segunda-feira, 19 de novembro de 2012

PEQUENO CONTO EM TRÊS ATOS ou poema transverso.


© Urszula Kozak

ATO I - OBSERVAÇÃO

Lançar cinzas no Everest é um antigo hábito hindu, que não prejudica em nada a coloração da neve que lhe cobre de branco.

ATO II – A FEBRE

Houve um dia em que a palavra se desprendeu dela como suor de uma noite ardente de febre. A temperatura represada numa altura digital. Sensação estranha e perversa de perda. Na pele as dores de um delírio escorriam no vidro embaçado de um edifício que mal conhecia. As letras em vermelho-neon se espatifavam na calçada, denunciando os atrasos que ela nunca cometeu, mas bem tentou. Sim, os vidros estavam todos atravessados em suas mãos e por não conseguir mais desangrar as digitais: guardou tudo no útero.

ATO III – A GENEROSIDADE

A manhã de sexta chegou trazendo o vazio na claridade. Sentia o vento das altas cordilheiras e achava que cada esquina era um Everest a impor inúmeros limites. Então o sol veio como um ponto desbotado. Subiu ao topo do prédio e de lá lançou todas as cordas de alpinismo. Imaginava o dia em que ergueria esse monumento chamado liberdade. Vôo... Atravessaria a baía em forma de ponte, emergindo de um encontro de águas para desfazer-se em pequenas ondas provocadas pelas barcas. Escoraria-se em estacas e nos rangidos da atracação dos terminais. Um barulho, proporcionado pelo metal e madeira num encontro determinaria a sua partida e a sua chegada.

Precisava ser livre – não para prender, mas para se libertar de seu instinto caçador. Mas sem seu instinto o que faria da vida? Seria uma fera totalmente racional?

Foi assim que ela lançou-se aos mergulhos abissais - sem cordas ou artifícios, pois já não tinha medo de nada: nem do tempo-deus, nem da metafísica, nem de seus próprios genes. Não queria mais viver de palavras emboloradas e de ambições tão alheias a si. Por isso, num gesto exagerado, lançou-se a descobrir o que há de silêncio em lançar cinzas do Everest.

Lançar cinzas no Everest, um antigo hábito hindu, que não prejudica em nada a coloração da neve que lhe cobre de branco.

Patricia Porto