quinta-feira, 5 de julho de 2012

Viagem estrangeira: olhando com Sebastião Salgado.


Imagem de Sebastião Salgado.
"Outras Américas" - Primeira Comunhão em Juazeiro do Norte, 1981


Olhos do Céu.
Alegria: um revoar de passarinhos que juntos, em sincronia, margeiam árvores que fazem sombra para um revoar de criancinhas.
Vida: uma invenção.
Passarinhos: substantivo e plural, um coletivo de asas.
Crianças: plural de passarinho.


AlgUmas Palavras sobre o poemeto

                        Em 1981 eu tinha onze anos e também fiz comunhão.
                        Aqueles que me conhecem sabem o quanto amo a arte da fotografia e que também sou uma perseguidora de imagens ou talvez uma pessoa perseguida por elas. Por muitas vezes foram as imagens de fora, na expressão do mundo e do cotidiano, que me levaram à poesia e por outras vezes foram outras, as imagens de dentro exorcizadas, que me levaram a um percurso contrário, indo buscar as mais diversas, talvez inusitadas, parcerias entre imagens e palavras. Por isso mesmo não consigo esquecer a primeira vez que me vi diante das fotografias-militantes, das imagens engajadas de Sebastião Salgado. Tanta força e delicadeza através de lentes, possibilidades e intensidades de olhar o outro na sua legítima força de expressão e cultura... Tanta plasticidade em preto e branco, tanta luz e sombra, tantas aberturas. Um passeio, um zoom na alma humana, nas suas raízes, nas suas dores, nos seus fazeres. Tantos modos de ser e tanta fartura de olhar. Fiquei extasiada e tive o ingênuo e instantâneo frenesi de escrever um poema para uma imagem dele, uma imagem de uma criança de olhos imensos e tristes. Tão tristes que eu chorei.  Não sei ainda explicar o que senti e sinto, mas se lembro da imagem me vem de inicio um redemoinho de emoções que encharcava e encharca ainda os olhos, acho que é porque eu sou gente e gente vê de dentro por dentro do dentro o mundo de outra gente. E isso não é piegas, piegas é enjaular-se num pretenso saber que enrijece o corpo como doença degenerativa e cala a alma e suas muitas linguagens. Então, eu que sou gente como tanta gente, posso ver e olhar a criança que eu fui e as crianças que fizeram a minha história de educadora, como se habitassem no mesmo túnel do tempo os olhos e a cegueira, como se fossem a íris e a pupila uma mandala a afastar e aproximar quem fomos e somos num eterno jogo.
                   Ao olhar a imagem daquela criança, justamente naquela hora de dizer o que eu pensava sentir, a escrita tornou-se uma ação ingênua e inútil. Uma excelente oportunidade de frustração. Porque quem escreve sabe disso. Vive-se muito mais dias de frustrações. E percebi que nada pensado no escrito seria suficiente. Nenhum registro em palavras faria jus àquela forma tão desestabilizadora de olhar e principalmente - sentir - o homem na sua narrativa cultural. Insisto - "narrativa". Confesso que, naquela inquietude, queria mergulhar naquele olhar de Sebastião, o que logo me fez desistir de escrever com o pensamento. Faltava a mim maturidade e sabedoria, esse terceiro andar e olho da consciência para além do conhecer e informar. Faltava sentir. Lembro então de Eduardo Galeano no Livro dos Abraços e do texto que falava de um menino que não conhecia o mar. Diz a história do mestre:
                    "Diego não conhecia o mar. (...) Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
                   E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!"
                 Eu, assim como Diego, fiquei miúda e muda de beleza. Mas, ensimesmada na minha adultice, não pedi a ninguém: "— Me ajuda a olhar! Me ajuda a olhar!" Somente muito tempo depois, eu aprendi a pedir ajuda. “"— Me ensina! Me educa! Me ajuda a olhar!" E um dia, entrando num transe imagético, reencontrei parte desse pedido e parte da minha própria narrativa. Entre lembranças e esquecimentos necessários, uma reminiscência bateu em mim e, como diziam os antigos, pegou-me “de chofre”. Lembrei das cenas e imagens da minha primeira comunhão e de uma foto que era para mim assustadora e que foi perdida para o tempo, por excessos de mudanças e desastres. Acredito que ela tenha sido engolida por aquele velho baú-buraco-negro do espaço das memórias onde vagam perdidas as fotos depois das separações e também as meias que ficam sem par e os guarda-chuvas. Devo confessar que aquela fotografia me assustava um tanto, eu vestida de anjo sem nem ter morrido ainda. Tadinha. Vovó me acalmava dizendo coisas como: “as crianças são os olhos de Deus. Por isso as crianças são anjos e por isso os anjos moram com Deus.” Hoje eu lembro e acho tudo isso lindo e incrivelmente poético. Mas na época, quando eu tinha mais medo e distância da morte, aquela história de ir morar com Deus não me agradava em nada. Lembro de dizer naquela fluidez de fala de criança: "Mas vó, eu ainda prefiro morar com você...” E foi cosendo esses retalhos de memórias, essas viagens desse olhar estrangeiro, que eu perseguia uma imagem que comungasse com a minha reunião de sentidos. E então a encontrei. E reencontrei os olhos de Sebastião Salgado que é para mim, e definitivamente, a melhor tradução imagética para os versos de um outro olhador de almas, o poeta Bartolomeu Campos Queirós:

Quando olhamos
nós acordamos alegrias, tristezas,
saudades, amores, lembranças,
que dormem em nossos corações

Os olhos têm raízes pelo corpo inteiro.
............................................................

Olhos: Sebastião Salgado
Olhos: Eduardo Galeano
Olhos: Bartolomeu Campos Queirós
Viagem: Patricia Porto

segunda-feira, 2 de julho de 2012

enquanto a terra durar...



quando a folha seca da terra chegou,
a menina acordou em seu quarto de brincar raízes,
mas já não haviam paredes nem pertences,
nenhuma dor lhe atravessava do atalho - ao gatilho do mundo.
Os olhos viajando para o céu onde diziam morar anjos se esquivavam do saber.
Esvaziados sótão e porão da velha estrutura, a menina era ela mesma o esplêndido brincando com suas horas desertas, seus brinquedos de existir.
Amigos imaginários caminhavam entre as árvores, limpando a vista,
flutuando entre os escassos de seus dedos, transitam onde gotas gentis cintilavam.    

Do lago emerge o fundo da face daqueles que lhe deram a superfície.
Nas trincas do solo, a floresta - que a alimenta de vida - traz também os nomes dos que ficaram na guerra.
Há medalhas sim, pois podaram para fazer crescer.
Mamãe, onde você está?
Na busca do que transcende a viagem do olhar: há bonecas e flores de lótus.
Papai, por que você não voltou?

Levaram o seu quarto e lavaram seus cabelos entre claros e escuros.
Entre os remendos de seu tempo de achados
enlaça com seus braços a última lua de salvação,
pois a noite é segura e não há luzes nem pessoas artificiais.
Abastece de origens e  baobás seus velhos jogos de Infância.
O pai e a mãe na porta que se lacra é um feixe e a chuva é cinza.  Parecem protegidos nos porta-retratos de dormir. Um beijo de boa-noite sela suas chances de encontrar...
E passos sobem os degraus a destruir reminiscências...
No topo da escada um aviso e o vazio dizem: não entre!
Aqui sobram medalhas de feitos de guerras,
e o tempo-espantalho assombra a cadeia de balanço.
Na parede em solidão a cortiça de imagens de seus olhos
veem o pó no desbotado, esfarelando em suas mãos a gravidade – a rochosa – o solo  desgastado de prover.

As manhãs onde ela desenha agora andam em círculos
e constroem de sombras sua sentença, seu direito, seu destino: o etéreo do olhar.
Ninguém voltará da guerra. Dizem...
Todos se foram para o dentro do lago de suas longas memórias!
Todos contam, sussurram, narram feitos heroicos.
E ela está só, só em si mesma, só em explosões de cores e sentidos,
ela está a revolver a terra, a revolver o rapto de sua jornada pela criança que no instante,  pelo decreto do afasto, se ausenta para viver pavios e verdades fabricadas.
Ela está só no seu mundo de girar e o tempo é a pedra da Terra. Tanto bate!...
Do carrossel uma peça, um estilhaço de Marte,
um pedaço de lembrar os dias de brinquedo, os ecos de brinquedo, os sonhos de brinquedo,
os verdes de brinquedo, as estações... É velha a construção que vem rompendo...
No vento do norte o eco:
                                        “papai e mamãe não vão voltar...
                                          papai e mamãe não vão voltar...”
    

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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