sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Escafandro.


Imagem@ Fritz Henle, 1937, Frida Kahlo.



De muito pensar em mar, eis que sonhou
inventos miraculosos para mergulhos.
De tanto se afogar, eis que imaginou
inventos miraculosos para os adentros.
De tanto desejar fazer morada
a casa de águas salgadas,
águas de banho, moinho e recriação,
eis que desaprendeu o nado e o óbvio,
eis que se lançou ao vazio dos homens
e tomou ansarinha-malhada e sereno,
eis que se tornou manto branco
para o corpo duplo da saudade.
Sem direção, sem encaminhamento,
eis que se tornou os pedidos no barco,
os pedidos de amor machucado,
as pragas de assombração,
as ambições mendigadas,
eis que se banhou de seda, perfume e promessa:

Oh, mãe das águas...
Cuida bem de meu amante
que esse já não me volta.
Dá-lhe abrigo e pesca
lanterna e bitácula,
holofote, farol.
Toda luz é pouca,
todo mar é fundo,
oh, mãe das águas.
Dá-lhe os meus respiros,
minha embarcação,
meu leme e vigia
pela madrugada
no alto disperso.
E sem nós no prumo
na proa sem rota
dá-lhe de existir
com a minha sorte
no seu escafandro.

Patrícia (no) Porto
           


              Sobre Mergulhos...

                        Frida Kahlo uma dia disse sobre si mesma: "'Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminado a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.'' 
             Algumas pessoas nascem tão somente para os mergulhos. E os abandonos podem causar vazios abissais. A dor é imensa porque parece que estão realmente levando as nossas pernas, os nossos pés, o nosso chão. E se pode sentir num primeiro momento, pela falta de território, que será uma via crucis longa e dolorosa conseguir de novo: levantar, caminhar, encarar o mundo; o mesmo mundo que nem sempre foi e será receptivo e tolerante às suas perdas, às suas dores. E Frida Kahlo perguntava algo assim: "para que pés se posso voar?"  
               Sim, o luto pode insistir ou precisar demorar e suas asas e pés podem parecer engessados por dias, meses, anos até... Por isso a Paciência é a ciência dos que nascem para os mergulhos.  Porque alguns mergulhos podem ter como único instrumento de sobrevivência o escafandro. E para se continuar vivendo será preciso aprender a respirar através de uma armadura. Uma tarefa complexa. Porque se ficou pesado demais, porque podemos nos tornar a nossa própria arma-dura.
               Quando eu era criança, por incrível que pareça, a dor do abandono, da perda - eu a sentia menor, talvez porque o caminho a frente fosse feito do largo, de um mundo enorme, desconhecido. Medo? Havia, mas ele se dissolvia facilmente em bolhas de fantasia e sabão. A diferença na forma de lidar com os abandonos de agora, o abandono do Estado, o abandono dos seus direitos, da sua dignidade humana num país que violenta a educação popular de crianças e mestres, que violenta a mulher e a minorias, me causa mais angustia. E hoje tudo dói mais. A alma é como o corpo, aprendi que ela envelhece - de pro-pó-si-to - para viver determinadas dores. Se você sofre uma lesão sendo mais velho, tudo é mais difícil. É... E para curar leva mais tempo - caramba!, mas aí você já não tem tanto tempo! É bem capaz de querer sofrer duas vezes, por antecipação e determinação. Precisa então de mais pomada para os machucados, de maior atenção com a cura, de mais carinho consigo mesmo e com sua nova lentidão. A cicatriz, essa, certamente vai ficar mais feia, até porque sua pele já não tem ou terá mais a mesma elasticidade. E será seu espírito que precisará reaprender, negociar dia a dia com a vida e com a criança de dentro, a ter mais elasticidade. Para quê? Para poder perdoar, para poder seguir em frente. A boa esperança, a notícia bem-vinda, é saber que vai passar - e que passa mesmo! Com ou sem o meu, o seu, o nosso consentimento. E haja mergulho!

Patricia Porto


Imagem: Man Ray. Frida Kahlo.


             

segunda-feira, 4 de junho de 2012

água doce

Imagem@ Bernard  Descamps, Mali, The Night.

a criança que ria do rio vindo,
que ria do tempo indo,
ela não cresceu.
Ela está lá no rio rindo,
e no meu rito
é minha rota de passagemembolada,
minha sombra engolida na rede.

a criança do rio que ri é o tempo,
e não há sapatos que caibam em seus pés.
Não há floresta que a faça crescer.

a criança rindo do feito mágico
rindo de todo juízo afinal,
com seus dentes de leite,
com sua boca e sorriso.

a criança é a vingança contra o tempo,
contra o abuso, o desespero, a maldição,
contra a triste desesperança da violência,
contra o assalto da alma à espreita.

a criança me leva de volta pro todo, ela é a inteira,
está livre dos dogmas e das vigilâncias sociais que inventaram
o verniz da aparência.

a criança é a vingança maior contra a opressão,
contra a ordem da casa, a fundo, o silêncio do lodo,
contra os antídotos que não te deixam sonhar.

a criança soprou palavras no meu ouvido,
dançou sobre minhas perdas mais sentidas, afagando meus lutos.
Um canto: a criança é tudo o que tenho, nada mais... nada mais...
...o rio rindo, o rio vindo, a criança e o riso, o viço, a risada
- tudo, tudo o que tenho...

a criança que ria era cria do rio,
criada a crença do pouco siso,
era a vingança contra a ascendência da intolerância,
do preconceito e de todo o peso da mão da mãe,
do pé pesado do pai sobre o soalho gasto.

a criança é a vingança sobre a inquietação da noite sem fim
contra os medos do quarto trancado, das trancas da solidão de fora ao claustro.
contra a face deixada para bater. Que batam! Ah, seus sentidos não sabem culpa...

e então a criança mostra seus dentes, seus dentes que mudam,
que morrem e renascem do novo.
E ri tão alto, tão alto, tão alto, tão longe, tão absurdo...
E segue o rio e o rio é o seu íntimo.

a criança conversa com a natureza das palavras:
poesia, estrela, amplidão, céu, poeira iluminada...
e habita a fragilidade de existir e perdurar;
sabe ler os vestígios na travessia, as ruínas sobre o terreno acidentado.
Sobre os corpos afogados trazidos no espírito -
é a coragem de esquecer.

a minha é menina e mora nas entranhas,
solta do meu útero a fazer cócegas nas minhas fraturas expostas.
Ela ri do rio e o tempo é tudo o que ela tem.

Porque já viu de tudo, porque sentiu de todos -
a criança tem os elementos da terra para fortalecer os grãos
contra a estiagem.
Ela ri e sua vingança contra o ódio é a lavoura, a terra encharcada,
a lama e a limpa do rio,  o tempo vindo no rio,
o rio rindo de dentro,
vivendo e morrendo - a-co-lhendo...
...vivendo e morrendo - de tanto rir.

Patrícia Porto
 
Imagem @ Jacques Lowe The Joy of Music, N.Y.C., 1960.
  

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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