quinta-feira, 31 de maio de 2012

O Tempo fora da Caixa.


  O Tempo fora da caixa.

                      Ela e o sinal de trânsito frente a frente, as luzes mudando de cor em segundos contados num letreiro: menos 50, menos 49, menos 48... mais 48, mais 49... Alguém a olhava. Sensação de perturbação. A terapia, depois de anos, poderia ter ajudado e agora pensava: talvez não tenha sido suficiente. Sensação de vigília e olhares de busca. As mulheres sofrem mais de síndrome do pânico, leu numa revista feminina. Mas, calma, disse para si: a mulher não será para sempre a culpada por ter criado o homem na imagem e semelhança de Deus. Ela não era Deus, se ele é masculino. Em segundos o sinal abriria sim. Não, nada de olhar muito para o outro lado. Essas sensações não passavam de tolos queixumes que, segundo o analista, só geravam mais e mais ressentimento. Depois do lifting prometeu: só olharia em espelhos de autoconfiança. Uma nova ciência descoberta: a mulher que se aceita é a mulher que se ama e é preciso amar a si mesma antes de amar o outro. E ele, o outro, agora estava do outro lado, ele era o lado de fora da caixa, o inferno como se sabe. Em tom cada vez menos grave não ouviria os berros dos anos que quase a consumiram com pílulas. As mulheres tomam mais antidepressivos, isso lido numa revista de consultório pode até parecer trágico. Não era. Calma, o demônio está do lado de fora da caixa. Muito compreensível. E se a vida vem em câmera lenta, basta canalizar sua energia para o alto. E assim criar a sua própria subjetividade, identidade, singularidade etc. Pense, respire: é a circularidade. A respiração, quando bem exercida, pode mudar sua áurea, não importa que o ar esteja contaminado, que o vidro esteja fechado e que se tenha rugas de expressão para tirar. Basta ouvir a própria respiração e se ouvir a respiração dele ainda machuca, como uma arma pronta a disparar: não pare. Acelere! Respire! Pode ser sempre um assalto. Não olhe para trás! São camadas de sal. 
                    E se olhar for inevitável? Há o passado com as chaves na mão! E ali mesmo, na gangorra da vida, ela começou a sentir seus pés virando sal. Tão bem vestido o passado com seus olhos de sempre, talvez um pouco mais calvo, mais velho. Um demônio masculino. Talvez. O tempo havia passado para todos, havia passado para ela. No rosto dele cicatrizes desconhecidas, novas sombras. Ele sorria. Para quem? Será que pôde reconhecê-la? Será que devia? Sentiu o cheiro do sal, a maresia subindo as pernas, a praia que nunca puderam ir, as mãos dele, os dedos longos... As mãos de Deus sobre o volante. Lembre-se: as mãos sobre o leme no comando da vida. O Leme. Lembrou do mirante. Os fogos. O Rio lindo. Aquelas férias incríveis. A brisa quente. O tempo morto. Não lembre! Uma bossa tocando. Era Tom Jobim... A música dentro de um presente abafado onde uma menina-fantasma dança. Cuidado, há perigos na esquina... Uma música que toca o frio no corpo.
                 27, 26... Vinte anos. Mas ela estava tão rejuvenescida com seu namorado bem mais jovem, seus filhos numa universidade estrangeira, as amigas e as tardes de sexta para rir e conversar sobre notícias, fotos e pessoas instantâneas. A cidade quente e os meninos malabaristas na linha do asfalto. O menino e o nada a fazer. “Esse menino tem cara de fome”. Pensou: e se fosse mais altruísta, poderia construir sua própria solidariedade. Sentiu o desejo imenso de romper os vidros de ambos os carros e perguntar: “por onde você andou?" O passado e o sal. E o sol da tarde. E a fumaça, e o calor, e o menino e os malabaris: bolinhas de areia. Mas ela estava protegida da cidade. Segura contra o tempo e sua voracidade com o que de melhor havia em proteção solar. Ela protegeu-se bem, acumulando defesas. E voltaria logo para casa para se trancar em seu quarto com novos cremes e revistas de decoração. Assim se distanciava de qualquer pequena e sempre triste profundidade. O tempo caindo em fatias sobre seu travesseiro de penas de ganso e ela no macio de sua recente positividade, esse eco, voltava para dentro da caixa. Havia desenvolvido uma arte para o esquecimento. Ou seria uma técnica?
               Vermelho. 3,2... O menino no sinal. O menino e um grito. Seu. Para dentro? Não conseguiu abrir a janela, embora moedas brilhassem perto da marcha. “O menino deve saber se virar com aquela cara de fome”. Olhou mais uma vez. Alguém buzinava atrás. Precisava ir. Não. Não abriu o vidro, não viu o homem, não viu o menino, não fez nada. Eles haviam sumido. Ambos: o passado e o futuro. Deus e o Demônio juntos. O tempo e suas molas voláteis abrindo-se feito uma eterna caixa de Pandora. Meninos malabaristas poderiam ousar sair de dentro dela. Mas agora estava salva, mãos enormes a fechavam de novo. Mãos de um clown.
                Um sinal: Verde!

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

Google+ Followers

Com-partilhados...

Pesquisar neste blog