quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Um trem de cordas.


Imagem© Os Gemeos, Otávio e Gustavo Pandolfo.Graffiti.

Ainda ouço minha mãe gritando: _Vai perder o trem!
E o trem levava para a escola técnica,
no tempo que eu queria ser de outra natureza.
Maldita sina: nascer mulher! Eu praguejava.
Porque era normal praguejar se se nascia mulher
naquela família.

O trem saía de Alcântara
para um lugar nenhum dentro de mim.
O trem de Alcântara,
a explosão de Alcântara.
Eu queria ser engenheira.
Engenheira das letras? Disse um professor barrigudo. (que trem esquisito...)

E um dia Alcântara explodiu,
ficou deserta de gênios;
a outra, pequena para os meus olhos.
Eu queria conhecer uma tal de Londres,
vi num catálogo ilustrativo.
Era a terra de Shakespeare,
maior escritor inglês de todos os tempos.
Mas o trem de Alcântara não era desses de fios de ouro,
precisava de muitas cordas
e não parava em estações que fossem de sonhos ou loucuras.
Ele seguia avante e sombrio, como um trem de fantasmas,
para um destino que nem era o meu.

Acorda, Patrícia, vai perder o trem!