quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A dona do rio.

Imagem: Claudia Andujar, da série Sonhos Yanomami, 1974

Se eu pulo,
o rio me absorve o medo
então eu sou o rio
e o rio é o meu tombo no escuro ,
e eu sou a minha queda,
meus cabelos, minhas crias
no salto para o alto de mim mesma.
Se eu me lanço e caio,
sou sombra e trevas,
já não me pertenço,
Já não lhe pertenço.
Sou a entrega e o basta.
E se meu coração foi esmagado
pelas mãos estúpidas e assassinas de três
ou quatro parcas,
já não nos importa.
Eu o reconstruo parte a parte, fio a fio,
e até do inferno faço do tecido um jardim.
Pois a morte já não me pertence.
Porque eu pertenço ao trânsito do rio!
Ao amor escasso e humano,
rompendo o bloqueio das pedras!
Eu pertenço ao delicado sentido do bem!
Minha violência é água, não represa o amor
e o coração do mundo é um só. Tomba. Manifesta.
Não se pode esmagar uma mulher com uma derrota.
O rio corre – desalinha – é doce e perigoso,
de correntes e volumes,
 lágrimas todas dos silêncios amargurados de mãe
- molhando de margens, as teimosas, as teimosas,
que sopram, espumam, alimentam
de esperança outros e tantos e tantas coragens
de escudo o livre.
E o que for da vida
segue serpente
no rio, no rio... e rio...   
que já o vejo daqui.

Patrícia Porto

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Barquinhos de papel.

Imagem: Sarolta Bán


Qual o tamanho da tua liberdade? De quanto aço foi feita a tua espada?
Para onde foi o pôr-do-sol que estava aqui?
Porque dentro há abraços,
porque dentro há refrigérios;
as dimensões te asseguram de cura.
Qual o tamanho do teu perdão? De quantas extinções é feita uma existência?
Dentro do teu afago, os braços de uma deusa,
os quatro cantos da casa vazia, os pais abonando deslizes,
os pais abandonando suas crias   
como gatos amarelos a comer filhotes.
De quanta proteção se pretende uma capa?
Com quanta hipocrisia se constrói uma história?
E a noite do absurdo, da urina de criança,
com quantas trancas se faz o Império de um Barba Azul?
Para Dentro, o espaço elástico da alma equilibrista,
o supremo destino dos animais sacrificados.
"Não é o mais forte que sobrevive."
A dor de umbigo, umbilical - da partida.
No mar, barquinhos de papel...  
De quantas nuvens se faz um desenho?
De quantos dedos um adeus?
De quanta chuva a reserva?
De quantas cores um desenho?
De quantos azuis e vermelhos, a outra?
De quantas mãos, quantos grãos, nãos, sins, de quantos
desertos se faz com areia um castelo?

Patricia Porto

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A pelo.

Imagem: Henri Cartier Bresson.


Amo-te ao sinal  de um farol,
de bússolas, relógios e mares de distantes imprevistos.
Amo-te em recados ausentes reticentes que você finge não ler.
Te amo assim em ressaca pronominal.
Que nome posso dar? Saudade, que nome o teu de luz? Avesso?
Amo os teus olhos escuros do outro lado da rua, da mesa,
do outro lado da baía de todos os santos,
todas as figas, todos os dias, as noites sem o sereno de teus beijos.
Ah, teus beijos de encaixe o perfeito,
o pleno, o plano, no planejo de amores de agosto
em janeiro ou fevereiro, criminoso invento.
Sinto tudo de falta e desejo,
falha sou e folha solta vou à deriva,
e obscura hei de seguir pistas erradas, notícias de agulhas,  
 fazendo vigílias em palheiros, velando os sonoros,
dançando doida ritmos ciganos,com cavalos libertos
- como aquele que no meu corpo me fez sacana pra me ferir.
Passageira de um trem de renascenças,
amo-te o imponderável, o cheiro doce,
o homem o bruto e o belo, o sexo e o afeto.
Sonho o dia da ressurreição do amor:
desperto, livre, correndo ao teu segredo no ouvido,
misturado aos lençóis do teu país, da tua terra. Divino.
Vou estrangeira sem passaporte e em transe,
calma e alucinada,
desabrochando de fruta madura,
vôo acesa a casa da alma inteira,
de fitas nos cabelos,
rosas nas mãos
e olhos grandes, aguados, de aguardos de demora, de esperas,
te chamando, te clamando
por duas três quatro mil vidas ou mais.

Patricia Porto

PRECIOSSOS

Imagem da magnifica Sarolta Bán.

na noite faminta
nenhuma ordem ou desordem
nenhuma sentença de morte
nenhum direito negado
apenas a fome
o encanto enquanto
o sonho, o vulto
se faz Realizado


Patricia Porto