quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Paciência Estratégica.


Paciência Estratégica
             
                Recentemente numa entrevista concedida à TV brasileira, o Presidente do Uruguai,  apelidado como o Presidente mais pobre do mundo, contou que para lidar com os problemas internos da economia uruguaia e a queda de sua popularidade, seguiria o conselho que a Presidenta Dilma tinha lhe dado: teria “paciência estratégica”.
                Paciência é uma palavra muito ligada à semântica dos monastérios.  Ser monge é quase um aspecto sinonímico de ser paciente.  Um monge estressado, penso que seja algo inviável. Talvez motivo para uma distinta expulsão. Jó era outro. O mais paciente de todos. Mito da Paciência, Jó perdeu tudo: família, terra, honra. Mas reconquistou tudo em dobro pela sua enorme, monumental paciência.  Perder tudo para ganhar tudo em dobro. Imagine-se perdendo alguém que ama, para mais tarde ser contemplado com duas novas pessoas, tinindo, brilhando de novas... A paciência conseguiria dar boa substituição para o que já foi perdido?  
                 Em termos de economia de um país... Aí é outro papo. Certo? Certíssimo ou justíssimo, diria o nosso político mais realista da ficção, Justo Veríssimo.  “Pobre tem que morrer!” Era um de seus bordões. Pobre que não é Presidente é como o operário que não é Presidente, como a mulher que não é Presidenta, como o sociólogo e professor que não é Presidente, como o palhaço que não é deputado. Achar que eloquências ou dinâmicas discursivas podem representar as minorias ou a maioria esmagadora, é uma ilusão de ótica. Gostava mais quando o programa televisivo de fim de domingo deprimente (ou em outra ordem) mostrava os ilusionismos de David Copperfield  ou  ainda, quando o Cid Moreira apresentava o Mister M. Pelo menos eram anunciados como deveriam ser: “mágicos”. Sempre gostei muito de mágicos.  O mágico é um sujeito que tem a tal da paciência estratégica. Porque primeiro ele faz todo um trabalho de sedução, ganha a confiança da plateia com seus truques e mãos rápidas. E depois engana seus olhos com muita rapidez e logística. Geralmente faz mais coisas desaparecer que aparecer ou faz coisas desaparecerem e aparecerem em outros lugares, como paraísos fiscais, cofres suíços etc. E para lidar com a desconfiança da plateia? Mais e mais, muita paciência estratégica. Podem ser anos, décadas de paciência.
              Em Grande Sertão Veredas, “Deus é paciência”. O diabo é que está solto na rua, no meio do redemoinho. Parece que o “Coisa Ruim” não é de ter paciência. Não à toa, antes dos manicômios, o tratamento que se dava aos loucos eram os dos serviços clericais, expulsando os demônios que habitavam a loucura: a irrequieta, a extravagante, a excêntrica, a histérica loucura, principalmente a das mulheres. Afinal, só paciência expulsa demônios. Algumas cachimbadas podem até ajudar.  Meus demônios, por exemplo, se chamam “hormônios”.  Tem dias que nem o  melhor dos exorcistas conseguiria lidar com eles, eu asseguro.  Haja paciência!
               Todas as esferas de poder conhecem a importância da paciência. A indústria farmacêutica ganha rios, tubos, malas, cuecas de dinheiros com a Paideia da Paciência. Vende-se de tudo para o sujeito ficar “paciente”. Porque a impaciência é  decididamente o mal estar do século que ainda se inicia, podemos dizer. O século, um adolescente de doze para treze anos... Fase das mais difíceis de lidar. Dá mesmo  vontade de acabar com o mundo. Um horror! Depois que ele casar passa.
            A paciência aqui de casa tem formato de vidro e no rótulo está escrito rivotril. Cinco, dez gotinhas, hum, dá uma paciência da boa... Melhor que chá de cidreira, folha de maracujá, erva que dá no mato... A necessidade de paciência tem essa estratégia. Outro dia, uma colega de trabalho se encostou em mim de canto, falando baixo: “eu sei que você usa rivrotril, dá pra me arrumar umas gotinhas...” Foi divertido sim, me senti a maluca na jaula dando a solução pro enrustido. Sai desse armário, minha filha. Libera essa louca! Deu  nó na garganta, porque a loucura anda tonta, extraviada, banida dentro dos nossos próprios redemoinhos. Na mitologia persa existe a "syngué sabour" ou pedra-da-paciência, uma pedra mágica que guarda os segredos e as angústias de uma pessoa, e que só pode libertá-la dos seus piores sofrimentos no dia em que explodir.  A liberdade então não está na resignação passiva da pedra. Explodir seria sua libertação dos sofrimentos.  Mas que medo, não?  
             Paciência é uma das sete virtudes, fica do lado oposto aos sete pecados. Do latim patientia,-ae, é a virtude de tolerar dissabores, todos os males da vida com calma. Nossa, dei até umas sacudidinhas pra escrever isso, uma coceira na cabeça... Não tenho a menor calma com gente muito calma. Talvez porque o meu pêndulo caia sempre mais para o lado dos pecadores.
          Entendo que nessa nova “era”, não a de Aquário como pensávamos, mas na era da “Autoajuda”, tudo isso venha parecer conversa pra boi acordar. Que o pobre do boi continue dormindo seu sono em berço esplêndido. E que os incomodados que se acalmem.  Entre as palavras de mesmo significado gosto bem mais de “pachorra” que além do duplo sentido sonoro, é plena de significância em sua ambiguidade.  Assim como o ser humano?  Só de falar “pachorra!” já fico até calma.
            Não, não farei um tratado ou testamento contra a paciência. Nada disso. Nonada. O mal não há. A gente é que atravessa o mundo criando, inventando desesperos, pintando a casa de amarelo.  Talvez eu esteja na embrionária vez pela existência. Não consegui nem mesmo ser um ser humano inteiro, porque se assim fosse não me sentiria tão miserável por tantas vezes. Perfeita a ideia de “paciência estratégica” dos dois Presidentes diante das crises, como um jogo de cartas que se joga sozinho. Quem Perdeu? Eu. Quem Ganhou? Eu. O último a bater? Eu.  Mas tudo estrategicamente.
 

Patrícia Porto