quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Fabricações

Imagem@ Duy Huynh, "turning leaves".

O tempo me sangrou os pés,
mas do pó do tempo eu fiz
esses novos ossos de fabricar brinquedos.
Veja aqui: do tempo da judiação
fiz essa oração de punição,
feito ladainha de voz...
Pra chover mais na terra seca,
na seca terra da existência,
na seca terra das horas magras,
na seca terra, terra de gente feito nó,
eu fiz esse pássaro de papel!
E pra chover forte de ventania,
de vento vasto de ventania
que encobre o olhar: um corte!
Porque no tempo da minha infância
o afago era da pedra e a faca, branca nuvem.
Daí esse rasgo grande no peito do herói:
um desenho sem surpresas.  
Na sua morte agendada uma poeira lenta
foi maquinando os instrumentos,
dedilhando os orifícios
dos horológios
a poer a toalha da mesa, o pão,
uma lágrima de um olho caindo, sôfrega,
o som do abafado sem qualquer,
qualquer rumor de amor na algibeira...

Patrícia Porto