quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Novos Castelos de Kafka.


Imagem@Ricardo Venturini. 
    
          Algumas pessoas já me disseram que sentem uma enorme ou certa claustrofobia na leitura de um Kafka. Sabemos que isso não se dá à toa. Pois se quisermos manter qualquer pequeno diálogo com as obras kafkianas devemos estar pré-dispostos a tentar compreender “que não conseguiremos olhar a alma de um homem através de uma lente”. Precisaremos entrar no obscuro, no mistério, nas sombras, que podem, por fim, revelar o óbvio: não sabemos tanto... E muito do nosso conhecimento pode não passar de uma ilusão arrogante, uma ilusão grávida da nossa medonha ambição que deseja ter e ter mais. Ah, os cenários de Kafka são tão externos quanto internos. E as externalidades revelam do quarto, da casa ou de um castelo, os barulhos de dentro e esses podem ser bem mais altos e bem mais assustadores que os barulhos conhecidos de fora.
                 Ao sairmos à rua, levamos em nossos corpos e bolsas e carros os símbolos da nova e tardia modernidade. Mas bem ali, no cruzamento entre o moderno e a charrete, está aquela senhora elegante, agora mesmo sentada naquele café, o Para-dor, com seu xale fino comprado em Milão. A família costuma ir à Europa, precisamente Paris, uma vez por ano. Ela olha de forma displicente o entorno como fosse uma passageira num trem. O vidro a separa do menino que bate com uma caixa de doces contra. Contra ela? Não, contra o vidro! O vidro é um bom veda-dor de ruídos. Ela se volta discreta e elegante para o seu capuchino. No entanto, seus olhos ao se esquecerem dela, vagam involuntariamente, lançando rabos de olhos para o vidro que, desgraçadamente, lhe estragara um momento raro de dispersão solitária. O menino percebendo o instante da fraqueza da “freguesa” fala sem som: “compra um pra ajudar, tia”. Ela lê seus lábios e finge que nenhum deles, nem ela e nem o menino existem. E pensa relativizando em atos falhos: “nada mais irritante que a pobreza neste país. E o pior é que não podemos fazer nada”. E assim sem olhar para trás, porque para trás ficara o menino, termina seu café vespertino. Mas antes de sair, lê mais uma passagem do livro “O Castelo” de Kafka:
                 “— Mas é justamente isso — disse Frieda. — É disso que estou falando, é o que me faz infeliz, que me afasta de você, ao passo que não conheço felicidade maior do que estar com você sempre, sem interrupção, sem fim; embora nem em meus sonhos eu imagine que exista na Terra um lugar calmo para o nosso amor, seja na aldeia ou em qualquer outra parte, e por isso imagino um túmulo profundo e apertado onde fiquemos abraçados como se fosse com tenazes, onde eu esconda meu rosto em você e você o seu em mim e ninguém nunca mais nos veja.”
                  Kafka nos coloca em suspense, em suspenso, como se o ar que lançassemos para fora na sua curta expressão e comunicabilidade nos ventilasse tanto o corpo causando náuseas. Aquela senhora elegante, chefe de uma renomada instituição pública, no seu salto e posto altos precisou no mesmo dia lidar com dois dissabores: Kafka e o menino do vidro. Ficou mais tempo no café que de costume para ver se aquele menino desaparecia, abduzido por uma miséria maior que a dela própria. Teve sentimentos confusos sobre o amigo que lhe presenteara com aquela aberração literária que em nada lhe ajudara a refletir sobre sua atual posição. Como chefe de um importante setor público via seus subalternos se degladiarem, às vezes aos berros e pequenos empurrões, até mesmo por insignificantes pequenezas. “Não se fazem mais homens públicos como antigamente.” Pensou. “Meu pai sim foi uma grande figura pública. Hoje só vejo ratos e ratoeiras cada vez mais apertadas.” “Que leitura inútil!” E ali determinou que nunca mais voltaria a perder seu tempo precioso com um presente daquela natureza. “Espero que ninguém nunca mais nos ache.”
            Resolveu entrar no Shopping para refletir sobre as novas demandas da América Latina. Na mesa do café o livro de capa à sombra sofria o revés do abandono, mas não mais o pesadelo da incomunicabilidade. Havia tanto humor melancólico na descrição daquela indiferença humana.
           Abraçou-se ao xale naquele fim de tarde fria. Não olhou para trás. Mas do outro lado da rua, uma mão abria com rapidez a porta do café, o vento desfolhara o livro marcado na última leitura daquela distinta senhora. A mão o segurou, abraçando-o contra o peito. Era o menino do vidro correndo pela rua afora. “Pra onde ela foi?"


Patrícia Porto