segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Prece para o dia em que te conheço e me perco em teus achados.





porque nunca sairei a mesma.
poesia,

que amanhã não se sofra tanto,
que o dia seja tão claro como escuro
e que se perceba dele os contraditórios,
os freios, os enigmas dos afogados.
A natividade explicita de uma tola esperança.
Que o golpe, enfim, sendo de sorte ou azar,
nunca antecipe desfechos. Deixe em aberto...
Aqui se constrói uma casa de versos, se desmorona
a notícia que outrora dizia no rádio. Mas já não há mais rádio.
E nem ouvidos para ouvir.
E que a água, limpa ou suja, seja o tanto faz: bem dizer, mal dizer, escárnio,
que o humano é um som em marcha que escuto do outro lado, o meu lado, o lado de mim
no outro quarto, na voz da sentença do meu exercício do feio.
Já que te ouço em mares de fluidez e me sinto um ser abjeto exijo perdão.
E que o tempo, sim, seja de farto e corte. E que não sobre. O tempo foi feito para o desgaste,
que se gaste o tempo então vivendo de tudo no esparramado, de todos, nos obscenos da alma caleidoscópica.

Proteja então as estrelas que nos protegem da escuridão
e que a cigarra cante, que a cigana dance,
e que o mensageiro se engane
e só leve da vida a solidão que não nos serve nos bolsos pra carregar como armadilhas,
como armas de grossos calibres da pretensa unção da verdade.

Que o velho seja realmente sábio
e o menino o velho mais sábio ainda.
E que caia do céu a chuva, a têmpora feliz dos renascimentos,
como as chuvas de tarde em minha terra de águas.
Terra aos montes pras meninas correrem, deitarem na lama
como nos bons dias da minha infância.
Ah, e que nunca nos falte o alimento do sonho, a larva da palavra,
o susto da arte: o riso, a risada, a vida solta, correndo, atravessando oceanos
a gargalhada. Sonora.

Amém


Patrícia Porto