terça-feira, 26 de junho de 2012

Amigos.

Imagem@Bill Brandt, 1936.

Os amigos são como cofres
que nos permitem segredar nossos delírios,
que nos permitem guardar nossos desejos
e agradar todos ouvidos
só de mentiras e doces acomodações:
“Como você está bem! Emagreceu! Está mais jovem!
Está com cara de quem viu passarinho verde!
Deve estar amando.”
Os amigos vivem de si para com eles mesmos
e vivem para que possamos subtrair deles
a última nota lírica da nossa própria existência:
“_ me dá cá a tua mão, meu amigo, minha amiga...
Não chora que eu choro também.”
“Vai passar... Tudo bem. Estou aqui.”
“Como gosto de rir com você!”
Os amigos são assombrações que nos intimidam
quando cometemos erros (que culpa!): “fumando de novo? comendo outra vez?”
São responsáveis pelo acesso a uma inconsciência muito íntima: “tive um sonho revelador, eu sei que são duas horas da madrugada, mas preciso te contar...”
Os amigos são como as coisas que eu não digo,
mas permanecem grudadas na mente: para sempre - o sempre - quem saberá dizer?
Poderemos ficar meses ou anos sem nos ver e ainda assim
inexorável é saber que há sempre o tempo da redescoberta.
Pois para os amigos somos sempre repletos de infância,
de lúdicos sinais.

São pérolas,
os amigos são pétalas, pedacinhos de pão
a nos guiar no caminho de volta - ou pra longe de casa:
depois do bar, do choro, da festa, da agonia.
Lá estão eles: a nos matar a fome, a solidão, o medo dos imprevistos,
a nos alimentar a vida só de amor, abraço e bondade.

Patricia Porto

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Quem semeia o amor...

Imagem@ Evangelina Prieto
 http://elpuestuflora.blogspot.com.br/


Para semear brisa eu colho os olhos de meu amante.
Planto estrelas no céu, vejo mudanças ao mar.
Para semear o amor não sei da tempestade.
Na minha madura idade gosto do colo: o amor.
Na cama suave, gosto dos pés que me acolhem o quente.
Teus pés amados: um novo país, é o que chamo de terra pacífica.
Não sei mais do tempo a tempestade,
minha hora é o quando e o quando é se te vejo o retorno.
Minhas sementes foram lançadas no chão,
de onde me sustenta o caminho me faço o amor.
Não sei de nenhuma natureza que em mim
seja somente a selvagem.
Sou a mãe de meus filhos, cuido do meu jardim
e na minha madura idade os riscos são amenos,
trazem chuva fina e café com cardamomo
- que eu bebo com gosto.

Serenando, gotejando na minha nova alma de sentir,
a chuva traz bonança, mesa farta,
crianças correndo em volta da vida.
A ventania é senão de alegria, semeia paz,
colhe o amor de pijama, aparando a grama no quintal.
Nada mais sabe sobre destruir casas
ou quebrar corações.
Meu sopro é frágil, feminino,
colhe serenos, alfazemas, poemas
e rimas assim - frágeis também.
De loucura extrema, paixão violenta,
feitos de sangrar o outro por posse e desejo, nada mais eu sei.

Na minha curva idade, meu amor é quieto,
fala mansidões, escuta o vazio,
separa os pães e sorri, plantando mel e mar
no meu corpo de histórias.
Semeando os dias, o amor de meu amante
colhe ao nascer do dia o puindo da roupa
e ao cair do sol planta cúmplice nossa lealdade.
Nada sei da carne sedenta a paixão.
Sei do ouvido o perto, o beijo;
partes de ti, partes de mim - todas sabidas -
na cantiga de ninar que sempre abranda a tempestade.

Patrícia Porto

Beija-flor.


Brassaï Paulette et André, 1949


(renascendo...)

Ele disse que vinha.
Arrumei a desordem da vida,
coloquei flores na varanda,
varri velhos fantasmas,
forrei os retratos antigos.

Com um pouco de sorte
ele irá perceber
meu simbolismo,
minha presença
- a temperança –
o perfume de colônia
que guardei em vidrinhos.

Com um pouco de sorte
ele vai me sentir
com todos os sentidos
e liberdades.

Para esperá-lo
vou tomar um chá de maçã com canela
- delicadamente,
gole a gole.

Não tenho mais rima para apressar...
Vou colocar açúcar na janela,
a janela dentro de mim...

Com um pouco sorte
ele pousa,
ele pausa (...)
aqui.

Patrícia Porto

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Espólios.





No acervo da casa grande
lá se amontoam esqueletos de objetos particulares:
pequenezas, miudezas, pequenas confissões dos muitos e presos,
de todos os respectivos fantasmas,
roendo em pós os pés dos móveis
respectivamente familiares.
Testemunhas reticentes alegam que há apenas discórdias e inventários,
divisões de bens há séculos amaldiçoados pela feliz coincidência burguesa.
Tanta tola existência!
Por que então não recusar repassar as promissórias do passado?
- Perguntam os fantasmas, olhando pela escotilha.
Por que não enterrar os mortos da família com seus panos e dejetos sepulcrais?
Por que não cessar a voz aos alhures e às pragas de maldição? Sim, mas, quem o faz?
De soberba vive o velhaco com cheiro de urina, guardando em relicários
as carnes, os pedaços arrancados dos santos.
Não, não se pode assim riscar de vez os tortos nomes sobrenaturais
para rasgar os papéis e as certidões!
Que tola insistência!
Sabem, porém, que na lacuna do invento,
no espelho que já não quebra mais mãos,
uma criança, um menino de espírito livre
pode libertar o baú dos mortos
e ousar reverter a história
- para cortar inocente
- e cálido -
a árvore verossimilhante:
pela raiz.

Patricia Porto



Imagens @ Sarolta Bán


quinta-feira, 14 de junho de 2012

o operário e a bailarina


"Tempos Modernos é uma história
 sobre a indústria, a iniciativa privada
 e a humanidade em busca da felicidade."

(Charles Chaplin, 1936)

ele ergue em torno de si
uma sólida fábrica -
de armações de aço,
ferros e maquinarias

enquanto isso...
ela flutua no espaço
e move com seus passos
o tempo derretido

ele sobe em alturas
que parecem incríveis
e cerca-se de arames
sempre tão farpados!

e enquanto isso...
ela dança vestígios
e sobe em telhados
pra viver de estrelas!

ele veste capas e seu uniforme,
ele ouve sinais, ele canta ordens
sai às tantas - sempre pronto em ponto,
ele é a disciplina; é o operário:
a vida é certeza

ela escreve versos,
inventa cantigas,
dizem que é louca
sua crença e sina,
ela é a bailarina

mas, quando estão juntos:
ela rega plantas,
ele veste rios,
ela faz café,
ele conta histórias,
ele repousa em seu ventre,
ela costura bainhas,
ele cose o amanhã,
ela desenferruja as trancas,
ele ordenha o futuro,
ela adormece...
ele adormece...
não há nada que os separe

ele é todo corpo,
ela é o esquadro

eles se encontram,
se perdem inexatos
libertam seus fardos,
fazem-se os sentidos,
ela é a operária,
ele, o bailarino
...
e tudo, tudo que era tão sólido
se desmancha no ar...

Patrícia Porto




terça-feira, 12 de junho de 2012

Porque o amor é e não é Fugaz.


Erland Josephson e Liv Ullmann na película Saraband. Ingmar Bergman, 2003.




Porque o amor é e não é Fugaz.

Depois de conviver com você durante horas, poucos dias, a distância tomou o nosso espaço e encaixou entre nós a saudade. Imaginava um dia que em mim erguesse esse monumento chamado “amor”. Desconfianças de conchas, imensidões de areia... Mas enfim, abandonada de minhas quase certezas, atravessaria a baía em forma de ponte emergindo das ondas, para me desfazer em pequenas espumas provocadas pelas barcas. Escoraria meus braços em estacas e nos rangidos da atracação seria a ligação com os terminais. Eu, terminal e germinal. Um barulho proporcionado pelo metal e madeira no encontro da embarcação.
       À noite nenhuma estrela e o dia de nublados com a informação da chuva sem o aconchego do lar. A fome veio sem notar sabor, o corpo sem a sensibilidade, o poema esquecido sem o fôlego da alma e a mãe que deixou para trás seu filho por algo melhor para ambos, se arrependeu e não pôde voltar. Era tarde, seus seios murcharam de dor. 
        O mundo sem as cores vivas da natureza seguia as horas com os minutos demorados da pulsação do dia; e todos em volta continuavam numa marcha veloz. E a semente de flor sem a vontade da vida a amanhecer-lhe de esperança frente à brutalidade do asfalto. Barulhenta e cinza a cidade prosseguia. O tom único da sobrevivência vinha então no simples, na rotina, no ato de obrigação cotidiana e assim o tempo iria preenchendo e insuflando o corpo como um simples miolo de pão, dando de comer aos passarinhos do estômago
  O amor não lhe pertencia. Não sabia, não sabe de você a estranheza que te habita. Não sabe onde está se envolvendo, se engajando. Mas digo sempre, há avisos, avisos de cuidado na porta: mantenha certa distância no início, vá mais devagar... Este ser que habita este amor é mais frágil que o mais frágil dos cristais mais finos. Toda sua força é ser frágil e ser frágil é a sua única linguagem.
  Feito novo habitante da casa-amor, ele se alimenta do mundo ao redor, que o sacia de calor e de aguardos, vozes que lhe dizem ao corpo palavras sempre estrangeiras. No vitral, a imagem é que ilumina a suavidade das mãos duras do tempo, mas agora amansadas, amassadas em si mesmas, deixando escapar pelos dedos a areia movediça da ampulheta que não dá mais conta do mistério e da obsessão do tempo. Ele, ela é fugaz, é fuga da morte e fogo de renascimento.
       O mundo é todo o silêncio da madrugada, o silêncio vermelho que se aproxima da vidraça do apartamento, avermelhando de luz a fresta, a pouca viagem de luz. E o sono, embalado dos amantes que se sentem sempre últimos e primeiros; este desconhece os sonhadores, pois não sabe do invento a saudade. Hoje adormecido o amor que ficou longe, mas próximo, transforma o tempo em sonho e o sonho é a passagem, é o amor ao lado, do lado de dentro - guardado intacto e sempre precioso.

Patrícia Porto

Lou Bernstein, 1950.

AMOR FEINHO (Adélia Prado)

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.


sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Escafandro.


Imagem@ Fritz Henle, 1937, Frida Kahlo.



De muito pensar em mar, eis que sonhou
inventos miraculosos para mergulhos.
De tanto se afogar, eis que imaginou
inventos miraculosos para os adentros.
De tanto desejar fazer morada
a casa de águas salgadas,
águas de banho, moinho e recriação,
eis que desaprendeu o nado e o óbvio,
eis que se lançou ao vazio dos homens
e tomou ansarinha-malhada e sereno,
eis que se tornou manto branco
para o corpo duplo da saudade.
Sem direção, sem encaminhamento,
eis que se tornou os pedidos no barco,
os pedidos de amor machucado,
as pragas de assombração,
as ambições mendigadas,
eis que se banhou de seda, perfume e promessa:

Oh, mãe das águas...
Cuida bem de meu amante
que esse já não me volta.
Dá-lhe abrigo e pesca
lanterna e bitácula,
holofote, farol.
Toda luz é pouca,
todo mar é fundo,
oh, mãe das águas.
Dá-lhe os meus respiros,
minha embarcação,
meu leme e vigia
pela madrugada
no alto disperso.
E sem nós no prumo
na proa sem rota
dá-lhe de existir
com a minha sorte
no seu escafandro.

Patrícia (no) Porto
           


              Sobre Mergulhos...

                        Frida Kahlo uma dia disse sobre si mesma: "'Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.'' 
             Algumas pessoas nascem tão somente para os mergulhos. E os abandonos podem causar vazios abissais. A dor é imensa porque parece que estão realmente levando as nossas pernas, os nossos pés, o nosso chão. E se pode sentir num primeiro momento, pela falta de território, que será uma via crucis longa e dolorosa conseguir de novo: levantar, caminhar, encarar o mundo; o mesmo mundo que nem sempre foi e será receptivo e tolerante às suas perdas, às suas dores. E Frida Kahlo perguntava algo assim: "para que pés se posso voar?"  
               Sim, o luto pode insistir ou precisar demorar e suas asas e pés podem parecer engessados por dias, meses, anos até... Por isso a Paciência é a ciência dos que nascem para os mergulhos.  Porque alguns mergulhos podem ter como único instrumento de sobrevivência o escafandro. E para se continuar vivendo será preciso aprender a respirar através de uma armadura. Uma tarefa complexa. Porque se ficou pesado demais, porque podemos nos tornar a nossa própria arma-dura.
               Quando eu era criança, por incrível que pareça, a dor do abandono, da perda - eu a sentia menor, talvez porque o caminho a frente fosse feito do largo, de um mundo enorme, desconhecido. Medo? Havia, mas ele se dissolvia facilmente em bolhas de fantasia e sabão. A diferença na forma de lidar com os abandonos de agora, o abandono do Estado, o abandono dos seus direitos, da sua dignidade humana num país que violenta a educação popular de crianças e mestres, que violenta a mulher e a minorias, me causa mais angustia. E hoje tudo dói mais. A alma é como o corpo, aprendi que ela envelhece - de pro-pó-si-to - para viver determinadas dores. Se você sofre uma lesão sendo mais velho, tudo é mais difícil. É... E para curar leva mais tempo - caramba!, mas aí você já não tem tanto tempo! É bem capaz de querer sofrer duas vezes, por antecipação e determinação. Precisa então de mais pomada para os machucados, de maior atenção com a cura, de mais carinho consigo mesmo e com sua nova lentidão. A cicatriz, essa, certamente vai ficar mais feia, até porque sua pele já não tem ou terá mais a mesma elasticidade. E será seu espírito que precisará reaprender, negociar dia a dia com a vida e com a criança de dentro, a ter mais elasticidade. Para quê? Para poder perdoar, para poder seguir em frente. A boa esperança, a notícia bem-vinda, é saber que vai passar - e que passa mesmo! Com ou sem o meu, o seu, o nosso consentimento. E haja mergulho!

Patricia Porto


Imagem: Man Ray. Frida Kahlo.


             

segunda-feira, 4 de junho de 2012

água doce

Imagem@ Bernard  Descamps, Mali, The Night.

a criança que ria do rio vindo,
que ria do tempo indo,
ela não cresceu.
Ela está lá no rio rindo,
e no meu rito
é minha rota de passagemembolada,
minha sombra engolida na rede.

a criança do rio que ri é o tempo,
e não há sapatos que caibam em seus pés.
Não há floresta que a faça crescer.

a criança rindo do feito mágico
rindo de todo juízo afinal,
com seus dentes de leite,
com sua boca e sorriso.

a criança é a vingança contra o tempo,
contra o abuso, o desespero, a maldição,
contra a triste desesperança da violência,
contra o assalto da alma à espreita.

a criança me leva de volta pro todo, ela é a inteira,
está livre dos dogmas e das vigilâncias sociais que inventaram
o verniz da aparência.

a criança é a vingança maior contra a opressão,
contra a ordem da casa, a fundo, o silêncio do lodo,
contra os antídotos que não te deixam sonhar.

a criança soprou palavras no meu ouvido,
dançou sobre minhas perdas mais sentidas, afagando meus lutos.
Um canto: a criança é tudo o que tenho, nada mais... nada mais...
...o rio rindo, o rio vindo, a criança e o riso, o viço, a risada
- tudo, tudo o que tenho...

a criança que ria era cria do rio,
criada a crença do pouco siso,
era a vingança contra a ascendência da intolerância,
do preconceito e de todo o peso da mão da mãe,
do pé pesado do pai sobre o soalho gasto.

a criança é a vingança sobre a inquietação da noite sem fim
contra os medos do quarto trancado, das trancas da solidão de fora ao claustro.
contra a face deixada para bater. Que batam! Ah, seus sentidos não sabem culpa...

e então a criança mostra seus dentes, seus dentes que mudam,
que morrem e renascem do novo.
E ri tão alto, tão alto, tão alto, tão longe, tão absurdo...
E segue o rio e o rio é o seu íntimo.

a criança conversa com a natureza das palavras:
poesia, estrela, amplidão, céu, poeira iluminada...
e habita a fragilidade de existir e perdurar;
sabe ler os vestígios na travessia, as ruínas sobre o terreno acidentado.
Sobre os corpos afogados trazidos no espírito -
é a coragem de esquecer.

a minha é menina e mora nas entranhas,
solta do meu útero a fazer cócegas nas minhas fraturas expostas.
Ela ri do rio e o tempo é tudo o que ela tem.

Porque já viu de tudo, porque sentiu de todos -
a criança tem os elementos da terra para fortalecer os grãos
contra a estiagem.
Ela ri e sua vingança contra o ódio é a lavoura, a terra encharcada,
a lama e a limpa do rio,  o tempo vindo no rio,
o rio rindo de dentro,
vivendo e morrendo - a-co-lhendo...
...vivendo e morrendo - de tanto rir.

Patrícia Porto
 
Imagem @ Jacques Lowe The Joy of Music, N.Y.C., 1960.