quinta-feira, 21 de junho de 2012

Quem semeia o amor...

Imagem@ Evangelina Prieto
 http://elpuestuflora.blogspot.com.br/


Para semear brisa eu colho os olhos de meu amante.
Planto estrelas no céu, vejo mudanças ao mar.
Para semear o amor não sei da tempestade.
Na minha madura idade gosto do colo: o amor.
Na cama suave, gosto dos pés que me acolhem o quente.
Teus pés amados: um novo país, é o que chamo de terra pacífica.
Não sei mais do tempo a tempestade,
minha hora é o quando e o quando é se te vejo o retorno.
Minhas sementes foram lançadas no chão,
de onde me sustenta o caminho me faço o amor.
Não sei de nenhuma natureza que em mim
seja somente a selvagem.
Sou a mãe de meus filhos, cuido do meu jardim
e na minha madura idade os riscos são amenos,
trazem chuva fina e café com cardamomo
- que eu bebo com gosto.

Serenando, gotejando na minha nova alma de sentir,
a chuva traz bonança, mesa farta,
crianças correndo em volta da vida.
A ventania é senão de alegria, semeia paz,
colhe o amor de pijama, aparando a grama no quintal.
Nada mais sabe sobre destruir casas
ou quebrar corações.
Meu sopro é frágil, feminino,
colhe serenos, alfazemas, poemas
e rimas assim - frágeis também.
De loucura extrema, paixão violenta,
feitos de sangrar o outro por posse e desejo, nada mais eu sei.

Na minha curva idade, meu amor é quieto,
fala mansidões, escuta o vazio,
separa os pães e sorri, plantando mel e mar
no meu corpo de histórias.
Semeando os dias, o amor de meu amante
colhe ao nascer do dia o puindo da roupa
e ao cair do sol planta cúmplice nossa lealdade.
Nada sei da carne sedenta a paixão.
Sei do ouvido o perto, o beijo;
partes de ti, partes de mim - todas sabidas -
na cantiga de ninar que sempre abranda a tempestade.

Patrícia Porto

Beija-flor.


Brassaï Paulette et André, 1949


(renascendo...)

Ele disse que vinha.
Arrumei a desordem da vida,
coloquei flores na varanda,
varri velhos fantasmas,
forrei os retratos antigos.

Com um pouco de sorte
ele irá perceber
meu simbolismo,
minha presença
- a temperança –
o perfume de colônia
que guardei em vidrinhos.

Com um pouco de sorte
ele vai me sentir
com todos os sentidos
e liberdades.

Para esperá-lo
vou tomar um chá de maçã com canela
- delicadamente,
gole a gole.

Não tenho mais rima para apressar...
Vou colocar açúcar na janela,
a janela dentro de mim...

Com um pouco sorte
ele pousa,
ele pausa (...)
aqui.

Patrícia Porto

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Espólios.





No acervo da casa grande
lá se amontoam esqueletos de objetos particulares:
pequenezas, miudezas, pequenas confissões dos muitos e presos,
de todos os respectivos fantasmas,
roendo em pós os pés dos móveis
respectivamente familiares.
Testemunhas reticentes alegam que há apenas discórdias e inventários,
divisões de bens há séculos amaldiçoados pela feliz coincidência burguesa.
Tanta tola existência!
Por que então não recusar repassar as promissórias do passado?
- Perguntam os fantasmas, olhando pela escotilha.
Por que não enterrar os mortos da família com seus panos e dejetos sepulcrais?
Por que não cessar a voz aos alhures e às pragas de maldição? Sim, mas, quem o faz?
De soberba vive o velhaco com cheiro de urina, guardando em relicários
as carnes, os pedaços arrancados dos santos.
Não, não se pode assim riscar de vez os tortos nomes sobrenaturais
para rasgar os papéis e as certidões!
Que tola insistência!
Sabem, porém, que na lacuna do invento,
no espelho que já não quebra mais mãos,
uma criança, um menino de espírito livre
pode libertar o baú dos mortos
e ousar reverter a história
- para cortar inocente
- e cálido -
a árvore verossimilhante:
pela raiz.

Patricia Porto



Imagens @ Sarolta Bán


Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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