segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Garrafas, mensagens e trocadilhos sem mar. Ou por um sonho menos ordinário.



Imagem© Alice Wellinger
Cartas jogadas ao mar?
Não as teremos mais!
De tolas certezas se preenchem a vida dos que andam ao certo.
Agora sim,
é o sal do perecível dos beijos,
do perecível do amor,
do mundo o filho descartado,
o espécime raro engolido pela má sorte.
Saberá quando ancião do dia o mal estar do domingo à noite,
a solidão da geladeira. O pinguim eletrônico. A ração congelada.
Saberá da estátua de um seio amputado,
da bomba anatômica apontada para os nossos umbigos. A perfeição.

Cartas jogadas ao mar?
De insônias passam seus dias, os lobos solitários.
Saberá o filho do mundo - do ínfimo e das margens,
(e por que tantas margens se a alma estará só?)
(por que tantos parênteses?)
Saberá da fragilidade do corpo,
porque terá sido do raciocínio lógico um afogado firme!
Saberá do verso o vespeiro, o excluído, o cortado sem dó.
A palavra que lhe apertará o gatilho. E partirá com ela. Em retirada.

Cartas jogadas ao mar?
Com poucas sentenças deixará sua cidade.
Dirá para velha: "voltarei logo". Mas não voltará nunca.
Saberá por tantos do mapa que não seguirá,
o de veias tortas do mundo, porque será dele
o tempo bastardo e a falta de semelhança com a reta...
Saberá do escudo de uso para morte súbita.
E sentirá a mão de mulher que acenará até o fim. Esperando.
Saberá então do cachorro esquecido no mato. E será dele auto-retrato.

Patrícia Porto