libertando de raivas e ressentimentos que porventura venham nos assolar. E ela nos ensinará a perdoar aqueles que nos trazem mágoas indevidas, aqueles que tentam diminuir o nosso valor, desprezando nossa humanidade e nosso potencial maior: a própria vida.
            Um rio sem água não é um rio, um corpo sem alma não é humano. O fundo do rio não é o rio – é o fundo e até no fundo há movimento, há a vida do rio, a identidade do rio, o nome do rio, o nome do rio está na água que corre – está na correnteza. A vida do rio é o profundo, do fundo para superfície e da superfície para o fundo, recriando-se para o deleite das margens.
        Por isso eu sigo acreditando num mundo de justiça, amor e bondade onde o ser humano seja a resposta, enfim, para uma questão tão gasta: “onde vamos chegar?” Posso intuir que não estaremos sozinhos na hora que preciso for atravessar a rua em silêncio. Alguém sempre poderá olhar nosso rosto, segurar nossa mão...

Patrícia Porto

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os ventos da passagem.



Vou escrevendo
no lugar do amor as nódoas,
selecionando reticências,
às vezes abreviando as horas em hi-atos quase perfeitos.
Se me dessem novamente a chance de nascer,
certamente eu voltaria em forma de onda
ou vento
sem mais véus entre mim e o sagrado futuro
das quedas.

Seria então a verdade refluxa nos mares,
desceria os montes para
as águas pacíficas,
os mares de Açores,
mares mediterrâneos,
mares de trânsito em São Mateus
um porto insólito...

E seria do vento a voz
a correr sem ordem,
a dar de comer 
o corpo da vida
pelos corredores frios
das cidades acesas .

E vento e mar
ao me sentir, enfim, o chegado estrangeiro
perceberia ele então minha mensagem
E ao me adentrar
perceberia ele então minha miragem
E ao me deixar
ou molhar as pontas visíveis
ou o invisível do mergulho
ou me calar
– e me colocar sempre muda –
nas pedras – quiçá -
de tão estranhos enigmas,
eu me quebrando,
quebrando toda na areia
...
perceberia então o encanto do vosso silêncio
e a candura da vossa passagem
sentindo a fundo a solidão comungada dos pássaros.

Assim quebrante
de alma e viagem
lá onde reina
a vossa insemelhante beleza,
vosso amor de encarnados
de naturezas,
eu, vento e mar, onda e areia,
tomada do corpo estrangeiro
diria:

só lamento a incompletude
na inabilidade de criar-vos, meu próprio Deus.

Patrícia Porto


segunda-feira, 9 de julho de 2012

A moça, a bandeira e o cão.

Imagem@ Cravo Neto.


        Nem notara que passava diante de um prédio, onde uma cerimônia de hasteamento da bandeira se realizava. Para ela, não havia a calçada quando o horizonte do hino elevava-lhe o espírito. Afinal, crescera com o progresso a balançar-lhe o coração com o ar de seu próprio sangue. Calçadas para ela eram para serem estilhaçadas com pedras portuguesas, para que seus pés forrados com o melhor couro alemão fizessem dos danos de seus algozes um batuque refinado em plena orla de Copacabana.
        Enquanto no mastro a bandeira tremulava ao vento, seus cabelos soltos flutuavam luz entre fios manchados em colorido, sacudindo-lhe a imaginação. Então, entrelaçados a imaginação e os fios de algodão, o tecido leve da bandeira despejava ouro como folhas de outono numa bateia em forma de redemoinho. Girava-a ao ar, garimpando na luz uma ilusão repetitiva. Despejava-a em forma de filete na calçada quente, onde se desfazia entre pedras pretas e brancas em direção à Avenida Atlântida. O mar e o concreto e a velocidade a acolhiam como se ela fosse uma forma inserida nas pedras. Mas, satisfazer-se no recapeamento do asfalto, tornaria aquela Avenida um mero colar banhado de luzes na garganta de uma vitrine da Zona Sul.
             Na verdade, ela queria mesmo era a grandiosidade dos anos setenta, se revelando nas obras decadentes. Desejava que naquelas tolas estátuas o fomento de sua geração fizesse crescer a vida recuperada de sua jornada pela tortura esquecida dos maravilhosos anos setenta. Desejava que outras cores vivas vestissem sua bandeira imaginária, de forma que a cada batida de seu sapato de legítimo couro alemão fizesse surgir ali, ao seu lado, escombros do muro invisível que separava os anos de sua juventude dos anos de sua recente inquietude. Destroços de seu muro, pedras portuguesas, batidas absurdamente ouvidas em alto som, batidas de seus passos largos sobre o cimento da modernidade, seguindo-a, farejando-a como um pastor também estrangeiro. Poderia senti-lo roçar sua perna, roçar o seu pulso, encostando o focinho ao bracelete que carregava um farpado de espinhos, cravejado de arranha-céus. 

Patrícia Porto

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Viagem estrangeira: olhando com Sebastião Salgado.


Imagem de Sebastião Salgado.
"Outras Américas" - Primeira Comunhão em Juazeiro do Norte, 1981


Olhos do Céu.
Alegria: um revoar de passarinhos que juntos, em sincronia, margeiam árvores que fazem sombra para um revoar de criancinhas.
Vida: uma invenção.
Passarinhos: substantivo e plural, um coletivo de asas.
Crianças: plural de passarinho.


AlgUmas Palavras sobre o poemeto

                        Em 1981 eu tinha onze anos e também fiz comunhão.
                        Aqueles que me conhecem sabem o quanto amo a arte da fotografia e que também sou uma perseguidora de imagens ou talvez uma pessoa perseguida por elas. Por muitas vezes foram as imagens de fora, na expressão do mundo e do cotidiano, que me levaram à poesia e por outras vezes foram outras, as imagens de dentro exorcizadas, que me levaram a um percurso contrário, indo buscar as mais diversas, talvez inusitadas, parcerias entre imagens e palavras. Por isso mesmo não consigo esquecer a primeira vez que me vi diante das fotografias-militantes, das imagens engajadas de Sebastião Salgado. Tanta força e delicadeza através de lentes, possibilidades e intensidades de olhar o outro na sua legítima força de expressão e cultura... Tanta plasticidade em preto e branco, tanta luz e sombra, tantas aberturas. Um passeio, um zoom na alma humana, nas suas raízes, nas suas dores, nos seus fazeres. Tantos modos de ser e tanta fartura de olhar. Fiquei extasiada e tive o ingênuo e instantâneo frenesi de escrever um poema para uma imagem dele, uma imagem de uma criança de olhos imensos e tristes. Tão tristes que eu chorei.  Não sei ainda explicar o que senti e sinto, mas se lembro da imagem me vem de inicio um redemoinho de emoções que encharcava e encharca ainda os olhos, acho que é porque eu sou gente e gente vê de dentro por dentro do dentro o mundo de outra gente. E isso não é piegas, piegas é enjaular-se num pretenso saber que enrijece o corpo como doença degenerativa e cala a alma e suas muitas linguagens. Então, eu que sou gente como tanta gente, posso ver e olhar a criança que eu fui e as crianças que fizeram a minha história de educadora, como se habitassem no mesmo túnel do tempo os olhos e a cegueira, como se fossem a íris e a pupila uma mandala a afastar e aproximar quem fomos e somos num eterno jogo.
                   Ao olhar a imagem daquela criança, justamente naquela hora de dizer o que eu pensava sentir, a escrita tornou-se uma ação ingênua e inútil. Uma excelente oportunidade de frustração. Porque quem escreve sabe disso. Vive-se muito mais dias de frustrações. E percebi que nada pensado no escrito seria suficiente. Nenhum registro em palavras faria jus àquela forma tão desestabilizadora de olhar e principalmente - sentir - o homem na sua narrativa cultural. Insisto - "narrativa". Confesso que, naquela inquietude, queria mergulhar naquele olhar de Sebastião, o que logo me fez desistir de escrever com o pensamento. Faltava a mim maturidade e sabedoria, esse terceiro andar e olho da consciência para além do conhecer e informar. Faltava sentir. Lembro então de Eduardo Galeano no Livro dos Abraços e do texto que falava de um menino que não conhecia o mar. Diz a história do mestre:
                    "Diego não conhecia o mar. (...) Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
                   E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!"
                 Eu, assim como Diego, fiquei miúda e muda de beleza. Mas, ensimesmada na minha adultice, não pedi a ninguém: "— Me ajuda a olhar! Me ajuda a olhar!" Somente muito tempo depois, eu aprendi a pedir ajuda. “"— Me ensina! Me educa! Me ajuda a olhar!" E um dia, entrando num transe imagético, reencontrei parte desse pedido e parte da minha própria narrativa. Entre lembranças e esquecimentos necessários, uma reminiscência bateu em mim e, como diziam os antigos, pegou-me “de chofre”. Lembrei das cenas e imagens da minha primeira comunhão e de uma foto que era para mim assustadora e que foi perdida para o tempo, por excessos de mudanças e desastres. Acredito que ela tenha sido engolida por aquele velho baú-buraco-negro do espaço das memórias onde vagam perdidas as fotos depois das separações e também as meias que ficam sem par e os guarda-chuvas. Devo confessar que aquela fotografia me assustava um tanto, eu vestida de anjo sem nem ter morrido ainda. Tadinha. Vovó me acalmava dizendo coisas como: “as crianças são os olhos de Deus. Por isso as crianças são anjos e por isso os anjos moram com Deus.” Hoje eu lembro e acho tudo isso lindo e incrivelmente poético. Mas na época, quando eu tinha mais medo e distância da morte, aquela história de ir morar com Deus não me agradava em nada. Lembro de dizer naquela fluidez de fala de criança: "Mas vó, eu ainda prefiro morar com você...” E foi cosendo esses retalhos de memórias, essas viagens desse olhar estrangeiro, que eu perseguia uma imagem que comungasse com a minha reunião de sentidos. E então a encontrei. E reencontrei os olhos de Sebastião Salgado que é para mim, e definitivamente, a melhor tradução imagética para os versos de um outro olhador de almas, o poeta Bartolomeu Campos Queirós:

Quando olhamos
nós acordamos alegrias, tristezas,
saudades, amores, lembranças,
que dormem em nossos corações

Os olhos têm raízes pelo corpo inteiro.
............................................................

Olhos: Sebastião Salgado
Olhos: Eduardo Galeano
Olhos: Bartolomeu Campos Queirós
Viagem: Patricia Porto

segunda-feira, 2 de julho de 2012

enquanto a terra durar...



quando a folha seca da terra chegou,
a menina acordou em seu quarto de brincar raízes,
mas já não haviam paredes nem pertences,
nenhuma dor lhe atravessava do atalho - ao gatilho do mundo.
Os olhos viajando para o céu onde diziam morar anjos se esquivavam do saber.
Esvaziados sótão e porão da velha estrutura, a menina era ela mesma o esplêndido brincando com suas horas desertas, seus brinquedos de existir.
Amigos imaginários caminhavam entre as árvores, limpando a vista,
flutuando entre os escassos de seus dedos, transitam onde gotas gentis cintilavam.    

Do lago emerge o fundo da face daqueles que lhe deram a superfície.
Nas trincas do solo, a floresta - que a alimenta de vida - traz também os nomes dos que ficaram na guerra.
Há medalhas sim, pois podaram para fazer crescer.
Mamãe, onde você está?
Na busca do que transcende a viagem do olhar: há bonecas e flores de lótus.
Papai, por que você não voltou?

Levaram o seu quarto e lavaram seus cabelos entre claros e escuros.
Entre os remendos de seu tempo de achados
enlaça com seus braços a última lua de salvação,
pois a noite é segura e não há luzes nem pessoas artificiais.
Abastece de origens e  baobás seus velhos jogos de Infância.
O pai e a mãe na porta que se lacra é um feixe e a chuva é cinza.  Parecem protegidos nos porta-retratos de dormir. Um beijo de boa-noite sela suas chances de encontrar...
E passos sobem os degraus a destruir reminiscências...
No topo da escada um aviso e o vazio dizem: não entre!
Aqui sobram medalhas de feitos de guerras,
e o tempo-espantalho assombra a cadeia de balanço.
Na parede em solidão a cortiça de imagens de seus olhos
veem o pó no desbotado, esfarelando em suas mãos a gravidade – a rochosa – o solo  desgastado de prover.

As manhãs onde ela desenha agora andam em círculos
e constroem de sombras sua sentença, seu direito, seu destino: o etéreo do olhar.
Ninguém voltará da guerra. Dizem...
Todos se foram para o dentro do lago de suas longas memórias!
Todos contam, sussurram, narram feitos heroicos.
E ela está só, só em si mesma, só em explosões de cores e sentidos,
ela está a revolver a terra, a revolver o rapto de sua jornada pela criança que no instante,  pelo decreto do afasto, se ausenta para viver pavios e verdades fabricadas.
Ela está só no seu mundo de girar e o tempo é a pedra da Terra. Tanto bate!...
Do carrossel uma peça, um estilhaço de Marte,
um pedaço de lembrar os dias de brinquedo, os ecos de brinquedo, os sonhos de brinquedo,
os verdes de brinquedo, as estações... É velha a construção que vem rompendo...
No vento do norte o eco:
                                        “papai e mamãe não vão voltar...
                                          papai e mamãe não vão voltar...”