segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Poeta, a Palavra e a Vertigem da Esquina.


Imagem: Sally Mann



na fase aguda da palavra

agudos acordam
os acordes da voz
- e revelam vestígios esquecidos
de sonoros mundos -
e de dentro, da dor,
se ouve o desejo
que amplifica todo duplo que há em si.

na trama, a roca fia a lira
e toca as perdas do advir
feito faca cortante
um tanto cega de corte.
Corta a vida em partes
sem definhar o amor.

dores doentias fitam-lhe
cara a cara, salto a queda,
pétalas caiem sobre
o corpo doce
da palavra po-ética.
agora pele, desnudada,
vive de espanto e existir:
a espantada.

e os dois agora, mergulhados,
vão ancorados um no corpo do outro:
poeta e palavra
- abrigam o dia da mesma criação...
e toda voz suspira: sou frágil...

de longe se pode ouvir
da palavra: viagem ou miragem,
o abandono de toda forma de estrutura.

transbordados sobre a cheia
que limpa e batiza a balada lírica
dos andantes sobre a terra,
dois andantes sobre a água,
cúmplices professam: sim, loucos!
Pois. Deságuas em mim.


Patrícia Porto