sábado, 17 de novembro de 2012

A mulher na bolha.


Imagem© House of Art, "Nua na Rua", Alessandra Cestac.

A mulher na bolha

           Havia uma bolha criada especialmente para ela. Nesta bolha ela podia acordar, comer, beber, dormir, fazer os serviços da bolha: limpar a bolha, decorar a bolha, receber os amigos, navegar na internet...
              Ela era quase feliz em sua bolha se não fosse o fato de ter que deixar a bolha para se relacionar com outros que tinham em mente projetos muito audaciosos, planos que mal cabiam na sua esfera reduzida de ter uma bolha plástica somente pra si. O que não administrava bem devido às tantas demandas do mercado. Ah, nada como manter uma bolha bem preservada de insetos e de suas imprevistas morfoses! Os anos se passaram sem corte e navalha: a mulher acordando, bebendo, dormindo, recebendo os amigos, navegando na internet... 
               Mas como nenhuma bolha é perfeita, a mulher dessa curta história às vezes se sentia mal e mal se entendia consigo mesma e se entediava. Então resolveu expandir sua bolha para aliviar seus dias de tédio. Era obviamente uma proposta de bolha expandida . Assim, cansada de certa solidão, entrou num site de encontros às cegas e resolveu trazer para dentro de sua bolha um legítimo tratador de bolhas esvaziadas. Era fácil, pois existiam muitos tratadores que viviam em bolhas reluzentes de brilho penetrante. Escolheu e encolheu para que pudesse caber em dois na nova bolha compacta e conjugada. A mulher na bolha seria então quase completamente feliz se a bolha não tivesse apresentado um terrível defeito de reinvenção: o de permitir a entrada de toda espécie danosa de seres que deterioravam bolhas conjugadas.
           A mulher desesperou-se e pediu ajuda aos psico-trópicos e também passou a consumir diariamente uma espécie de bolhatóxico sem receita. O tratador de bolhas já de olhos novamente reluzentes e sangue nos dentes buscava outras bolhas esvaziadas. Antecipada ao desfecho, nada ilusório, a mulher da bolha saiu borrifando o novo vazio a fim de voltar de vez a sua velha rotina: acordar, beber, dormir, receber os amigos, navegar na internet...
            Houve um grande progresso, a mulher, novamente sozinha, limpava e decorava a bolha a seu gosto e desgosto e era agora quase inteiramente sozinha no seu quarto de ser feliz - se não fosse a vida querendo hora ou outra tentar estourar a bolha criada especialmente pra ela.

Patrícia Porto

Imagem© São Paulo Mon Amour, Alessandra Cestac. 
O quarto - uma performance solitária horas a fio.

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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