domingo, 4 de novembro de 2012

infâncias em terras de açúcar e sal...

Imagem© Sally Mann.

Quando eu era criança havia uma chuva fina
que gotejava no meu quarto de dormir.
Pingava translúcidos sobre minha rede
que também era cabana e esconderijo.
Lá eu me vestia de chambre de passarinho,
brincava de gotejar com a chuva as mãos.
Porque nessa infância a gente brincava de ser ilha e natureza.
Vó sabia o tempo certo de cada coisa. Vô, se perdia todo no tempo escorrido.
Vó caçava tarefa. Vô fazia brinquedo de galhos.
Vó era a força. Vô, a expansão.
Vó, sabedoria. Vô, a pa-ciência...
Vó então ralhava: _tem que arrumar a telha, Mário!
Vô fingia de bobo: _amanhã já vejo!
Depois piscava de um olho pra mim e me dava um pedaço de pão ou maçã.
Crianças são sempre passarinhos.
Eu era um daqueles de asa quebrada
e boca e olhos grandes abertos pro mundo. Sempre com fome de tudo.
Mas vô e vó cuidavam de mim
com a delicadeza e a doçura dos que se encontram perto
demais de atravessar um jardim, um bosque, uma floresta inteira.
Não havia nada mais saboroso que aquela velhice de criança.
Vô e vó eram meninos que voltavam pra casa
cheios de infâncias,
com sorrisos largos e histórias de lugares estrangeiros.
Por isso nunca sarei do mal da asa quebrada
e quando sinto a chuva me ponho aninhada a gotejar saudades.

Patrícia Porto